Martin Short: A Lenda da Comédia que Quer o Emmy Que Falta

Martin Short é o tipo de artista que desafia a definição de “comediante”. Ele não é apenas engraçado: ele é um intérprete completo, capaz de transformar dor em riso, e riso em emoção. Nascido em 1950, em Hamilton, Ontário, no Canadá, Short construiu uma carreira que atravessa televisão, cinema, teatro e voz, sempre com a mesma energia anárquica e o mesmo talento de contar histórias com o corpo inteiro. Seu humor é físico, inteligente e quase sempre um passo à frente do que o público espera. Desde os anos 1980, ele é um rosto familiar para várias gerações — seja como o personagem Ed Grimley, no Saturday Night Live, seja nos musicais da Broadway, nos filmes com Steve Martin, ou mais recentemente em Only Murders in the Building (OMITB).

Do Canadá para o mundo

Short começou sua carreira no lendário SCTV (Second City Television), onde dividiu cena com John Candy, Eugene Levy e Catherine O’Hara — um verdadeiro dream team da comédia canadense. Foi ali que ele criou personagens que entraram para a história e aprendeu o valor do humor de grupo, da improvisação e da escrita coletiva. Sua estreia no cinema aconteceu em 1986, em Three Amigos!, ao lado de Steve Martin e Chevy Chase — um marco não só para sua carreira, mas para sua vida pessoal. Foi no set deste faroeste-paródia que nasceu a amizade de quatro décadas com Steve Martin, que se tornaria um de seus grandes parceiros criativos.

Depois vieram sucessos como Innerspace (Viagem Insólita), Captain Ron (O Capitão Ron), Clifford, Pure Luck (Sorte no Amor), Father of the Bride (1991) e sua sequência de 1995, em que roubou a cena como o excêntrico planejador de casamentos Franck Eggelhoffer. Sua voz também ficou eternizada em animações: foi o padre Tim em The Prince of Egypt, B.E.N. em Planeta do Tesouro, e a voz de Ooblar em Jimmy Neutron: Boy Genius.

Altos, baixos e uma vida pessoal que o moldou

A vida de Martin Short não foi livre de dor. Em 2010, ele perdeu sua esposa, Nancy Dolman, após quase trinta anos de casamento. Foi um golpe duro, que ele processou com delicadeza e humor, transformando o luto em aprendizado. Short costuma dizer que continua “consultando” Nancy mentalmente antes de tomar grandes decisões e que a perda o fez enxergar a vida com mais urgência — escolher papéis que realmente importem, buscar alegria no trabalho e manter a família unida. Ele é pai de três filhos adotivos e, mesmo com a carreira lotada, fala com frequência sobre o orgulho que sente da vida que construiu com eles.

Essa mistura de comédia e melancolia, de humor e vulnerabilidade, é o que faz Oliver Putnam, seu personagem em OMITB, ser tão humano. Oliver é um diretor de teatro falido, vaidoso e exagerado, mas profundamente carente de amor e validação — e há muito de Martin Short nele. Há o humor rápido, os improvisos, a fisicalidade, mas também as fragilidades. Short empresta a Oliver não apenas seu timing cômico, mas também suas inseguranças de artista, seu amor pelo palco, sua compulsão por transformar fracasso em espetáculo. Oliver é, em muitos sentidos, a soma de tudo o que Short aprendeu sobre si mesmo — e sobre como rir, mesmo quando a vida quer fazer chorar.

A amizade com Steve Martin — e a turnê que virou fenômeno

Steve Martin e Martin Short se encontraram em Three Amigos! e nunca mais se separaram. Depois de contracenar em Father of the Bride (e sua sequência), eles transformaram a amizade em turnê: An Evening You Will Forget for the Rest of Your Life, espetáculo de comédia e música, lotou teatros, rendeu um especial da Netflix indicado ao Emmy e virou quase um casamento artístico. Os dois dizem que são confidentes, cúmplices, que se ligam para falar de bobagens, fofocas e, claro, para rir. Essa conexão é visível em cena — em OMITB, eles são o motor do humor, com uma química que parece impossível de se ensaiar.

O encanto (e os rumores) com Meryl Streep

Na terceira temporada de OMITB, o público ganhou um presente: Meryl Streep como Loretta Durkin, interesse amoroso de Oliver. A química entre os dois foi tão imediata que os rumores de romance fora das telas surgiram na mesma hora. Short foi rápido em negar — eles são apenas “amigos muito próximos” — mas é impossível não perceber que a dinâmica dos dois carrega algo de especial. Oliver e Loretta são, talvez, o relacionamento mais doce da série, e Short aproveitou cada nuance para mostrar camadas inéditas no personagem. Foi nessa temporada, aliás, que vieram alguns de seus melhores momentos dramáticos, algo que pode pesar a favor na votação do Emmy.

O homem de prêmios — e o que falta na prateleira

Martin Short já coleciona prêmios importantes: dois Primetime Emmys (um deles por SCTV), dois SAG Awards (incluindo o deste ano, como Melhor Ator de Comédia), um Tony por Little Me na Broadway, além de prêmios honoríficos como a Ordem do Canadá. Ele já foi indicado várias vezes ao Emmy de ator, mas nunca venceu nessa categoria. Esse é o troféu que falta para transformar respeito em consagração.

O desafio de Seth Rogen — e o que está em jogo no Emmy 2025

Na cerimônia deste ano, Short enfrenta um dos campos mais competitivos dos últimos tempos. Ao seu lado na categoria de Melhor Ator em Série de Comédia estão Jason Segel (Shrinking), Jeremy Allen White (The Bear), Adam Brody (Nobody Wants This) e Seth Rogen, que desponta como favorito com The Studio. Rogen é o “novo” da categoria, com uma performance transformadora que capturou o zeitgeist e chamou atenção de críticos e votantes. Mas Martin Short não é apenas um candidato — ele é a alternativa emocional. Depois de ganhar o SAG, ele chega como “o nome a bater” para quem quer premiar uma carreira e uma performance que mistura humor, coração e vulnerabilidade.

Premiar Short seria mais que reconhecer uma boa atuação: seria coroar uma trajetória que ajudou a definir a comédia moderna. Seria dizer que, sim, ele continua relevante, que continua entregando algo novo, que continua, aos 74 anos, fazendo o público rir e se emocionar na mesma medida. O Emmy deste ano é mais que um prêmio — é uma chance de fechar um círculo. Se a Academia seguir o coração, Oliver Putnam finalmente vai dar a Martin Short o troféu que ele merece.quando a vida quis fazer chorar.


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