Em poucos dias voltaremos a conviver com os pangarés de Slow Horses — e que falta eles nos fizeram! Sob o comando do insuportável Jackson Lamb, esses espiões desajustados do MI5 vivem tentando provar que ainda servem para algo, tropeçando exatamente nos defeitos que os mandaram para o exílio. O maior drama deles? Não é recuperar prestígio, é escapar do próprio Lamb — o verdadeiro castigo por trás da Slough House.

À primeira vista, Jackson Lamb parece ser apenas uma caricatura malcheirosa do espião decadente: grosseiro, desbocado, politicamente incorreto, dono de uma dieta composta de cigarros e comidas duvidosas, e sem um pingo de paciência para sentimentalismos. Mas a verdade – e é justamente de verdades inconvenientes que Lamb entende – é que ele é um homem que sente demais. Toda a sua persona rabugenta é, na verdade, uma armadura. Uma que foi forjada ao longo de anos de Guerra Fria, mortes justificadas, traições devastadoras e o tipo de decisões que destroem a alma de qualquer agente.
A história de Lamb é inseparável de uma ferida original: a descoberta de que Charles Partner, Diretor-Geral do MI5 e amigo próximo de sua colega Catherine Standish, era um traidor a serviço da KGB. Junto de David Cartwright, veterano e avô de River, Lamb alimentou Partner com informações falsas até que a solução final se tornou inevitável. Partner morreu – oficialmente, por suicídio, mas na prática, Lamb foi seu carrasco. Essa verdade é o segredo que liga Lamb, Cartwright e Diana Taverner, a temida “Lady Di”, em um pacto de silêncio que molda o destino de Slough House.
É por isso que sua relação com Catherine Standish é tão comovente. Ela, que viveu sob a sombra de Partner e chegou a vê-lo como um homem de integridade, tem em Lamb a figura que finalmente destrói essa ilusão. Ele é brutal ao revelar que Partner era um traidor, mas se cala sobre seu próprio papel em sua morte. Lamb prefere que ela viva com a verdade sobre o homem, mas sem o peso de saber quem apertou o gatilho. E quando Standish é sequestrada em London Rules (a temporada de 2025 na série), é impossível não perceber que Lamb se move com raiva e urgência – não apenas para salvar uma subordinada, mas para proteger a última testemunha daquele passado.

Diana Taverner, por sua vez, é o espelho político de Lamb: fria, ambiciosa, calculista. Eles se detestam, mas compartilham o segredo que poderia implodir o MI5. Cada encontro entre os dois é uma batalha de xadrez em que ambos têm as mesmas armas – informação e ameaça velada. Se Lamb parece não ter medo de nada, é porque sabe que detém algo que mantém Diana sob controle. Mas também há um certo respeito entre eles, um reconhecimento de que são duas faces do mesmo serviço: o braço sujo e o rosto limpo da espionagem britânica.
E então há River. O neto de David Cartwright é a ponte viva para o passado de Lamb. O ressentimento que ele sente pelo avô – que seguiu em frente e fez carreira enquanto Lamb ficou “enterrado” em Slough House – se mistura a uma necessidade quase paternal de proteger River. Ele o critica, o humilha, o chama de incompetente, mas é o primeiro a mover céus e terra para mantê-lo vivo. Lamb salvou River mais de uma vez, e não por altruísmo puro: protegê-lo é uma forma de corrigir o que deu errado no passado, de dar uma segunda chance àquele legado.

É essa dualidade que faz de Lamb uma das criações mais fascinantes da ficção de espionagem moderna. Ele é sarcástico e cruel, mas também é o homem que, no fundo, sente o peso de cada aliado perdido – e eles foram muitos ao longo dos livros. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que Lamb está sempre à frente do jogo. Seu radar moral pode parecer torto, mas sua bússola estratégica é precisa. Ele manipula, ameaça e humilha, mas, no final, salva não só a própria pele, como a de sua equipe, e às vezes o mundo inteiro. Sua guerra nunca terminou: ele ainda joga como se estivesse em Berlim, sempre um passo à frente dos inimigos, e um passo à frente dos próprios aliados.
E é impossível falar de Jackson Lamb sem falar de Gary Oldman. Sua interpretação na série da Apple TV+ é nada menos que lendária. Oldman não só dá vida ao personagem: ele o torna tridimensional, encontra o humor na sujeira, o coração na grosseria, a dor por trás do sarcasmo. É fácil esquecer que Lamb nasceu nos livros de Mick Herron – tamanha é a sensação de que Oldman foi feito sob medida para o papel. Mas é justamente essa a força da atuação: ele não inventa um novo Lamb, apenas revela o que Herron já escreveu – e faz isso com um brilho quase cruel.

O mais fascinante em Lamb é que ele prefere a sombra. Depois de tudo o que viveu, de tudo o que fez, ele escolhe continuar “esquecido”, low profile, na casa dos cavalos mancos, lidando com os espiões fracassados e os casos descartados. Mas é desse lugar que ele manipula o tabuleiro, corrige o que precisa ser corrigido e mantém o serviço de inteligência britânico funcionando – mesmo que o MI5 finja que ele não existe. Jackson Lamb é o homem que viu demais, que carrega os fantasmas e ainda assim continua de pé, fumando, xingando e, no fim, salvando o dia.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
