Platonic: quando a amizade vira uma eterna adolescência em crise

Quando Rose Byrne e Seth Rogen estão juntos você sabe que vai rir: de nervoso ou de diversão, depende de você. Os dois quase sempre estão em projetos onde não são protagonistas simpáticos (ao contrário), são adultos apenas de idade porque agem e pensam como jovens — o que em inglês se chama arrested development, quando a maturidade fica “congelada” e a pessoa continua reagindo como se tivesse vinte e poucos anos. E quando se trata de exemplificar pessoas narcisistas e complexas, se destacam. Juntos ou separados. Mas, ainda mais, juntos.

Depois do sucesso de Neighbors (2014), eles voltaram para a sequência Neighbors 2: Sorority Rising (2016) e também dividiram a tela em Like a Boss (2020). Viraram um casal profissional do caos. No reencontro em Platonic, fazem mais do mesmo — e isso é um elogio. A química deles funciona porque não depende de romance, mas da capacidade de criar personagens que vivem no limite do ridículo, equilibrando charme e irritação.

Platonic nasceu da ideia de Francesca Delbanco e Nicholas Stoller e tem uma premissa simples: mostrar os percalços — não românticos — de uma amizade que é caótica por natureza. Sylvia (Byrne) é uma mãe entediada com a rotina, e Will (Rogen), recém-divorciado, atravessa uma crise existencial. Eles eram amigos na juventude e, ao retomarem a relação, desencadeiam uma série de situações tão desastrosas quanto libertadoras: bebedeiras, brigas em público, comportamentos adolescentes em corpos de adultos que já deveriam ter superado essa fase.

A primeira temporada acompanha esse reencontro turbulento. Sylvia, sufocada pela vida doméstica, encontra em Will uma válvula de escape; ele, por sua vez, se apoia nela para não desmoronar. O resultado é que os dois voltam a viver como universitários sem teto, mas agora com filhos, ex-mulheres, maridos e chefes observando de fora o rastro de confusão. O final deixa claro que a amizade, embora desestabilizadora, é também o único espaço de liberdade genuína que cada um deles possui.

Na segunda temporada, lançada em agosto de 2025, a série assume ainda mais confiança. Sylvia começa a perceber que precisa do caos de Will tanto quanto teme as consequências dele. Ele, tentando se reinventar profissionalmente, continua preso a seus próprios tropeços. A crítica foi ainda mais generosa: a série ganhou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, consolidando o que muitos já sabiam — Byrne e Rogen são uma dupla que sustenta qualquer enredo, mesmo quando a trama parece se resumir a assistir dois adultos fugindo da maturidade.

E é justamente aí que mora o problema. O que fica mais evidente, sobretudo agora, é que Platonic vive do fiapo de história que nos prende na angústia: sofremos com os erros e as confusões de Will e Sylvia, mas seguimos à deriva com eles. Não há arco de transformação, não há amadurecimento possível, o que torna cansativo justificar tantas situações inacreditáveis em que se metem.

Por outro lado, 2026 promete ser um ano de prestígio para os protagonistas fora da série: Seth Rogen é o favorito ao Emmy de 2025 por Studio, onde interpreta uma versão ainda mais ácida de suas personas típicas, e Rose Byrne despertou burburinho de Oscar depois de brilhar em Berlim com They Listen. Com esses ventos favoráveis, é bem possível que a Apple TV+ insista em uma terceira temporada de Platonic.

Mas, sinceramente, a pergunta que fica é: pra quê?


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário