Maria Antonieta: A Rainha Mais Fashion da História

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Há algo de deliciosamente irônico — quase perverso — no fato de Maria Antonieta ser hoje celebrada como ícone fashion, musa de designers e protagonista de uma exposição espetacular no V&A de Londres. Afinal, ela foi a rainha que encarnou, para os revolucionários franceses, tudo o que havia de errado com a monarquia: o luxo desmedido, a alienação da corte, a frivolidade. Foi humilhada publicamente, encarcerada, e morreu na guilhotina aos 37 anos, odiada por muitos de seus súditos. E, no entanto, mais de dois séculos depois, o que sobrevive não é o ódio, mas o fascínio. O que era visto como motivo de condenação — o gosto pelo excesso, o apetite por vestidos e festas — virou objeto de admiração, inspiração e até fetiche cultural.

A exposição Marie Antoinette Style, no V&A, é a prova mais recente dessa reescrita. A instituição britânica reuniu 250 peças, entre vestidos originais, sapatos (ela encomendava dois pares por semana!), joias, móveis e retratos, além de recriar o ambiente do Petit Trianon, aquele refúgio onde a rainha se permitia ser ela mesma. Há, inclusive, a presença simbólica da guilhotina, não para chocar, mas para contextualizar: lembrar que aquela mulher foi vítima de um momento histórico implacável. A própria curadora, Sarah Grant, afirma que o objetivo é “colocá-la no centro de sua própria história”, mostrando não apenas o mito da rainha fútil, mas a jovem que ditava moda, que ousava romper protocolos e que usava a moda como forma de expressão pessoal — e, paradoxalmente, de resistência silenciosa.

Essa “reabilitação” de Maria Antonieta não começou agora. Desde o século 20, a rainha tem sido revisitada por historiadores, romancistas e cineastas com um olhar mais simpático. Stefan Zweig, por exemplo, em sua biografia clássica, preferiu pintá-la como uma mulher sensível, vítima das circunstâncias, quase mártir. Hollywood e o cinema europeu ajudaram a consolidar esse retrato mais humano, transformando a soberana em personagem trágica. Mas foi o filme de Sofia Coppola, em 2006, que a devolveu definitivamente à cultura pop: Kirsten Dunst a interpretou como uma adolescente moderna, cercada de macarons coloridos, músicas de rock indie e uma paleta pastel que redefiniu para sempre o imaginário visual sobre ela.

E faz sentido que ela ocupe esse lugar. Maria Antonieta foi, de fato, pioneira em usar a moda como forma de se diferenciar e se afirmar. Ao lado da costureira Rose Bertin e do cabeleireiro Léonard Autié, transformou Versalhes em uma verdadeira passarela, onde lançava tendências: os vestidos à la reine, as silhuetas mais soltas que escandalizavam a corte por parecerem “desleixadas”, os penteados-pouf que se tornaram ícones da época. Sua obsessão por tudo que vinha da Inglaterra — tecidos, chapéus, até o gosto por paisagens bucólicas — mostrava que ela estava atenta ao que havia de mais moderno na Europa. Era uma espécie de “influencer” avant la lettre, cujo estilo era copiado e comentado em todas as cortes.

Comparar Maria Antonieta com outras rainhas ajuda a entender por que seu mito é tão duradouro. Elizabeth I usava a moda como uma linguagem política, construindo uma imagem de virgem poderosa para consolidar seu trono. Vitória popularizou o preto do luto e o vestido de noiva branco, criando códigos que ainda seguimos hoje. No século 20, Diana, Princesa de Gales, também fez da moda uma arma para se conectar com o povo e se afirmar diante de uma monarquia engessada. Mas Maria Antonieta teve algo que nenhuma delas teve: a combinação explosiva de juventude, ousadia estética e uma morte trágica que a cristalizou no imaginário coletivo. A rainha decapitada virou lenda — e quanto mais o tempo passa, mais ela se transforma em mito pop.

E se hoje podemos ver essas peças de perto, é porque parte do mundo decidiu que ela merecia sobreviver — mesmo quando parecia condenada ao esquecimento. Depois da queda da monarquia, muito do que estava em Versalhes e no Petit Trianon foi saqueado ou destruído, mas uma parte foi vendida em leilões ou guardada em depósitos do Estado francês. Outras peças foram parar em coleções privadas, salvas por pessoas que tinham admiração pela rainha ou simplesmente reconheceram o valor artístico daqueles objetos. É graças a inventários detalhados da Casa da Rainha, monogramas com o “MA”, registros de compra e proveniência e até comparação com retratos contemporâneos de Vigée Le Brun que hoje sabemos que vestidos, joias e móveis exibidos pertenceram mesmo a Maria Antonieta. Na mostra do V&A, por exemplo, um momento emocionante é o reencontro de seu estojo de joias favorito com algumas peças originais, juntos pela primeira vez desde o século XVIII — quase como se a história tivesse se recomposto.

A exposição do V&A não se limita a mostrar o que ela usou: mostra o que ela inspirou. Há vestidos da Moschino dos anos 1990, peças de Vivienne Westwood, criações recentes de Alessandro Michele para Valentino, além dos figurinos do filme de Sofia Coppola. É uma linha do tempo que vai do século 18 às passarelas contemporâneas, provando que Maria Antonieta não é apenas uma figura histórica, mas uma musa que atravessa séculos.

No fim, talvez o que nos atraia em Maria Antonieta seja justamente essa mistura de luz e sombra. Ela representa o fascínio pelo luxo, pela juventude e pela liberdade — e, ao mesmo tempo, o preço que se paga por desafiar convenções. É uma história sobre excesso, sim, mas também sobre vulnerabilidade. Ao celebrá-la hoje como a rainha mais fashion da história, estamos também resgatando algo de nós mesmos: o desejo de beleza, de afirmação e até de transgressão, mesmo sabendo que toda festa um dia acaba. Maria Antonieta, entre o Petit Trianon e a Place de la Révolution, continua nos lembrando que a moda pode ser fútil, mas nunca é inocente.


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