Em um grande show no The Town, Bruce Dickinson — vocalista do Iron Maiden, escritor, piloto de avião e um dos nomes mais icônicos do heavy metal — dominou a plateia com seu som pesado e endeusado por fãs que o seguem desde os anos 1980. O público vibrou como se estivesse diante de um ritual: Dickinson, hoje aos 60 e tantos anos, conserva a potência e a presença de palco que o tornaram uma lenda. Feliz por estar de volta ao Brasil quarenta anos depois de sua primeira passagem por aqui, no histórico Rock in Rio de 1985, ele não apenas entregou clássicos do Iron Maiden, como “Tears of the Dragon” e “Revelations ”, mas também fez questão de citar várias vezes aquele que considera seu maior ídolo: o poeta e pintor William Blake.
Esse detalhe, para muitos, pode parecer improvável. O que teria em comum um poeta inglês do século 18, místico e excêntrico, com a energia visceral do heavy metal? Para Dickinson, a resposta é clara: Blake é um visionário, um criador que recusou limites e ousou fundir espiritualidade, crítica social e mitologia própria em sua obra. É exatamente esse espírito de transgressão, de não aceitar o mundo como está dado, que ecoa na trajetória do Iron Maiden e, sobretudo, na carreira solo do vocalista.

Quem foi William Blake
Nascido em 1757 e morto em 1827, Blake foi, em vida, um artista marginal. Poeta, gravador e pintor, dizia conversar com anjos e profetas bíblicos. Seus contemporâneos o julgavam louco, mas hoje é reconhecido como um dos grandes pilares do romantismo. Entre suas obras mais conhecidas estão Songs of Innocence and of Experience (1789/1794), que contrapõe a pureza infantil à corrupção social; The Marriage of Heaven and Hell (1790), que proclama frases ainda lembradas, como “A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”; e Jerusalem (1804–1820), poema transformado em quase um hino nacional britânico, onde ele pergunta:
“And did those feet in ancient time / Walk upon England’s mountains green?
And was the holy Lamb of God / On England’s pleasant pastures seen?”
Blake acreditava que a imaginação era a verdadeira essência da existência. Criou uma mitologia própria, com figuras como Urizen — símbolo da razão opressora —, e elaborou um universo em que política, religião e poesia se fundiam em visões proféticas. Nas artes visuais, desenvolveu técnicas originais de impressão iluminada que uniam imagem e texto, criando livros que eram ao mesmo tempo poemas e pinturas.
O impacto e a herança de Blake
A influência de Blake atravessou gerações. Inspirou poetas românticos como Wordsworth e Coleridge, influenciou modernistas como Yeats e T. S. Eliot, e se tornou uma figura quase mística para Allen Ginsberg, que dizia ter “ouvido” sua voz em experiências visionárias. Artistas plásticos como os pré-rafaelitas o reverenciaram, e mais tarde o surrealismo e até a psicodelia dos anos 1960 o reconheceram como precursor.
Na música popular, a marca de Blake aparece em Bob Dylan, que citou versos seus; em Patti Smith, que declarou abertamente a admiração por sua poesia mística; nos U2, que ecoaram imagens dele em letras e performances; e até em Jim Morrison e The Doors, que partilhavam de sua obsessão por fundir erotismo, espiritualidade e rebeldia. Alan Moore, no mundo dos quadrinhos, bebeu de sua simbologia em From Hell e V for Vendetta. Blake, que em vida mal vendeu seus livros, tornou-se um ícone cultural capaz de atravessar séculos.

William Blake em Bruce Dickinson: versos que viram riffs
Bruce Dickinson não apenas lê Blake: ele o incorpora em sua obra. Seu álbum solo mais celebrado, The Chemical Wedding (1998), é praticamente um tributo ao poeta. A capa traz uma pintura de Blake (The Ghost of a Flea), e as letras estão impregnadas de sua mitologia. O mais fascinante, porém, é observar como Dickinson transforma os versos de Blake em música — às vezes citando-os diretamente, às vezes recriando-os em linguagem sonora.
1. “Jerusalem”
- Blake: “Bring me my bow of burning gold, / Bring me my arrows of desire.”
- Dickinson: canta esses mesmos versos, mas envoltos em guitarras pesadas e coros, transformando a busca espiritual em clamor metálico.
2. “Book of Thel”
- Blake: em seu poema, Thel é uma jovem inocente que teme a mortalidade e questiona o sentido da existência.
- Dickinson: adapta esse universo em uma faixa melancólica e épica, ecoando a mesma sensação de dúvida e de transição entre inocência e experiência.

3. “Gates of Urizen”
- Blake: descreve Urizen, entidade da razão que aprisiona a humanidade em leis e restrições.
- Dickinson: “And he gave his light to the darkness / And he gave his life to the void” — traduz em música a mesma crítica à prisão da racionalidade.
4. “The Trumpets of Jericho”
- Blake: evoca a força bíblica, sempre interpretada em chave visionária.
- Dickinson: transforma o som das trombetas em metáfora da queda das muralhas do conformismo, em riffs estrondosos.
5. “The Alchemist”
- Ecoa o interesse de Blake por alquimia e transmutação espiritual. A canção é uma síntese da fusão de poesia, ocultismo e heavy metal.
Até mesmo o poema mais célebre de Blake, The Tyger, parece reverberar nas escolhas sonoras do álbum. Os versos — “Tyger Tyger, burning bright, / In the forests of the night” — poderiam ser lidos como a própria metáfora do heavy metal: luminoso e sombrio, feroz e belo ao mesmo tempo.

O encontro improvável entre poesia e metal
A devoção de Dickinson a Blake pode parecer, à primeira vista, improvável. Mas, ao olhar mais de perto, faz todo sentido. Blake era um artista que rejeitava limites e que transformava suas visões em obras totais, unindo artes visuais, poesia e espiritualidade. Dickinson, à sua maneira, faz o mesmo: transforma o metal em narrativa, em teatro, em epopeia. Não por acaso, no Brasil, diante de uma multidão em êxtase, o nome de Blake ecoou como se fosse parte natural desse ritual sonoro.
Quarenta anos depois de sua estreia no Rock in Rio de 1985, Bruce Dickinson voltou ao país celebrando não apenas sua carreira e a história do Iron Maiden, mas também a herança de um poeta que morreu pobre e ignorado, mas que continua iluminando gerações. Blake acreditava que a imaginação era a verdadeira substância da vida. Em Dickinson, encontrou um apóstolo moderno, capaz de transformar sua poesia em música épica. E o público brasileiro, sempre tão generoso, pareceu entender: naquele palco, William Blake ressurgia em forma de heavy metal, incendiando a noite como o tigre flamejante que nunca deixou de brilhar.
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