A Dinâmica Familiar de Viserys I em House of the Dragon

Poucos personagens de House of the Dragon são tão marcados pela ambiguidade quanto o rei Viserys I Targaryen. Homem mais conciliador do que guerreiro, mais sentimental do que estrategista, ele governou tentando evitar conflitos — mas criou, sem perceber, a maior guerra civil da história de Westeros. Parte desse colapso nasce não apenas de suas decisões políticas, mas de sua incapacidade de lidar com a própria família.

O ator Paddy Considine defendeu Viserys até o fim: era um bom homem, com boas intenções e um bom Rei, porém foi dragado pela crueldade e violência da política e do Poder vinda dos mais próximos a ele, diga-se Otto Hightower, o conselheiro que racionalizava estar prezando pela instituição, mas que inseriu sua própria filha no processo para fazer parte da linhagem Targaryen.

Ainda que fosse um raro homem do bem em um universo dos maus, a relação de Viserys com Rhaenyra e com os filhos que teve com Alicent Hightower expõe favoritismos, lacunas afetivas e rejeições veladas que pesaram no psicológico de cada um. Ao comparar a série com o livro Fogo & Sangue, fica claro que Viserys não soube ser um pai equânime — e esse desequilíbrio ajudou a acender a fagulha da tragédia. Sim, a guerra civil “é culpa” dele tanto quanto dos queriam a coroa também.

Viserys como pai e rei dividido

Viserys nunca foi um homem de paixões intensas ou de uma visão firme sobre a sucessão. O maior traço dele é a indecisão. Isso se estende à sua paternidade: ele amava Rhaenyra, mas esse amor se confundia com arrependimento e culpa. Afinal, ele sonhou com um herdeiro homem, o que acabou custando a vida de Aemma, sua esposa adorada.

Vimos na série, algo que não tem nos livros, que mesmo apaixonado pela filha, a obsessão de Viserys por um herdeiro homem a fez se sentir preterida, invisível e descartável. A semente da insegurança dela quanto às expectativas paternas floresceu mesmo quando ela recebeu o título de herdeira. Ela sabia que era uma manobra política, liderada por Otto afim de afastar Daemon da linha sucessória. Aliás, é sempre importante ressaltar esse detalhe e voltarei à ele mais à frente: Viserys protelava tanto decisões difíceis que sua voz de comando não era firme, confundindo a todos envolvidos sobre quem efetivamente deveria herdar o trono de ferro.

Quando os filhos com Alicent nasceram, em tese deveria ser natural que Aegon tivesse a primazia. Mas Viserys parecia não ter energia para transferir o favoritismo de Rhaenyra para outro — preferiu manter-se fiel à primeira decisão, mesmo que o custo fosse criar ressentimento nos outros filhos.

A ironia da história é que Viserys mesmo jamais seria Rei se seu avô tivesse feito o que ele fez, noemando Rhaenyra a sucessora. Antes dele, Rhaenys, como filha única do herdeiro de Jaehaerys, deveria ser a primeira, e em seguida, eus filhos, deveriam estar no trono. Mas Jaehaerys fez uma eleição para resolver o impasse e, numa sociedade patriarcal, Rhaenys foi preterida para que seu primo – Viserys – viesse a ser rei. Por isso há quem isente Viserys de culpa pelo conflito entre os Targaryens, afinal ele mudou a regra e a manteve.

A questão passa a ser constitucional: se a tradição era a primogenitura masculina, e ele veio a ter filhos homens com Alicent, não importava mais ter anunciado Rhaenyra como sucessora antes que ela tivesse irmãos. Assim como Rhaenys antes dela, a tradição era “clara”.

Rhaenyra: a favorita

Desde cedo, Viserys tratou Rhaenyra como sua “menina dos olhos”. Há uma dimensão emocional aqui: Rhaenyra era lembrança viva de Aemma, sua primeira esposa, a única que ele realmente amou. Isso criou uma ligação que os filhos com Alicent nunca alcançaram.

Por outro lado, como vimos na série, a relação entre pai e filha tinha seus obstáculos. Rhaenyra se ressentia quanto ao machismo do pai, abertamente sonhando com um filho homem sem perceber que ela entendia isso como rejeição. Depois, e isso é diferente do livro, ela ficou magoada porque ele se casou com sua melhor amiga, Alicent, o que ela sempre considerou uma traição. Como Alicent conseguiu dar a ele o tão sonhado filho, Rhaenyra vivia à espera do momento em que o pai voltaria atrás na decisão ousada de oficializá-la como herdeira. Afinal, ela sabia que ele não a escolheu por ser sua escolha, mas porque ela era a única em um momento que afastaria o ambicioso Daemon da posição de liderança na sucessão.

Mas, para os outros, Rhaenyra, criada no centro da corte e sempre próxima ao pai, teria recebido dele confiança e autoridade, algo impensável para as princesas anteriores na história dos Targaryen. Na verdade, o que para os tradicionalistas parecia insegurança por parte de Viserys era na verdade uma certeza dele de que sim, sua filha era a melhor opção para reinar em Westeros. Mesmo que ele – mesmo so pressão – não tenha mudado, muitos duvidavam de sua convicção.

Em tese, psicologicamente, essa relação sólida com o pai teria moldado Rhaenyra com uma autoestima forte, mas também com uma dependência do afeto e da aprovação dele. É complexo para ela se impor ao machismo e ter certeza ela mesma de sua capacidade. O amor do pai não bastou para sustentá-la como rainha. Pelo menos para metade das Casas de Westeros, o que provocou a Guerra Civil.

Aegon II: o filho ignorado

Aegon II deveria ser o filho esperado, o “sonho realizado” — mas nunca despertou encantamento em Viserys. Parte disso vem do fato de que, quando Aegon nasceu, o rei já estava cansado e sem o mesmo vigor para recomeçar uma narrativa de esperança.

Parte do problema era que Viserys não tinha uma relação de admiração com Alicent como tivera com Aemma. Ou seja, Aegon não carregava a aura romântica de “herdeiro do grande amor”, mas de um filho nascido de uma aliança política. Psicologicamente, isso gera em Aegon um vazio que se traduz em irresponsabilidade, autodestruição e ressentimento. Ele nunca se sentiu reconhecido, então passou a não se levar a sério também.

Ao ser dragado – literalmente – para o centro da disputa, Aegon II, cujo ego fragilizado se empolga com a adoração (percebida, não necessariamente real) dos súditos, embarca no questionamento que sempre foi o problema de toda saga: a misoginia da sociedade. Mais tarde, Daenerys se sente ameaçada, com razão, quando a identidade de Jon Snow é revelada como a de Aegon VI, pois a série Game of Thrones escolheu outro caminho e não terminou de volta com uma guerra civil, que é essencialmente o que está no coração de House of the Dragon.

Rhaenyra é a herdeira oficializada do trono, mas isso aconteceu antes do nascimento de Aegon II. Dessa forma, é legítimo questionar se o desejo de Viserys I superava as regras sucessórias, assim como é legítimo que Aegon passe a se considerar legítimo como Rei. Sim, Alicent piorou tudo entendendo errado as últimas palavras do marido, mas Aegon foi coroado diante da população e Rhaenyra está lutando para reverter o que já foi feito. A série tem explorado mais a perspectiva dos Verdes (Hightowers) do que dos Pretos (Targaryens), mas é mesmo um impasse incrível para um drama.

Helaena: a filha ignorada pelas expectativas

Helaena, na série, é retratada como peculiar, com traços de introspecção e até visões proféticas. Viserys, no entanto, não parece ter desenvolvido qualquer laço afetivo profundo com ela — ao contrário do cuidado simbólico que demonstra com Rhaenyra. Helaena cresce à sombra da disputa entre irmãos, sem receber o devido apoio. Isso contribui para sua solidão, para a vulnerabilidade mental e para a tragédia que mais tarde marca sua vida.

Aemond: o ressentido

Viserys nunca demonstrou grande carinho por Aemond, mas seu desprezo era menos evidente do que com Aegon. Aemond cresceu vendo-se como o filho “sem dragão”, subestimado, sem afeto paterno e com a mãe pressionando-o para se tornar algo maior. O vazio deixado pelo pai foi preenchido pela obsessão em se provar — o que resulta em coragem, inteligência, mas também em ódio acumulado. Aemond é um dos que mais internalizam a ausência de reconhecimento, canalizando em força e rancor.

Daeron: o esquecido

No livro, Daeron Targaryen (o quarto filho) é mencionado, mas na série até agora foi deixado de fora. Ele viveu distante de Viserys, criado em Oldtown. Essa distância física reforça o quanto o rei não nutria interesse real pelos filhos com Alicent — estavam mais ligados à casa Hightower do que ao afeto do pai.

O contraste com o livro

Em Fogo & Sangue, a parcialidade de Viserys também é clara. Ele nunca revogou o título de Rhaenyra como herdeira, mesmo com Aegon crescendo. Isso alimenta a ideia de que Rhaenyra era, sim, sua preferida, e que os filhos de Alicent nunca tiveram espaço real em seu coração. Mas o livro, escrito na forma de crônica, deixa sempre a dúvida se isso era amor genuíno ou apenas uma teimosia em não admitir erro. A série, ao mostrar Viserys fragilizado e amoroso com Rhaenyra até os últimos instantes, reforça o lado emocional.

Impacto psicológico nos personagens

  • Rhaenyra: autoestima sustentada pelo amor do pai, mas também insegurança política ao perceber que isso não se traduz em lealdade coletiva.
  • Aegon: sensação de abandono, que se converte em hedonismo e autodestruição, mas também em uma necessidade de provar-se à força quando pressionado.
  • Helaena: isolamento, fragilidade mental e falta de apoio, resultando em tragédias pessoais.
  • Aemond: ressentimento, raiva e obsessão em se tornar mais do que os outros, para compensar o vazio deixado pelo pai.
  • Daeron: irrelevância na narrativa central, reflexo do distanciamento paterno.

A ausência de encantamento de Viserys pelos filhos com Alicent não é apenas questão de personalidade deles, mas de contexto emocional e político. Ele já havia depositado sua herança emocional em Rhaenyra, ligada a Aemma, e não tinha vigor para reinvestir em outra geração. Isso deixou os filhos de Alicent órfãos de reconhecimento paterno, moldando-os como figuras trágicas, ressentidas e emocionalmente frágeis — sementes perfeitas para a guerra civil dos Targaryen.



No fim, a história de Viserys é a de um pai que não soube equilibrar o coração e a coroa. Entre Aegon e sua irmã Rhaenyra, que é a herdeira por direito segundo a palavra do rei, formou-se a ferida que jamais cicatrizaria. A dúvida que muitos fãs carregam até hoje — se Viserys gostava de Aegon II — encontra resposta indireta no próprio silêncio do rei. Ele não o odiava, mas tampouco lhe ofereceu o mesmo afeto ou reconhecimento que concedeu a Rhaenyra. Esse vazio moldou Aegon em insegurança e ressentimento, e, ao mesmo tempo, fortaleceu em Rhaenyra a convicção de que o amor do pai legitimava sua luta. O resultado foi a inevitável colisão entre herança emocional e destino político, transformando desatenções paternas em guerra civil.


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