Jamais imaginei que a guerra da unificação do Havaí fosse render um drama tão bom, mas, repito, para fãs de Shogun, esta série da Apple é o melhor conteúdo enquanto aguardamos voltar para o Japão. E o episódio de hoje, para quem já conhece os spoilers históricos, vai ganhando a proporção de uma tragédia anunciada, onde o destino do herói se revela tanto na política quanto nas escolhas íntimas. Ka’iana (Jason Momoa) emerge como a figura mais dilacerada: aquele que vê o perigo antes de todos, mas que será marcado como traidor.
A cada semana, Chief of War se mostra menos uma série de batalhas e mais um retrato trágico da colisão de mundos. No episódio intitulado de forma direta e devastadora — “Day of Spilled Brains” —, abandona qualquer ilusão de harmonia possível entre os líderes havaianos e os colonizadores. Mais ainda, expõe a desconfiança que também se alastra entre amigos, parentes, aliados e amantes.

A cena central é o massacre perpetrado por Metcalfe, um homem branco ressentido, que transforma a rejeição política em vingança pessoal, bombardeando um vilarejo inocente com canhões carregados de pregos. O horror não vem apenas da violência física, mas da quebra definitiva da confiança: aquilo que parecia diálogo ou negociação revela-se pura armadilha.
Kamehameha insiste em sustentar a paz, preso a uma visão quase idealista de que alianças podem ser firmadas pela diplomacia. Mas, diante das mortes de mulheres e crianças, essa posição se transforma em fraqueza aos olhos dos que o cercam. Ka’iana, que há muito alertava para os riscos, agora se vê tragicamente validado — e, ironicamente, mais isolado do que nunca. Sua família se desfaz em silêncio: sua esposa, que um dia acreditou que ele estivesse morto, se envolveu com o irmão dele, algo que permanece escondido. Agora, movida por ciúmes de sua aproximação com Ka‘ahumanu — não ainda um romance, mas uma conexão palpável de visão e atração —, ela o trai, não por lealdade a Kamehameha, mas por ressentimento. É o tipo de intriga íntima que prepara o terreno para a queda pública: enquanto Ka’iana falha em impedir os brancos e perde sua posição, sua vida privada se estilhaça em segredo.
Para Kamehameha, o ataque será lido como resposta a uma tentativa de ofensiva de Ka’iana, como se sua ousadia tivesse provocado o massacre. Mas nós, espectadores, sabemos que ele estava certo. É nesse ponto que o drama ganha densidade: o herói lúcido é empurrado ao papel de vilão, e a dúvida surge se John Young — figura que transita entre os dois mundos — será capaz de mudar esse destino ou apenas assistir ao inevitável.

A morte de Waine‘e — carregada de uma dor particular porque vínhamos acompanhando sua trajetória como uma fagulha de esperança íntima — reforça o peso desse capítulo. O luto não é só dela, mas nosso, porque marca o momento em que não há mais retorno. Os colonizadores, representados por Metcalfe, não carregam um código de honra, apenas a frieza de quem quer dominar. Daí a frase forte do episódio: “White people cannot be trusted”. Não é apenas um grito de raiva, mas a constatação amarga de uma história que se repetirá, ainda que os personagens resistam a aceitá-la.
Visualmente, a série mantém seu rigor: os canhões cuspindo fogo contra palmeiras, os corpos tombando, o contraste entre a beleza natural e a brutalidade humana. A escolha estética de não romantizar o embate, mas mostrá-lo cru, aproxima Chief of War da tragédia histórica que de fato representa. Não é entretenimento vazio, é um lembrete incômodo de que a colonização sempre foi escrita em sangue.
Este episódio deixa um gosto de ruptura definitiva. O pacto entre povos já não é possível, e o reino de Kamehameha entra em nova fase, agora sem as ilusões que sustentavam o sonho de paz. Para quem não sabe o que vai acontecer, resta a expectativa do desenrolar. Para quem conhece a história, a tristeza já se desenha no horizonte — e cada cena reforça o peso inevitável da queda de Ka’iana.
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