Florence Welch: A Mística do Pop e seu Novo Álbum

Florence Welch sempre soube transformar dor, misticismo e teatralidade em música. Desde que surgiu à frente do Florence + The Machine, em 2009, ela nunca foi apenas mais uma cantora britânica: foi uma força quase ritualística, uma performer que canta como quem invoca, que dança como quem exorciza. O anúncio de Everybody Scream, marcado para o Halloween de 2025, reforça essa aura — e não deixa de ser simbólico que os primeiros teasers a mostrem de vestido vermelho, evocando imediatamente Kate Bush em The Red Shoes. Essa ligação não é um acaso: Florence é herdeira direta de uma linhagem de artistas que transformam o pop em liturgia e feitiçaria.

A história começou com Lungs (2009), um disco que parecia gritar já no título. Misturando indie-pop e gótico, trouxe canções que falavam de morte, obsessão e amor com intensidade crua. Dog Days Are Over virou hino, Rabbit Heart confirmou a teatralidade, e o cover de You’ve Got the Love instalou Florence no coração da cultura pop. Ela aparecia como uma nova voz feminina que não tinha medo de soar excessiva, tribal, estranha. E a minha favorita do album ainda é Drumming song, que já antecipa tudo o que viria a caracterizar Florence: o excesso emocional (como em Ceremonials), a fusão de desejo, morte e misticismo, e a ideia de que cantar é um ato físico e ritualístico.

Ela mesma disse em entrevistas que a música nasceu como tentativa de traduzir “o peso físico do amor” — como se fosse um feitiço sonoro.

Dois anos depois, Ceremonials (2011) consolidou a identidade. Mais épico, mais grandioso, o álbum parecia um rito pagão gravado em estúdio. Hinos como Shake It Out e No Light, No Light soavam como rezas sombrias, e o remix de Spectrum por Calvin Harris levou Florence ao topo das paradas britânicas. Foi também quando as comparações com Kate Bush ganharam força: a mesma teatralidade, o mesmo desejo de transformar dor em arte monumental. Alguns críticos disseram que era “grande demais”, quase sufocante, mas a verdade é que a opulência sempre foi parte do fascínio.

Em 2015 veio a queda, ou melhor, a confissão: How Big, How Blue, How Beautiful expôs uma Florence vulnerável, em crise com relacionamentos e vícios. O tom era mais cru, menos mítico, mais humano. Ship to Wreck e What Kind of Man soaram como cartas abertas. As influências de Fleetwood Mac e Led Zeppelin emergiram, mas o que realmente se destacava era a coragem de despir-se dos rituais e mostrar as ruínas. Foi um álbum de amadurecimento, divisivo, mas necessário.

Três anos depois, High as Hope (2018) aprofundou esse gesto. Se antes havia uma confissão, aqui havia quase um diário. Florence falou abertamente sobre bulimia, alcoolismo, solidão. Foi o disco mais intimista, quase minimalista, com Hunger e Sky Full of Song como destaques. Muitos o consideraram menor justamente por ser contido, mas ele antecipava uma virada do indie pop em direção à introspecção crua e dolorosa.

Então, em 2022, veio Dance Fever, nascido do isolamento da pandemia e inspirado na “coreomania” medieval — o surto coletivo de dançar até a morte. O álbum tinha algo de apocalíptico e libertador ao mesmo tempo. King virou manifesto feminista, Free capturou o desejo de quebrar correntes internas, e My Love trouxe uma faceta mais pop e direta. Era um disco sobre sobreviver, sobre transformar a histeria em catarse. A crítica recebeu bem, e os fãs viram nele uma síntese entre a Florence épica dos primeiros anos e a confessional dos últimos.

Agora, Everybody Scream surge como um retorno às origens teatrais. Anunciado com imagens de Florence cavando buracos, gritando para dentro da terra, vestindo vermelho como se fosse sacerdotisa de um ritual sombrio, o álbum promete ser um exorcismo coletivo. O título já sugere isso: não é um grito só dela, é um grito de todos. Se Dance Fever era sobre a sobrevivência, este novo trabalho parece apontar para a catarse definitiva. A escolha da data, Halloween, encaixa-se perfeitamente nessa lógica.

E é aqui que o eco de Kate Bush se torna inevitável. Assim como Kate, Florence não canta apenas canções: encena mitologias. As duas constroem performances que ultrapassam a música, transformando-as em feitiço, em rito, em teatro. O vestido vermelho de Florence é um chamado a essa tradição: a mulher que dança até cair, que canta até invocar, que usa o corpo como instrumento de exorcismo.

Seja no sopro inicial de Lungs, na grandiosidade de Ceremonials, na ruína de How Big, How Blue, How Beautiful, na confissão de High as Hope ou na histeria libertadora de Dance Fever, Florence Welch nunca deixou de encarnar uma bruxa contemporânea do pop. Everybody Scream chega para reafirmar esse papel: o de artista que não teme o excesso, que se alimenta do místico e que convida o público a atravessar com ela o limiar entre dor e beleza. Um grito coletivo, vermelho e ritualístico, que promete se tornar mais um capítulo inesquecível de sua trajetória.


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