Almost Famous – 25 Anos Depois: Um Tributo à Magia de Crescer no Meio da Música

Tem filmes que já nascem clássicos. Vinte e cinco anos depois, Almost Famous continua sendo uma carta de amor ao rock, ao jornalismo e à experiência universal de crescer — se sentindo um pouco deslocado, um pouco apaixonado e completamente transformado pelas pessoas e pelas histórias que cruzam o nosso caminho. É um daqueles filmes que resistem ao tempo não porque são perfeitos, mas porque são honestos.

Revendo hoje, o longa de Cameron Crowe — autobiográfico na alma — parece ainda mais raro. Foi feito numa era em que Hollywood investia em filmes pessoais, sensíveis, guiados por personagens e movidos por trilhas sonoras que viravam parte da nossa identidade. William Miller, o garoto de 15 anos que vai cobrir uma turnê de rock para a Rolling Stone, é o alter ego de Crowe, e através dos olhos dele vivemos um rito de passagem que mistura deslumbramento, frustração, desilusão e um amor genuíno pela música.

Um Retrato de Uma Era

Lançado em 2000, Almost Famous chegou aos cinemas em meio a um ano cheio de gigantes: Gladiador, Traffic, Erin Brockovich, X-Men, Náufrago. Não tinha a força de bilheteria dos blockbusters nem o prestígio óbvio do “Oscar bait” — e por isso mesmo parecia um filme pequeno, quase íntimo, que foi crescendo no boca a boca, ganhando status de culto antes mesmo de sair de cartaz. Era um respiro: uma história sobre gente real, apaixonada por música e por contar histórias, num momento em que Hollywood ainda ousava investir em narrativas que não se encaixavam em fórmulas.

O filme também foi responsável por lançar Kate Hudson ao estrelato, em uma das performances mais carismáticas do cinema recente. Penny Lane virou um ícone instantâneo — a band aid que mantém a chama da música acesa. Billy Crudup, por sua vez, virou um improvável guitar hero: ele encarna o magnetismo de palco, o ego e a vulnerabilidade de um guitarrista clássico — e, de repente, toda a ambiguidade do rock setentista tinha um rosto.

Quase foi Brad Pitt

Existe um capítulo delicioso — e pouco conhecido do grande público — na formação de Almost Famous: por quatro meses, Cameron Crowe desenvolveu Russell Hammond com Brad Pitt. Ele e a diretora de elenco Gail Levin tinham Pitt como primeira escolha. Quando Patrick Fugit chegou à fase de testes de câmera para viver William Miller, Pitt ainda estava ligado ao projeto. Fugit lembra do primeiro encontro: cresceu a conexão falando… de videogame. Pitt percebeu o nervosismo do garoto e foi quebrando o gelo ao conversar sobre Cool Boarders: “Hey, man, I’ve been playing this game… Do you play ‘Cool Boarders’?”. Fugit, que jogava “um bocado”, entrou na brincadeira — trocaram “truques”, riram, e quando Cameron voltou à sala, os dois já estavam soltos para a leitura de cenas. Depois, Fugit testou com Kate Hudson — que começava a ser considerada para Penny — e voltou para Utah com aquela sensação de que algo raro estava acontecendo.

O corte, no entanto, viria logo. No podcast Origins: Almost Famous Turns Twenty, Crowe contou que “chorou” quando Pitt decidiu sair. “Eu sabia que ele nunca tinha se apaixonado totalmente pelo personagem. Ele se apaixonou pela ideia do personagem. Talvez não houvesse o suficiente na página”, disse. Ao longo dos anos, surgiram rumores de questões financeiras, mas Crowe afirma que o próprio Pitt lhe disse que não foi por dinheiro; o desconforto com a diferença de idade entre Russell e Penny Lane também pesou. O resto é história: Crudup assumiu e imprimiu um misto de charme e cansaço que se tornou definitivo.

A Trilha Sonora que Virou Ritual

Nenhum filme usa música como Almost Famous. De Elton John a Led Zeppelin, de Simon & Garfunkel ao refrão coletivo de “Tiny Dancer”, a trilha sonora não ilustra: participa da narrativa. Cada canção é um sublinhado emocional — e foi assim que o filme ganhou vida própria nas nossas playlists, cada faixa virando lembrança.

Cameron Crowe foi meticuloso. Conseguiu autorizações raras (inclusive dos próprios Zeppelin) e chamou Peter Frampton como consultor musical para que cada riff, cada gesto de palco, cada microfone tivessem verdade. O resultado é quase tátil: sentimos o suor do backstage, o eco das arenas, a intimidade de um ônibus de turnê às 3h da manhã.

Cameron Crowe e a História Pessoal

Antes de cineasta, Crowe foi o repórter mais jovem da Rolling Stone. Adolescente, carregava um gravador e cadernos cheios de perguntas, convivendo na estrada com Led Zeppelin, Eagles e David Bowie — para desespero compreensível da mãe. Daí nascem os mantras que atravessam o filme (“It’s all happening”), as tensões entre ética e fascínio, e o retrato sem idealização do jornalismo musical. Ele enxergava — e ainda enxerga — Almost Famous como sua peça mais confessional: um equilíbrio delicado entre reverência e desencanto.

“A vida é o melhor roteirista”: Crowe em primeira pessoa

Crowe se descreve como um colecionador de memórias e defende que Almost Famous captura a alegria crua de um tempo em que tudo parecia vida ou morte emocionalmente, antes de criarmos “camadas de couro” para nos proteger. O telefonema de Jann Wenner (editor da Rolling Stone) após a matéria com o Led Zeppelin foi divisor de águas — elogio seguido de ferroada: “mas é texto de escritor?”. Wenner lhe emprestou Slouching Towards Bethlehem, de Joan Didion, e o desafiou a escrever “de verdade”. “Doeu, mas me iluminou”, admite Crowe.

Do período Thin White Duke de Bowie em Los Angeles, ficou a consciência de que o êxtase de um repórter-fã pode coexistir com o desespero do artista — e que o trabalho do escritor é colocar o leitor no banco ao lado, sem anestesia. Sobre Lester Bangs, Crowe preserva a bússola ética: ser amigo por um instante, um ouvinte empático, mas nunca “entrar para a banda”.

Ele também guarda achados de set que viraram assinatura: em Jerry Maguire, sugeriu que Tom Cruise “caísse de propósito” no escritório lotado — o ar saiu da sala, e a cena ganhou humanidade; em Say Anything, John Cusack resistiu ao boombox, até que, no último raio de sol, László Kovács achou o enquadramento e a teimosia certa para a cena virar lenda.

Depois de Vanilla Sky, vieram marés: paternidade ativa, a relação criativa (e o desgaste) com Nancy Wilson (guitarrista da banda Heart), a certeza de que era preciso viver para voltar a escrever. O casamento terminou, a parceria musical ecoa. Hoje, o projeto que o move é um filme sobre Joni Mitchell — “que tem de soar como um álbum da Joni”, depois de anos de conversas dominicais com a própria artista.

O Elenco e o Coração do Filme

O elenco, hoje cheio de rostos consagrados, era uma reunião de talentos prestes a explodir: Kate Hudson luminosa, Billy Crudup como o guitarrista cool Russell Hammond, Frances McDormand como a mãe feroz, Jason Lee como o vocalista ferido, Zooey Deschanel, Anna Paquin… A química entre eles dá peso emocional ao filme — inclusive nos silêncios, nas olhadas que dizem mais que diálogos.

Ecos em Daisy Jones & The Six

Não por acaso, Almost Famous ecoa em Daisy Jones & The Six, série da Amazon que reacendeu a mística do rock setentista em 2023. Se Daisy é novela rock — mais polida, centrada no romance incendiário que implode a banda — Almost Famous é mais íntimo, contado pelo “olhar de fora” do adolescente que tenta ser honesto num mundo de egos, quedas e epifanias. As duas obras se alimentam da mesma fome: capturar o que acontece quando a música vira identidade — e quando a identidade cobra seu preço.

E no Palco: o Musical da Broadway

A reverberação de Almost Famous ganhou nova vida no teatro musical. A adaptação estreou na Broadway em 2022, com canções originais de Tom Kitt, libreto/ letras de Cameron Crowe (a partir do próprio roteiro) e direção de Jeremy Herrin. Casey Likes encarnou William Miller, Solea Pfeiffer foi uma Penny Lane elétrica, Chris Wood viveu Russell Hammond, e Anika Larsen fez uma Elaine Miller tão protetora quanto irresistivelmente humana. O espetáculo levou o espírito do filme para o palco com guitarras ao vivo, cena de ônibus que virou catarse coletiva e números que reimaginam a euforia da estrada. A temporada foi curta — Broadway é implacável —, mas a trilha gravada e as montagens subsequentes manteram o mito aceso. O musical reforça algo essencial: Almost Famous não é só um filme querido; é uma memória compartilhada, uma vibração que ainda encontra frequência em novas gerações.

Por Que Ainda Importa

O mais impressionante é como Almost Famous permanece relevante. É sobre música, sim — mas também sobre ética, sobre crescer e entender que nossos heróis são humanos. William aprende que ser “imparcial” é quase impossível quando o coração está envolvido. Penny Lane nos lembra da beleza e da dor de se perder por alguém que nunca será inteiramente nosso. E Cameron Crowe, com seus cadernos e seus fantasmas gentis, prova que a melhor reportagem — e o melhor cinema — ainda é aquele que nos coloca no banco da frente, com a janela aberta, ouvindo uma música que muda tudo por alguns minutos.

Vinte e cinco anos depois, o filme ainda nos comove porque fala de sonhos — e de como eles se quebram, mas também nos moldam. É um lembrete de que, por mais que o tempo passe, sempre haverá algo de “quase famoso” em todos nós: a sensação de estar à beira de algo grande, vivendo uma história que vale a pena contar. E, como diz Crowe, com um sorriso que ainda é o de um fã: está tudo acontecendo. Está tudo acontecendo.


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