Mais de quinze anos depois do assassinato de Meredith Kercher, na Itália, a história de Amanda Knox ainda continua a atrair câmeras, debates e, claro, séries. Não se trata apenas de revisitar um crime brutal: o caso virou um espelho da forma como sociedades diferentes — e uma imprensa ávida por escândalos — constroem narrativas em torno de uma jovem mulher no centro da tragédia.
Amanda era uma estudante americana em intercâmbio em Perugia quando sua colega de quarto foi encontrada morta. Em pouco tempo, deixou de ser testemunha para se tornar acusada. A polícia e os promotores italianos usaram comportamentos triviais — um beijo na rua, uma suposta frieza diante das câmeras — para sustentarem uma versão de femme fatale. A imprensa, sedenta por uma protagonista para sua trama sangrenta, batizou-a de “Foxy Knoxy”. Daí em diante, a vida real virou um espetáculo midiático internacional.

Foram anos de reviravoltas: condenada, absolvida, recondenada e absolvida novamente. Cada decisão da Justiça reacendia não só a dúvida sobre sua inocência, mas também o debate sobre machismo, falhas processuais e como a opinião pública é moldada mais por imagens e estereótipos do que por provas. É justamente nesse ponto que novas séries encontram sua força: a história de Amanda Knox não é apenas policial, mas cultural.
A produção mais recente sobre o caso aposta nesse terreno fértil. Ao mesmo tempo em que revive os detalhes da investigação e do julgamento, a série tenta desconstruir o espetáculo midiático que a cercou, explorando como Amanda foi tanto acusada de ser uma manipuladora fria quanto retratada como vítima indefesa de um sistema falho. Esse contraste é irresistível para roteiristas, documentaristas e plataformas de streaming: a dúvida nunca se resolve por completo, e isso mantém o público em alerta.
Para quem não é britânico, italiano ou americano, é ainda mais estranho entender o estranho fascínio da história que teve pelo menos 5 documentários e três filmes feitos sobre o tema: dependendo da narrativa ela é uma fria assassina que hoje “lucra” com a história (mesmo tendo passado anos na prisão), ou é uma vítima de preconceito, machismo e ruídos culturais. E é isso que a série A História Distorcida de Amanda Knox (The Twisted Tale of Amanda Knox) quer endereçar.
É preciso lembrar que o crime de Meredith Kercher é oficialmente solucionado: provas com o DNA de Rudy Guede, um jovem marfinense que esteve com a estudantena noite do crime, foram suficientes para condená-lo em 2008 (ele cumpriu pena e deixou a prisão em 2021). Mas há quem ainda duvide de que Guede tenha agido sozinho ou seja o assassino, mesmo que as provas físicas fossem contundentes uma vez que o DNA dele estava no corpo de Meredith e nas roupas dela e espalhado pelo quarto. Ele alega que estava na casa, mas que estava no banheiro quando ela foi atacada e não viu quem a matou. Com medo, fugiu sem chamar a polícia.
O tribunal concluiu que Guede tentou estuprar Meredith e, diante da resistência, a atacou com uma faca. Ela sofreu mais de 40 ferimentos, sendo a causa da morte uma facada profunda no pescoço e a cena do crime indicava violência sexual, ainda que Guede tenha negado.

Mas antes que Rudy Guede tenha sido identificado, a polícia decidiu que Amanha Knox era culpada porque agiu estranhamente: não chorou, estava trocando beijos com o namorado e não era uma pessoa popular entre os amigos. Muitos a viam como sexualmente promíscua e sua dificuldade de falar italiano só contribuiu para mais mal entendidos.
Knox sempre sustentou que sua inocência e despreparo contribuiram para uma visão negativa sobre ela, em especial, a tortura psicológica e física ao qual foi submetida até que confessasse a culpa. O fato é que, pelas discrepâncias das versões, culturalmente, o caso nunca encontrou fechamento. É justamente a ausência de consenso que mantém viva a história em séries, filmes e debates até hoje.
Para grande irritação da família de Meredith, a série atual foi rodada na cidade de Perugia e onde a história realmente aconteceu, isso ajuda e muito a recuperar toda tensão e tragédia de um crime tão violento e estranho. E Amanda está por trás da produção, A História Distorcida de Amanda Knox é mesmo sua versão.
Nos dois primeiros episódios, embora não tenha uma narrativa linear, é preciso reconhecer que é positivo o fato de que o roteiro não coloca Knox necessariamente sob ótica simpática, mas sim uma jovem despreparada que acabou no coração de um crime inacreditável. O fato de que ela entrou na casa, tomou banho e apenas depois viu as marcas de sangue pela casa, é um dos fatos que seus detratores questionam ainda hoje.

A similiridade física de Amanda Knox e a atriz Grace Van Patten ajuda muito a nos colocar no tempo e na história, com uma vulnerabilidade que as imagens jornalisticas da época falharam em captar. Os jornais e TVs entraram na narrativa italiana porque a beleza de Knox era inegável, assim como seus sorrisos fora de hora e o que pareceu frieza de sua parte. Para completar, como foi solicita para ajudar na invetsigação, ela passou de testemunha a suspeita. A sequência do brutal interrogatório – que levou a própria Amanda Knox às lágrimas – é de fato uma grande atuação de Grace.
Ainda veremos a dura realidade da prisão e sua luta por liberdade, afinal ela ficou de 2007 à 2011 atrás das grades, mesmo que inocente. O fascínio pela história, quase 20 anos depois, também persiste porque Amanda Knox não se retirou do debate. Ela escreve, dá entrevistas, participa de podcasts e questiona abertamente como foi julgada mais por seu gênero, comportamento e imagem do que por provas. Ou seja, ao revisitar sua própria história, Knox oferece ainda mais combustível para que a indústria audiovisual continue a explorá-la.
No fim, cada série sobre Amanda Knox é menos sobre descobrir “quem matou” e mais sobre refletir como julgamos — nas cortes e nas capas de jornais — quem acreditamos ser culpado ou inocente. É um caso que nunca termina porque expõe não apenas um crime, mas a forma como a sociedade escolhe contar essa história. Até onde vi, vale a pena conferir.
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