“Um sonho é um desejo que o seu coração faz quando você está profundamente adormecido.”
A frase, doce e aparentemente ingênua, poderia ser facilmente atribuída a Sigmund Freud, cujo trabalho monumental, A Interpretação dos Sonhos, foi publicado em 1899. Mas, na verdade, nasceu em 1950, na voz de uma princesa da Disney: Cinderella.
A ironia é evidente. Freud concebia os sonhos como realizações de desejos reprimidos, muitas vezes conflitivos, obscuros, até perturbadores. Já a Disney oferece a versão adocicada desse mesmo princípio: os sonhos revelam o que há de mais puro no coração e, mais ainda, funcionam como motores da esperança. É uma psicanálise filtrada pelo otimismo do pós-guerra e pelo mito americano de que basta sonhar para realizar.

Freud no castelo encantado
O que chama a atenção é que, na mesma canção, Cinderella canta: “Nos sonhos, a sua mágoa desaparece / Tudo o que desejar, é seu“. A frase, se vista à luz de Freud, dialoga diretamente com a ideia de que o sonho permite realizar simbolicamente aquilo que a vida desperta nega. O desejo insatisfeito encontra no sono o espaço para se manifestar, ainda que mascarado. Aqui, a Disney suaviza: não há recalque, mas uma promessa de alívio — a dor desaparece, e o desejo é preservado.
Assim, o estúdio não cita Freud, mas opera numa chave cultural já permeada pela psicanálise. Nos anos 1940 e 1950, os Estados Unidos viviam a popularização da terapia freudiana, que saía dos consultórios para se infiltrar no cinema, na literatura e na música. O público médio já associava sonhos a revelações íntimas, a chaves para o “verdadeiro eu”. A canção de Cinderella ecoa esse imaginário.

Canções como espelhos do inconsciente
A Disney, e depois a cultura pop em geral, se apropriou dessa herança freudiana de forma sutil, transformando o inconsciente em poesia otimista. Podemos rastrear esse eco em várias músicas:
- “When You Wish Upon a Star” (Pinocchio, 1940): quase uma versão inaugural da psicanálise Disney, que promete que os desejos mais íntimos podem moldar o destino. Freud diria que são desejos infantis travestidos de fantasia.
- “Somewhere Over the Rainbow” (O Mágico de Oz, 1939): aqui não é Disney, mas está na mesma atmosfera cultural. Judy Garland canta sobre a projeção de um lugar ideal, uma fuga onírica que encarna o anseio de transcendência — puro inconsciente em melodia.
- “Once Upon a Dream” (A Bela Adormecida, 1959): o encontro amoroso sonhado antes de acontecer no real é quase um caso freudiano clássico de desejo antecipado, realizado na esfera onírica antes de se materializar.
- Mesmo em canções mais contemporâneas, como “Sweet Dreams (Are Made of This)” do Eurythmics (1983), o eco permanece: os sonhos são terreno ambíguo, onde desejos, frustrações e fantasias se entrelaçam.


O Freud pop e a promessa Disney
Freud via nos sonhos mensagens cifradas, disfarces do desejo inconsciente. A Disney, ao contrário, transforma essa lógica numa pedagogia otimista: não importa a repressão, importa o sonho que insiste em renascer. É uma reinterpretação cultural que torna o complexo acessível, até infantil, mas não menos poderosa.
Quando Cinderella canta que o coração revela seu desejo durante o sono, ela não está distante do Freud que escreveu, décadas antes, que os sonhos são a estrada régia para o inconsciente. Apenas troca o peso da tragédia pelo bálsamo da esperança.
No fim, talvez essa seja a maior ironia: Freud transformou os sonhos em matéria de análise clínica; a Disney os transformou em matéria de fé popular. Um mesmo conceito, duas traduções, que ainda hoje alimentam tanto consultórios quanto bilheterias.
Além da música: Freud no cinema e na literatura
Esse diálogo não se limita às canções. O próprio cinema, desde os anos 1940, se mostrou profundamente influenciado pela linguagem dos sonhos. Filmes como Spellbound (1945), de Alfred Hitchcock — que contou com uma famosa sequência onírica desenhada por Salvador Dalí — já flertavam abertamente com a psicanálise, traduzindo símbolos do inconsciente em imagens surrealistas.
Mais recentemente, obras como Inception (2010) levaram o tema a outro patamar, transformando os sonhos em arquitetura literal, onde cada camada onírica revela níveis mais profundos da psique — algo que Freud certamente teria reconhecido como metáfora do inconsciente.
Na literatura, o eco não é menor. Desde Kafka, que traduziu o absurdo onírico em realidades sufocantes, até autores contemporâneos como Haruki Murakami, os sonhos aparecem como pontes entre desejo e impossibilidade. O próprio surrealismo literário do século XX nasce quase como uma tradução estética das teses freudianas.

O imaginário coletivo do desejo
O que une todos esses exemplos — de Cinderella a Inception — é a ideia de que sonhar nunca é neutro. É sempre a confissão de um desejo, seja reprimido ou celebrado. E se Freud escancarou esse processo na clínica, a Disney o reencantou no imaginário de massas, dando-lhe forma de música, imagem e esperança. Afinal, foi Freud que resumiu que “sonhos são a realização de um desejo”.
Assim, cada vez que ouvimos “A dream is a wish your heart makes”, não estamos apenas diante de uma canção infantil. Estamos diante da apropriação pop de uma das ideias mais radicais da modernidade: que os sonhos revelam quem somos e o que mais queremos, ainda que nem sempre possamos admitir.
No fundo, Freud e Disney, cada um a seu modo, apontaram para a mesma verdade: os sonhos são bússolas íntimas. Um os decifrou como enigmas do inconsciente, cheios de máscaras e conflitos; o outro os traduziu em melodias e imagens que convidam a acreditar. Do divã ao castelo encantado, da análise clínica ao refrão que atravessa gerações, os sonhos continuam sendo a matéria-prima com que a humanidade fabrica sentido. Talvez por isso, quando fechamos os olhos, tanto faz se estamos no consultório de Viena ou diante da tela de cinema: em ambos os lugares, seguimos ouvindo a promessa de que, enquanto sonharmos, ainda haverá caminhos possíveis para o coração.
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