Poucas casas em Westeros simbolizam tão bem a interseção entre glória e sobrevivência quanto os Velaryon. De origem valiriana, com um império naval sem paralelo e uma fortuna que rivalizava com os cofres reais, os Velaryon eram a mão invisível que sustentava os Targaryen. Nenhum rei poderia governar sem o poder marítimo dos Portos de Maré Alta. E, ainda assim, foi justamente esse poder que colocou Lorde Corlys — o lendário Serpente do Mar — no centro da Dança dos Dragões, oscilando entre lealdade, traição e pragmatismo.
Na série House of the Dragon, interpretado por Steven Toussaint, Ser Corlys é um homem ambicioso, duro, mas leal. Será que seu destino está mesmo ligado aos Targaryens?

O envolvimento de Ser Corlys com os Targaryens é anterior à guerra civil. Marido de Rhaenys Targaryen, a filha do sucessor do Rei Jaehaerys, ela deveria ter sido Rainha quando seu pai faleceu, mas seu avô decidiu pelo tio dela, para manter a tradição de herdeiros homens como sucessores.
Porém, quando o tio também faleceu, Rhaenys – já com seu primeiro filho com Corlys, julgou que tinha o herdeiro masculino para a Coroa, mas Jaehaerys fez uma votação e Rhaenys foi novamente preterida, vendo seu primeo Viserys sendo coroado Rei. Ser Corlys, tanto por apoio à esposa como por ambição pessoal, nunca disfarçou nem mesmo para Viserys que nunca aceitou por inteiro a conclusão do Conselho.


Ao longo dos anos, se irritava tanto com a influência de Ser Otto Hightower como pela lentidão de Viserys para decidir importantes questões de política ou economia. Quando Viserys nomeou Rhaenyra sucessora, Ser Corlys jurou lealdade à ela. Em seguida, tentou emplacar sua filha como candidata à Rainha, caso Viserys aceitasse se casar com ela (ela acabou casando com Daemon), e redobrou sua fidelidade à Rhaenyra quando ela passou a ser sua nora também.
Assim, desde o início, pode-se dizer que Ser Corlys foi o pilar da causa negra. Seu apoio a Rhaenyra, mesmo após a “morte” de seu filho, era porque ele via nos filhos dela a continuidade da linhagem Velaryon, mesmo que a corte murmurasse sobre a bastardia dos meninos. Mais óbvia na série do que no livro.
Sua frota consolidava o poder da “Rainha Verdadeira”, dando-lhe peso real diante de um reino dividido. Porém, com a guerra se prolongando e Rhaenyra perdendo aliados um a um, o que antes parecia uma aliança inquebrantável foi corroído por mortes, ressentimentos e a dura constatação de que lutar ao lado dela significava condenar a própria Casa.

Como veremos na terceira temporada, o papel de Ser Corlys Velaryon na Dança dos Dragões é absolutamente central — e muitas vezes subestimado quando pensamos apenas nos dragões em si. A guerra não se decide apenas no ar: o mar é a espinha dorsal que sustenta qualquer trono em Westeros, e Corlys, como o lendário Serpente do Mar, é quem garante esse domínio.
O poder naval e econômico
Antes mesmo da guerra estourar, Corlys já era o homem mais rico de Westeros, fruto das suas expedições lendárias que lhe renderam fortunas vindas de Essos, Yi Ti e até Asshai. Essa riqueza transformou a frota Velaryon na mais poderosa de todo o continente. Quando ele decide apoiar Rhaenyra, o movimento é determinante: não é apenas a promessa de dragões, mas também a garantia de rotas de suprimentos, bloqueio naval contra Porto Real e a imposição de um cerco econômico a Aegon II. Sem os Velaryon, a causa negra seria um castelo de areia. Isso tudo foi endereçado na segunda temporada de House of the Dragon.
Logo no início da guerra, quando Rhaenyra é proclamada em Pedra do Dragão, Ser Corlys organiza um cerco naval que sufoca a capital. Nenhum navio podia entrar ou sair de Porto Real sem enfrentar a frota Velaryon. Esse movimento é tão importante quanto qualquer batalha de dragão: sem mantimentos, a população da cidade começa a se voltar contra Aegon II.

Ser Corlys também age estrategicamente para neutralizar potenciais aliados dos verdes. Com sua frota, ele controla rotas próximas a Vilavelha, centro de poder da Casa Hightower. Esse cerco implícito limita a capacidade dos Hightower de enviar reforços e protege os interesses dos negros no mar do Oeste.
Quando voltarmos à Westeros, vamos abrir com a trágica Batalha do Estreito (Gullet). É aqui que Ser Corlys realmente se destaca como comandante. Os verdes, buscando quebrar o bloqueio e trazer apoio de Essos, enviam uma frota para enfrentar os Velaryon. A luta é brutal: dezenas de navios queimam, e os dragões também entram em cena. O drama é que os príncipes Viserys I e Aegon III são pegos pelos inimigos, custando a vida de Lucaerys Velaryon também. Apesar da dor, a vitória consolida o domínio dos negros no Estreito de Gullet e prova o valor tático do Serpente do Mar.

Durante a guerra, Pedra do Dragão se mantém como reduto negro, muito por causa da frota que impede qualquer assalto marítimo direto. Embora não seja uma “batalha” aberta, a manutenção dessa defesa estratégica é crédito direto da liderança de Ser Corlys.
Há relatos (em Fogo & Sangue) de que Ser Corlys usou sua frota para atacar navios mercantes e rotas que sustentavam Aegon II. Essa “guerra econômica” foi tão importante quanto os confrontos diretos, porque minava os cofres da facção verde e mantinha os aliados hesitantes. Mas algo muda nessa trajetória.
Ainda no livro, o relato escrito pelo arquimaestre Gyldayn, comenta que o ponto de ruptura Ser Corlys com Rhaenyra é quase seco, burocrático. Eventualmente, depois de lutar por ela, Ser Corlys é acusado de se envolver numa conspiração para coroar Addam Velaryon, o jovem cavaleiro de dragão, no lugar de Rhaenyra. Septon Eustace fala em traição aberta, Mushroom sugere desespero pragmático: não se tratava de usurpar o trono, mas de salvar a honra e o futuro dos Velaryon quando tudo em volta já se desmoronava. Afinal, a essa altura, Rhaenyra terá perdido (ou acreditato ter perdido) quase todos seus filhos: após Jacaerys, Viserys II é dado como morto (ele é sequestrado por piratas) e Joffrey, o último filho da rainha com Laenor Velaryon, também morre em King’s Landing.
A morte de Joffrey Velaryon elimina qualquer elo familiar entre Ser Corlys e pesa como uma ferida que não se fecha, que só piora quando Rhaenyra manda executar Addam por traição. Ele era inocente e as acusações de deslealdade, são a gota d’água para o Serpente do Mar, que é preso.


A prisão de Ser Corlys é outro episódio emblemático. Rhaenyra o encarcera, e por um instante parece que a rainha rasga de vez o último fio de legitimidade que ainda lhe restava. Sua frota ameaça rebelar-se, mas Ser Corlys não é executado. Por quê? A resposta é simples: porque não havia como governar sem ele. No livro, o tom é claro: foi “salvo” porque era insubstituível.
Quando Aegon II assume o trono após a queda da meia-irmã, não ousa exterminar os Velaryon — prefere libertá-lo e utilizá-lo. O Serpente do Mar sobrevive não por clemência, mas por ser essencial. Assim, no curto reinado de Aegon II, que percebe que destrur Ser Corlys seria suicídio político – a frota Velaryon ainda é essencial para manter o controle marítimo – ele é libertado, absolvido e “absorvido” pelo regime verde. Ele não se torna um comandante ativo de Aegon II e é mais um sobrevivente pragmático, que mantém a Casa Velaryon viva sem oferecer resistência.
Por isso, quando a tirania de Aegon II é confirmada, há uma conspiração que consistia em matar o rei em Porto Real, aproveitando-se do caos e do descontentamento popular, e depois coroar um novo monarca, Aegon, o Jovem (filho de Rhaenyra e Daemon), que seria um herdeiro “consensual
Segundo Septon Eustace, fonte mais moralista de Fogo e Sangue, Ser Corlys teria se juntado ao complô de envenenar Aegon II conscientemente, enquanto Mushroom, sempre mais sarcástico e realista, sugere que Corlys foi apenas um simpatizante ou alguém que “fechou os olhos” para a conspiração, sem de fato planejar o assassinato. O arquimaestre Gyldayn não toma partido e deixa claro que não se pode afirmar com certeza o nível de envolvimento do Serpente do Mar.
Seja como for, quando Cregan Stark chega a Porto Real com o exército do Norte — ele havia marchado em apoio aos negros, mas chegou tarde para a batalha final, ele assume como Mão do Rei em caráter temporário e decide instaurar julgamentos contra todos os que, de uma forma ou de outra, tinham responsabilidade na matança da guerra civil. Era uma espécie de expurgo, conhecido como “Hora do Lobo”, onde o Norte exigia justiça rápida e implacável.

O caso de Corlys
Entre os acusados, estava Ser Corlys Velaryon. Porque ele havia sido preso por Rhaenyra acusado de traição (a conspiração de Hull), depois, fora libertado por Aegon II e, mesmo sem lutar por ele, sobreviveu sob o regime verde. Essa postura ambígua, quase oportunista, ora sustentáculo dos negros, ora sobrevivente sob os verdes, não é bem vista pelo Lord Stark.
Cregan, que tinha uma visão de honra rígida e sem espaço para manobras políticas, considerava Ser Corlys traidor de ambos os lados — alguém que não podia sair impune.
Por que não morreu
Aqui entra a política. A Casa Velaryon, mesmo exaurida, ainda era indispensável para a estabilidade do reino. Sua frota era a única capaz de manter o comércio e as rotas seguras. Executar o Serpente do Mar poderia provocar uma nova instabilidade no mar, justamente quando o reino mais precisava de paz.

Assim, houve um acordo. Alysanne Blackwood defende Ser Corlys, e Cregan (que se casa com ela) executou vários traidores e conspiradores (foi uma carnificina rápida), mas poupou Ser Corlys. O Serpente do Mar sobreviveu, mas sua figura ficou marcada para sempre como símbolo do pragmatismo político — o homem que traiu e foi traído, mas que nunca quebrou porque sabia que o mar de Westeros não sobrevivia sem ele.
A série House of the Dragon, por sua vez, parece ter reescrito esse arco com intensidade dramática. Ao contrário do livro, em que as intenções de Ser Corlys ficam em aberto, a série o coloca diante do público como um homem dividido entre lealdade e sobrevivência. Já vimos até agora que a adaptação engrandece sua participação: não apenas como lorde poderoso, mas como conselheiro, marido de Rhaenys e figura moral que dá peso às decisões da guerra. Os vazamentos da 3ª temporada indicam que esse conflito será encenado em tela, com Ser Corlys confrontado diretamente por Rhaenyra. A frieza documental de Gyldayn será substituída por diálogos tensos, dilemas humanos e a dor de quem perdeu filhos, netos e a fé numa causa que já não tem o povo ao lado.


Enquanto no livro a “traição” é quase nota de rodapé, na série ela deve ganhar ares de tragédia política e pessoal. Veremos não apenas a conspiração de Hull, mas a angústia de um homem que não quer trair, mas também não aceita assistir à extinção de sua Casa. E se no registro histórico ele é apenas preso, no drama televisivo esse momento será transformado em uma ruptura teatral, que marca o desgaste da facção negra e prepara terreno para a inevitável queda.
Esse contraste entre as duas versões é revelador: Fogo & Sangue nos entrega a dúvida — traiu ou não traiu? — e deixa o julgamento para o leitor. Já House of the Dragon dá carne, sangue e emoção ao Serpente do Mar, mostrando que sua escolha não nasce de frieza, mas de amor à família e medo da aniquilação. No fundo, a pergunta não é se Corlys traiu, mas se algum homem poderia permanecer leal diante de uma rainha que sacrificava seus próprios aliados.

O destino final da Casa Velaryon prova que a sobrevivência política exige flexibilidade. Mesmo após a Dança, mesmo enfraquecidos, eles não desaparecem. Seguem como força naval relevante até os tempos de A Song of Ice and Fire, embora jamais recuperem o esplendor dos dias do Serpente do Mar. A razão é clara: dobraram-se, mas não se quebraram.
A trajetória de Ser Corlys é, portanto, um microcosmo da guerra civil. A Dança destruiu dinastias, queimou cidades e ceifou dragões, mas não conseguiu extinguir os Velaryon. Porque uma coisa é certa: reis e rainhas podem morrer, mas o mar sempre permanece. E o mar, em Westeros, sempre foi território da Casa Velaryon.
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