Séries históricas vivem de um equilíbrio delicado: ser fieis o bastante para não perder a densidade dos fatos, mas livres o suficiente para criar narrativas que fisguem o público moderno. Nesse jogo, duas produções recentes ocupam lados diferentes da balança. A Netflix, com Vikings: Valhalla, apostou no mito e na aventura dos últimos heróis nórdicos. Já a BBC (e provavelmente no Brasil pela HBO MAX), com King and Conqueror, decide encarar de frente a teia política que culmina na Batalha de Hastings de 1066 — um momento que literalmente redesenhou a história da Inglaterra.
E se há um elo que une essas duas séries, ele está em dois personagens centrais: Emma da Normandia e Godwin de Wessex. Mais do que pano de fundo, os dois são as raízes da confusão sucessória que aparece em King and Conqueror, mas que o espectador já pode reconhecer em Valhalla. Entender sua rivalidade é entender como o trono inglês se transformou em objeto de disputa entre vikings, saxões e normandos.

Emma da Normandia: a rainha-mãe da Inglaterra
Na história real, Emma da Normandia (985–1052) é uma das figuras femininas mais poderosas e intrigantes da Idade Média. Irmã do duque da Normandia (o mesmo território que mais tarde dará origem a William, o Conquistador, que aparece ainda menino, em um episódio da série da Netflix), Emma foi primeiro esposa de Æthelred II, rei da Inglaterra, com quem teve filhos — entre eles Eduardo, que ficaria conhecido como Eduardo, o Confessor. Quando Æthelred morreu, Emma se casou com Knut, o Grande, rei dinamarquês que conquistou a Inglaterra em 1016.

Esse segundo casamento selou a transição do poder anglo-saxão para o domínio viking. Emma, portanto, foi rainha de dois maridos, mãe de dois reis diferentes e sogra de pretendentes ao trono. Na prática, sua vida inteira foi dedicada a preservar o poder dinástico de seus filhos — tanto os anglo-saxões quanto os que teve com Knut. É aí que nasce o problema: o trono inglês, por sua mão, podia ser reivindicado por dinamarqueses, normandos ou saxões.
Em King and Conqueror, Emma é interpretada por Juliet Stevenson em “modo vilã completo”, segundo o Financial Times. A série a apresenta como manipuladora, fria, calculista, sempre jogando com intrigas para manter influência sobre o filho Eduardo. A crítica britânica se divertiu com esse tom hammy — um exagero teatral — que, no entanto, condiz com sua reputação histórica: uma mulher que sobreviveu a dois casamentos políticos e usou seus filhos como peças no tabuleiro de poder europeu.
Já em Vikings: Valhalla, Emma (interpretada por Laura Berlin) tem outro tipo de presença. Ali, ela aparece ainda como rainha no auge, vivendo o dilema de unir filhos e enteados num mesmo trono. Seu olhar é sempre estratégico, e a série acerta ao mostrá-la como um elo vital entre Inglaterra e Normandia. Em Valhalla, Emma não é caricata, mas pragmática — símbolo da aristocracia que sobrevive à violência viking por meio da inteligência política.

Godwin de Wessex: o outsider que virou pilar do reino
Enquanto Emma representava a aristocracia normanda, Godwin de Wessex (1001–1053) é um caso de ascensão improvável. Filho de um thegn (um senhor de baixo escalão), Godwin conseguiu se aproximar de Knut e rapidamente ascendeu a conde de Wessex, uma das regiões mais importantes da Inglaterra. Sua habilidade militar e política o transformou no homem mais poderoso do reino depois do próprio rei. E parar consolidar sua posição, ele se casou com a irmã de Knut, ou seja, sua linhagem também entrou para linha sucessória e aqui está a semente de todo problema que é o coração da série King and Conqueror.

Enquanto Emma representava a aristocracia normanda, Godwin de Wessex (1001–1053) é um caso de ascensão improvável. Filho de um thegn (um senhor de baixo escalão), Godwin conseguiu se aproximar de Knut e rapidamente ascendeu a conde de Wessex, uma das regiões mais importantes da Inglaterra. Sua habilidade militar e política o transformou no homem mais poderoso do reino depois do próprio rei.
Quando Knut morreu em 1035, a luta pelo trono começou. Emma tentava garantir a sucessão para seus filhos, mas Godwin tinha outros planos: queria colocar sua própria família no centro do poder. O resultado foi uma disputa de décadas. Os filhos de Emma (como Eduardo, o Confessor) e os de Knut (como Harthacnut) se alternaram no trono, sempre com Godwin nos bastidores — ora apoiando, ora traindo, sempre garantindo que os Wessex não perdessem influência.
Essa ambiguidade é justamente o que aparece em King and Conqueror. James Norton interpreta Harold Godwinson, filho de Godwin, que herda essa posição central no reino. A diferença é que aqui, em oposíção à narrativa de Vikings: Valhalla, os Godwin não são antagonistas. Harold é mostrado como heróico, quase um homem de ação — aquele que levanta carroças sozinho e quebra portas à força. Mas, por trás desse vigor, está a marca do pai: a capacidade de ocupar espaços, de transformar conexões familiares em ambição política.

Em Valhalla, a presença de Godwin é mais sutil, mas não menos importante. O personagem é retratado como ambicioso, manipulador e disposto a sacrificar alianças para proteger sua linhagem. É um contraste direto com Emma: enquanto ela é a estrategista aristocrática, Godwin é o self-made man que ascende pela força bruta da política. Os dois se tornam antagonistas inevitáveis, porque cada um aposta em herdeiros diferentes para o trono.
O problema da sucessão: filhos contra enteados
O centro da confusão que alimenta tanto Valhalla quanto King and Conqueror está justamente no emaranhado sucessório. Emma já tinha filhos do primeiro casamento (como Eduardo, futuro Confessor) e filhos do segundo casamento, com Knut. Isso criava duas linhas de reivindicação legítima ao trono inglês.
Do outro lado, Godwin se fortalecia na Corte, garantindo casamentos estratégicos: sua filha Edith se casou com Eduardo, o Confessor, tornando Godwin sogro do rei. Assim, sua linhagem também se ligava diretamente ao trono.


Esse nó dinástico é o que, em última instância, leva a 1066: a morte de Eduardo sem herdeiros diretos, a coroação de Harold Godwinson, o retorno das pretensões dinamarquesas (via Harald Hardrada, de Valhalla) e, por fim, a invasão normanda de William, o Conquistador. Emma e Godwin podem ter morrido antes de Hastings, mas o jogo que jogaram é o que pôs todos esses homens no campo de batalha.
Espelhos entre as duas séries
Se o espectador prestar atenção, vai notar que Vikings: Valhalla e King and Conqueror contam lados complementares da mesma história:
- Emma aparece em ambas, como a grande articuladora da linhagem real. Em Valhalla, pragmática e visionária; em K&C, maquiavélica e manipuladora.
- Godwin surge em Valhalla como antagonista, quase um arrivista político, e em K&C através do filho Harold, que herda a missão de transformar o poder conquistado em coroa.
- Os filhos e enteados de Emma, assim como os casamentos dos Godwinson, são peças de um mesmo tabuleiro sucessório.

Valhalla mostra a Inglaterra ainda vulnerável à fúria viking. King and Conqueror mostra a Inglaterra madura em suas disputas internas, pronta para ser engolida por uma potência externa. As duas séries, colocadas lado a lado, compõem uma narrativa épica: a transição da Idade Viking para a Inglaterra normanda.
Mas, assim como a série da Netflix, a produção da BBC altera fatos históricos afim de criar drama: a maneira que Emma morre é diferente, assim como a disputa de Harold Godwinson também difere da realidade. Algo que apenas os mais aplicados em História poderiam identificar, mas é bom ressaltar.

Uma saga em duas telas
Assistir a Vikings: Valhalla e King and Conqueror não é apenas ver duas séries diferentes, mas acompanhar capítulos sucessivos da mesma história. Emma e Godwin, com suas estratégias e antagonismos, são as chaves que permitem entender como a Inglaterra se tornou palco de uma das disputas mais famosas da Idade Média.
Enquanto a Netflix oferece o mito heroico e a última chama viking, a BBC traz o peso da política e da intriga dinástica. Juntas, criam um épico maior — a saga do fim de uma era e do início de outra. Enquanto não estreia internacionalmente vamos nos alinhando e criando expectativa!
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