Há músicas que se tornam maiores do que a partitura. Adagio for Strings, de Samuel Barber, e On the Nature of Daylight, de Max Richter, pertencem a essa categoria rara em que a emoção é tão universal que a obra passa a ser quase um sinônimo de luto, perda e contemplação. É impossível ouvir qualquer uma delas sem sentir um nó na garganta — e talvez por isso o cinema e a televisão as tenham adotado como trilhas definitivas da dor humana.
A melodia do impossível: On the Nature of Daylight e o peso da emoção
Entre todas as criações de Max Richter, On the Nature of Daylight ocupa um lugar especial. Escrita em 2004 para o álbum The Blue Notebooks, a peça nasceu como uma meditação sobre a violência e o vazio político, mas acabou atravessando décadas como uma das mais reconhecíveis vozes da melancolia no cinema e na televisão. É impossível ouvi-la sem sentir aquele nó no peito que só a música sabe provocar.
A inspiração vem da busca de Richter por traduzir em cordas o silêncio da dor — uma dor que não é estrondosa, mas que se instala lentamente, como uma ausência. Talvez por isso seja tão comparada ao Adagio for Strings, de Samuel Barber, outra peça que atravessa o tempo como sinônimo de luto e beleza. Barber escreveu nos anos 1930; Richter, no início do século 21. Ambos, porém, parecem dialogar com a mesma pergunta: como transformar em música aquilo que não conseguimos dizer?
Não à toa, On the Nature of Daylight se tornou trilha recorrente em narrativas de grande impacto emocional. Martin Scorsese a usou em Ilha do Medo (Shutter Island, 2010), multiplicando a sensação de tragédia íntima. Denis Villeneuve a escolheu para A Chegada (Arrival, 2016), onde o tempo e a perda se misturam em um gesto de ternura inevitável. A série The Last of Us também se valeu dela para intensificar uma das passagens mais dolorosas de sua primeira temporada, confirmando que a peça já se tornou um código emocional universal.
E agora, em 2025, a música volta a nos atravessar em Hamnet, filme de Chloé Zhao inspirado no romance de Maggie O’Farrell. Se havia alguma dúvida de que a composição poderia se esgotar, basta ouvir como ela se encaixa nessa história de Shakespeare e do luto pela perda de um filho para perceber: por mais repetida que seja, On the Nature of Daylight é infalível em partir nossos corações. Cada vez que surge, ela não apenas acompanha uma cena — ela se torna a cena.
Esse é talvez o maior feito de Richter: criar uma peça que, mesmo tantas vezes reutilizada, nunca perde a força de nos ferir delicadamente. É a música do impossível: transformar a dor em beleza, e a beleza em dor, em um ciclo sem fim.

Barber e o grito do século 20
Samuel Barber compôs o Adagio for Strings em 1936, e desde então a obra se tornou um hino fúnebre do século 20. Tocada em funerais presidenciais nos Estados Unidos e em cerimônias de luto coletivo, como após os atentados de 11 de setembro, a peça ganhou uma aura de solenidade pública.
No cinema, seu impacto foi igualmente decisivo. Oliver Stone a utilizou em Platoon (1986) para intensificar o horror da guerra do Vietnã, enquanto David Lynch a escolheu para O Homem Elefante (1980), sublinhando a delicadeza e a tristeza de um homem à margem. Na televisão, aparece em documentários e eventos sempre que é necessário convocar a ideia de tragédia nacional ou de perda irreparável. O Adagio é o grito coletivo: uma música que não pertence apenas a quem a ouve, mas a toda a humanidade.
Richter e o suspiro do século 21
Max Richter, por sua vez, escreveu On the Nature of Daylight quase setenta anos depois, mas com uma intenção próxima: criar um espaço de contemplação diante do vazio. Só que em vez da grandiosidade romântica de Barber, Richter se apoia no minimalismo. As cordas repetitivas, as variações suaves, o ritmo contido — tudo se organiza para produzir não um grito, mas um suspiro.
No cinema contemporâneo, a peça se tornou onipresente. Scorsese, Villeneuve e Zhao a escolheram para momentos de revelação íntima, enquanto a televisão a transformou em gatilho de comoção imediata. The Last of Us, em particular, consagrou seu lugar na cultura pop ao usá-la no episódio “Long, Long Time”, embalando o adeus de Bill e Frank com a melodia mais devastadora possível. Richter se tornou, assim, a voz musical do luto do século 21: mais silencioso, mais íntimo, mas igualmente universal.

O diálogo entre Barber e Richter
Comparar Barber e Richter não é apenas um exercício estético, mas também histórico. O Adagio for Strings é o lamento monumental do século 20, capaz de traduzir guerras, tragédias e lutos nacionais. Já On the Nature of Daylight é o suspiro do século 21, íntimo, minimalista, desenhado para narrativas pessoais que se tornaram coletivas pela força da tela.
Um é o grito de uma era marcada por guerras mundiais e conflitos ideológicos; o outro é o silêncio dolorido de um tempo fragmentado, onde a violência é difusa e a dor se expressa em pequenas histórias. Mas ambos pertencem à mesma linhagem espiritual: a da música que nos acompanha quando as palavras falham, a da beleza que nasce da ferida.
Talvez por isso, ao ouvirmos Richter, inevitavelmente pensamos em Barber. São dois compositores separados por décadas, mas unidos pela mesma ambição impossível: transformar o indizível em som.
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