A Namorada Ideal: a Alicent que não tivemos

Ver Olivia Cooke em A Namorad Ideal (The Girlfriend) — thriller dirigido e estrelado por Robin Wright, recém-chegado ao Prime Video — reacendeu minha frustração com House of the Dragon. Não darei spoilers da nova série (ou pelo menos não muitos), mas preciso abrir meu coração: Cherry Laine me fez imaginar como Alicent Hightower poderia ser mais afiada, perigosa e fascinante do que a série nos entrega.

Cherry é uma personagem cheia de nuances, e Olivia simplesmente arrasa no papel. No livro e na tela, ela é complexa e contraditória: filha de um pedreiro e de uma açougueira, luta para se destacar em um mundo que parece fazer de tudo para mantê-la no mesmo lugar. Ao ver a promoção ir para alguém mais privilegiado, “rouba” uma oportunidade de venda que muda seu destino: é assim que conhece Daniel Sanderson (Laurie Davidson), o milionário que se tornará seu namorado — e o centro da tensão psicológica que move a trama.

O mais fascinante, porém, é como Cherry transita entre a vulnerabilidade e o perigo. Suas mentiras “brancas” logo criam um fosso entre ela e a família de Daniel, especialmente Laura, a sogra, que percebe que há algo de errado ali. A série brinca com essa ambiguidade de forma brilhante: em alguns momentos estamos totalmente ao lado de Cherry, entendendo suas motivações; em outros, percebemos que ela é mais perigosa do que parecia, talvez a única realmente capaz de virar o jogo.

E é aí que penso em Alicent.

Nas páginas de Fogo & Sangue, Alicent é uma antagonista de peso. Bem mais velha que Rhaenyra, ela tem ambição e frieza suficientes para se tornar uma força decisiva na guerra civil que quase destruiu os Targaryen. Mesmo sendo um peão no tabuleiro de homens mais poderosos, ela encontra maneiras de manipular, persuadir e garantir que seus filhos estejam sempre um passo à frente. No livro, ela é astuta e perigosa, e isso faz o embate com Rhaenyra eletrizante.

Na série, a decisão de rejuvenescê-la e torná-la amiga de infância de Rhaenyra é interessante do ponto de vista dramático, mas suaviza a personagem. A vimos, na 1ª temporada, como uma mãe frustrada, vivendo uma vida moldada pelo que esperavam dela e percebendo que, apesar de toda a obediência, sua recompensa é ver Rhaenyra — que quebrou regras, foi feliz no amor e no sexo — destinada ao Trono de Ferro. Essa comparação é poderosa. A série não instiga o instinto maternal de Alicent (o que é ousado e interessante), mas a inveja da liberdade e da vida da ex-amiga e enteada.

Na 2ª temporada, em meio aos primeiros conflitos da guerra civil que ela própria provocou, Alicent passa a navegar entre a descoberta sexual com Ser Criston Cole e o distanciamento emocional dos filhos. Depois de perder o neto, ter o primogênito desfigurado e milhares mortos na guerra pela Coroa, ela chega ao ponto de fazer um pacto com Rhaenyra: entregar os filhos homens em troca da possibilidade de fugir e se exilar com a filha, Helaena. Os puristas estão alucinados com essa alteração da história — por mais que modifiquem os eventos, não há como mudar o destino trágico da Dança dos Dragões, e os esforços de ambos os lados parecem vãos.

O problema é que, mesmo com essas escolhas ousadas, a série não explora a Alicent ardilosa e cruel do livro, aquela que, como Cherry, seria capaz de qualquer ato para proteger o que considera seu. Cherry tem um desequilíbrio emocional flagrante, que também a leva à tragédia, mas é fascinante vê-la como personagem ativa, criadora de caos. Alicent, na série, permanece mais vítima do que agente — e é isso que me frustra. Imaginar uma Alicent mais próxima da energia de Cherry, capaz de ir além da moralidade e mergulhar no jogo político com frieza, tornaria House of the Dragon ainda mais explosiva.


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