Poucas canções conseguiram condensar, em três minutos, um espírito de época como “Sweet Dreams (Are Made of This)”, lançada em 1983 pelo duo britânico Eurythmics (Annie Lennox e Dave Stewart). Ao mesmo tempo minimalista e enigmática, sombria e dançante, a faixa se tornou não apenas a assinatura do grupo, mas também um dos hinos mais icônicos dos anos 80.
A criação e a letra
“Sweet Dreams” nasceu de um momento de frustração e reinvenção. Annie Lennox e Dave Stewart tinham acabado de encerrar um relacionamento amoroso e viviam uma fase difícil na carreira: estavam sem contrato e em crise criativa. A música surgiu no estúdio caseiro de Stewart, quando ele experimentava uma linha de sintetizador e Annie improvisou o refrão enigmático:
“Sweet dreams are made of this / Who am I to disagree?”
A letra fala de desejos, ilusões e da busca incessante por satisfação. Há quem interprete como um comentário sobre a ganância e o consumismo dos anos 80; outros veem como um retrato íntimo da condição humana, sempre à procura de algo — amor, poder, realização. O tom ambíguo é parte do fascínio: não se trata de uma mensagem otimista, mas também não é inteiramente sombria.

A melodia e a produção
Musicalmente, a canção se apoia em uma batida eletrônica hipnótica e repetitiva, com camadas de sintetizadores que criam uma atmosfera quase mecânica. Essa escolha estética foi deliberada: Stewart usou equipamentos de ponta para a época (como o Oberheim OB-X e o sequenciador Movement), criando um som frio, quase industrial, que contrastava com a voz emocional e intensa de Annie Lennox.
Esse contraste é o coração da música: o humano contra o maquinal, o desejo contra a rigidez do mundo moderno.
O videoclipe
O clipe de “Sweet Dreams” é um marco do MTV age. Dirigido por Chris Ashbrook, mostra Annie Lennox com um visual andrógino — cabelo laranja curto, terno masculino, olhar magnético — que desafiava os padrões de gênero da época.
Atrás dela, imagens de vacas em um campo, computadores, globos e cenários corporativos reforçam o caráter surreal e crítico da canção. Essa iconografia ajudou a cristalizar Annie como um ícone visual, não só musical.


O álbum
A faixa dá nome ao álbum Sweet Dreams (Are Made of This) (1983), que marcou a ascensão definitiva do Eurythmics. Além do single-título, o disco inclui outras faixas importantes como “Love Is a Stranger”, consolidando o duo como parte da nova onda eletrônica britânica que dominava o pop.
Bastidores
Curiosamente, a gravadora inicialmente não acreditava no potencial comercial da faixa. Foi o sucesso orgânico no rádio norte-americano que transformou “Sweet Dreams” em fenômeno global. Em pouco tempo, alcançou o número 1 na Billboard Hot 100 e entrou nas paradas de mais de 20 países.
Versões e reinterpretações
“Sweet Dreams” ganhou dezenas de versões e covers ao longo das décadas. As mais notáveis:
- Marilyn Manson (1995): versão industrial e perturbadora, que trouxe a canção para uma nova geração e virou hit nos anos 90.
- Emily Browning (2011): interpretação etérea para a trilha de Sucker Punch.
- Beyoncé (2007/2009): incorporou trechos em performances ao vivo.
- Além de inúmeros remixes e adaptações em estilos que vão do metal ao eletrônico.
Essa maleabilidade comprova a força da composição, capaz de se reinventar sem perder sua essência.

Como fecha em Wednesday
Quase quatro décadas após o lançamento, “Sweet Dreams” voltou ao centro da cultura pop ao ser usada no encerramento da 2ª temporada de Wednesday (Wandinha), em uma versão de cordas pelo Hampton String Quartet. A música entra como fundo para a narração final da personagem, que revisita o que ficou em aberto — a transformação definitiva de Enid, o retorno dos poderes psíquicos, e a revelação de que Tia Ophelia está viva, escrevendo nas paredes que “Wednesday must die”.
Essa escolha musical não é apenas estética: a melodia em cordas acentua a ironia da canção original, transformando o sonho doce em pesadelo anunciado. O efeito é de suspensão narrativa, deixando claro que tudo o que vimos é apenas o começo, e que a terceira temporada se erguerá sobre essas promessas inquietantes.

Legado
Mais de 40 anos depois, “Sweet Dreams” continua sendo sinônimo de mistério e intensidade. É uma música que parece falar de qualquer época: da obsessão dos anos 80 ao desencanto contemporâneo. O contraste entre o eletrônico repetitivo e a entrega visceral de Annie Lennox a mantém viva — sempre reinterpretada, sempre atualizada, sempre um “sonho doce” com um fundo inquietante.
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