Jay Roach Transforma A Guerra dos Roses em Drama Contemporâneo

Como publicado na Revista Bravo!

É sempre fascinante quando um cineasta conhecido pela comédia — responsável por sucessos como Austin Powers e Entrando Numa Fria (Meet the Parents) — decide revisitar um terreno mais sombrio. Foi exatamente isso que fez Jay Roach ao assumir Os Roses: Até que a Morte os Separe, nova adaptação do romance de Warren Adler, imortalizado nos anos 80 por A Guerra dos Roses.

Pra mim, foi curioso rever esse conto realista e assustador do fim de um casamento agora que sou adulta. A primeira versão, de 1989, ou seja, há mais de 35 anos, me pareceu quase assustadora. Sim, foi estranho reencontrar Kathleen Turner e Michael Douglas, na época mais conhecidos como par romântico de Tudo por Uma Esmeralda, tentando literalmente se matar na divisão de bens em um divórcio. Sabe Sr. e Sra. Smith sem uma reconciliação? Pois é, sem ironias Brad Pitt e Angelina Jolie, hoje travando a “guerra dos rosés” me vêm à mente. O livro de Adler, de 1981, foi bestseller justamente por quebrar o tabu de endereçar o quanto sombrio divórcios podem ser na divisão de bens, e, um casal um dia apaixonado, fica perigosamente belicoso e inimigo quando o amor acaba.

A versão de 1989 mantém essa violência que provoca risadas de incômodo, na nova versão, em vez de apenas observarmos um casal em guerra, assistimos a uma dança perigosa entre amor, identidade e desejo de poder. Roach conversou sobre como transformou essa história em algo mais próximo de uma tragédia shakespeariana, sobre a parceria incendiária de Benedict Cumberbatch e Olivia Colman, e sobre por que acredita que esse filme pode levar casais a refletirem sobre a honestidade dentro de suas próprias relações.

BRAVO!: Como você descreveria o que o público pode esperar de The Roses: Até que a Morte os Separe?
JAY ROACH: The Roses: Até que a Morte os Separe começa da forma como a maioria das comédias românticas nos ensinou que os relacionamentos devem ser. O relacionamento de Theo [Benedict Cumberbatch] e Ivy [Olivia Colman] é, de início, absolutamente invejável. Eles são incrivelmente comunicativos, articulados e espirituosos. Até que seus caminhos os levam a uma nova rota catastrófica. E é uma alegria absoluta assistir Benedict e Olivia atravessarem isso. Este é um filme com momentos muito engraçados, sem dúvida. Mas, em sua essência, é uma tragédia — quase shakespeariana. Esse casal é, de certo modo, feito de amantes desafortunados, mesmo depois de dez anos de casamento. Desde o começo já se percebe que não vai terminar bem, porque a identidade de ambos está em jogo.

BRAVO!: Por que a identidade dos dois está em jogo?
ROACH: Porque as identidades se invertem. Theo, por causa de uma série de eventos, passa de alguém arrogante, confiante e espirituoso, no auge de sua forma, para alguém que perde o rumo e enfrenta uma crise de identidade. Já Ivy, que viveu uma experiência quase subconscientemente reprimida criando os filhos e abrindo mão de parte de sua ambição profissional para ser restauratrice, ganha uma chance de sucesso, poder e agência própria. Ela descobre um brilho que talvez nem soubesse que tinha. E justamente nesse momento de desequilíbrio, eles percebem que confiar no antigo jeito de conversar pode não funcionar mais.

BRAVO!: O que torna Benedict e Olivia tão perfeitos como Theo e Ivy?
ROACH: Eu adoro o humor britânico, e esses dois estão no auge disso. Olivia é incrivelmente engraçada, e o Theo de Benedict lembra um personagem de Peter Sellers. Eles fazem tudo parecer fácil — e ser engraçado é muito difícil. Mas para eles é natural, quase um sexto sentido. Sou fã do Benedict há muito tempo. Achei ele engraçado em Sherlock, considerei Patrick Melrose uma comédia sombria, e ele também é um ótimo comediante físico. E Olivia Colman é hilária desde a primeira vez que a vi na TV britânica, em Fleabag. Ambos são motores cômicos extraordinários, com uma ironia afiada. É impressionante como funcionam juntos aqui. The Roses: Até que a Morte os Separe é um drama, mas claramente busca uma cumplicidade cômica entre público e personagens — e isso é difícil. Não faço comédias há muitos anos. Considero comédia muito mais difícil que drama, porque é alquimia: pegar ingredientes estranhos e acertar algo indefinível e nada científico. Esses dois têm superpoderes nesse aspecto.

BRAVO!: Como você entrou no projeto?
ROACH: Conheci Tony McNamara [roteirista] na primavera de 2023 para falar de outros projetos, e nos demos bem imediatamente. Sou fã de The Great, A Favorita e Pobres Criaturas. Saber que Benedict e Olivia estariam no filme foi, obviamente, um grande atrativo. Assim como o fato de as pessoas falarem que essa versão teria uma escala muito diferente da original. Que usaria alguns padrões e estruturas daquele filme, mas com personagens, ambientação e jornada diferentes em todos os sentidos.

BRAVO!: Em que aspectos ele difere de A Guerra dos Roses (1989)?
ROACH: O filme do Danny [DeVito, que dirigiu] é brilhante. Mas uma diferença-chave é que, no dele, o casal [Michael Douglas e Kathleen Turner] se volta um contra o outro logo cedo. Grande parte da diversão está em ver como eles vão se destruir e quanto tempo isso vai levar. O nosso não é sobre como vão se destruir, mas se vão se destruir. Theo e Ivy passam o filme tentando redescobrir qual é a cola que pode mantê-los juntos e como preservá-la. Claro que há o prazer — afinal é uma comédia sobre divórcio — de ver como eles podem se voltar um contra o outro de maneira deliciosa e cruel. Mas sempre voltam a tentar, e você se pergunta, no meio da autodestruição: será que ainda podem dar certo?

BRAVO!: Como você descreveria o tom da sua abordagem do romance original de Warren Adler?
ROACH: Nos filmes que faço, costumo relacionar tudo com meus sonhos de ansiedade. Não tenho outro tipo de sonho, e meu mecanismo de defesa é rir deles. Como pessoa ansiosa, uso o humor para sobreviver aos momentos difíceis. Acho que casais que aprendem a brincar, rir e provocar nos momentos de tensão revelam uma relação saudável. Mas o filme mostra como essa linguagem pode passar da provocação para o ataque — e às vezes é difícil distinguir uma coisa da outra. Os filmes precisam ser pessoais para mim. Se não, não sei como me envolver no nível necessário para dirigir. Se estou tentando resolver algo em mim enquanto faço o filme, sei que será uma conversa saudável também com o público. No fundo, é isso: trabalhar minhas próprias questões.

BRAVO!: O que o filme tem a dizer sobre relacionamentos modernos e o casamento?
ROACH: Muito. Num nível, fala sobre como você pode ser encantador, espirituoso e inteligente o bastante para que seu parceiro ainda queira estar ao seu lado. Eu invejo casais assim, que cultivam essa linguagem amorosa não tão séria e solene, mas cheia de ironia, sátira e subversão. A comunicação franca é essencial, e vemos isso pelo que acontece com Theo e Ivy. A verdade é que não sabemos exatamente quem somos, muito menos quem é nosso parceiro. Nunca sabemos tudo o que se passa na mente do outro.

BRAVO!: Em The Roses: Até que a Morte os Separe, Theo e Ivy acabam brigando por uma casa dos sonhos. O que ela representa na história e o que você quis que o designer de produção Mark Ricker transmitisse com ela?
ROACH: Essa casa precisava ser perfeita. Ela tinha que ser quase um personagem próprio, porque é a materialização da tentativa de Theo de recuperar seu brilho. Nós até demos à casa uma voz, tipo Siri ou Alexa, quase como o HAL de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Fica claro ao longo da história que os egos de Theo e Ivy estão tão entrelaçados com suas ambições individuais que acabam se perdendo um do outro. A casa os condena porque eles acreditam que precisam desse projeto grandioso para salvar o casamento. Ironia das ironias: a casa acaba sendo um fator da destruição do casamento porque eles depositam nela peso demais.

BRAVO!: E dentro dessa casa temos uma das cenas emblemáticas de The Roses: Até que a Morte os Separe — o jantar que Theo e Ivy oferecem para os amigos. Como foi filmar isso?
ROACH: Eu adoro cenas de jantar. Algumas das minhas cenas favoritas da carreira foram em mesas: aquela em Entrando Numa Fria [com a frase lendária “Eu tenho mamilos, Greg. Você pode me ordenhar?”] e a do Dr. Evil em Austin Powers. Uma mesa de jantar te dá conflito pronto: você organiza as forças em jogo e, de repente, coloca todo mundo preso junto. É um caldeirão cômico, uma panela de pressão. E há algo único no jeito como casais britânicos conversam que os americanos nunca vão entender. Então, quando misturamos os americanos à mesa [Kate McKinnon e Andy Samberg como Amy e Barry, e Zoë Chao e Jamie Demetriou como Sally e Rory], a cena se transforma num enorme mal-entendido cômico. Theo e Ivy tentam esconder a intensidade do conflito, mas o público sabe que isso vai explodir.

BRAVO!: Esse jantar também traz improvisos de um elenco de apoio incrível. O que essa mistura traz a você como diretor?
ROACH: Filmamos várias versões de muitas cenas. O que gosto nesse processo não é apenas receber novas falas e ideias, mas também o fato de que tudo fica mais perigoso. Há menos estabilidade, mais caos, quase fora de controle. Sempre digo que adoro os takes logo depois que os atores se fazem rir e saem do personagem. Quando eles voltam para a cena, há algo vivo que o público percebe. E com comediantes tão talentosos no improviso, tudo se agita. Para mim, isso é o mais divertido da comédia. Foi um desafio aqui porque o tom é de história de amor, com momentos bem dramáticos e sombrios. Mas, claro, o roteiro de Tony já era brilhante, então a maior parte do filme vem dele. Ainda assim, os grandes atores trazem cartas inesperadas que dão frescor.

BRAVO!: O que você espera que o público leve de The Roses: Até que a Morte os Separe?
ROACH: Benedict e eu falamos sobre isso depois da leitura de mesa. Foi surpreendentemente emocionante, mesmo sendo no Zoom, só um monte de quadradinhos com cabeças na tela. No começo todo mundo ria, mas logo ficou claro o quão trágica e devastadora é a história. Quando terminamos, Benedict disse: “Espero que este filme faça cada pessoa virar para seu parceiro e dizer: ‘Precisamos conversar. De verdade. Precisamos ir além da superfície e falar sobre o que está acontecendo, porque se não fizermos isso, podemos nos perder. Podemos deixar de dar o benefício da dúvida um ao outro.’” E acho que isso é a verdadeira magia de qualquer relacionamento. Quando se perde isso, começa-se a escorregar. Benedict conseguiu expressar exatamente o que eu pensava. E é um belo objetivo para se ter ao fazer um filme.


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