Alien: Earth — Uma Temporada Costurada em Rock

Há algo de quase subversivo em Alien: Earth escolher fechar cada episódio com um corte de rock pesado ou alternativo. Não é apenas um “toque cool” para agradar fãs de música: é uma gramática dramática. Do heavy metal clássico ao grunge, passando pelo desert rock e pela fúria noventista, a série constrói um arco sonoro que acompanha a escalada emocional de seus personagens e da própria narrativa. É um gesto que grita corpo, violência, massa, poder, vício e transformação. E o mais fascinante é que esse arco começa com Black Sabbath e termina com Pearl Jam — dois momentos históricos do rock que, juntos, contam a história de uma guerra entre criadores e criaturas, e da formação de um novo coletivo insurgente.

O primeiro episódio, “Neverland”, abre com “Mob Rules”, da fase Dio no Black Sabbath. Essa música não é só uma escolha estilosa — ela já havia sido usada no filme Heavy Metal (1981) e carrega o peso de uma advertência sobre o poder destrutivo das multidões. O episódio planta as sementes da histeria coletiva e da exploração sistemática que vai mover a temporada. Há algo de irônico em encerrar um capítulo chamado “Neverland”, que brinca com a ideia de infância e fuga, com uma canção que alerta que, quando a turba é manipulada, não há como voltar ao estado de inocência. A mensagem é clara: o público está prestes a assistir ao desencadear de um colapso social e biológico — e a música funciona como um hino de entrada para esse universo.

Em “Mr. October”, segundo episódio, ouvimos “Stinkfist”, do Tool. Poucas bandas são tão adequadas para representar desconforto e choque sensorial. A letra é uma metáfora para o entorpecimento da sociedade moderna, o ponto em que precisamos de estímulos cada vez mais extremos para sentir alguma coisa. É exatamente isso que a série mostra aqui: a escalada da violência, o sadismo das elites, o espetáculo da dor. Maynard James Keenan sempre insistiu que a imagem é simbólica e fala mais sobre vícios e anestesia emocional do que sobre literalidade, o que casa perfeitamente com um episódio que mergulha no horror gráfico e nos lembra que estamos assistindo não só a uma história de sobrevivência, mas a um estudo sobre como a humanidade consome a própria tragédia.

O terceiro capítulo, “Metamorphosis”, termina com “Wherever I May Roam”, do Metallica. Essa faixa é uma ode à liberdade absoluta: o andarilho que não pertence a ninguém, que elege a estrada como esposa e se recusa a ser domado. É o momento da temporada em que tramas se bifurcam e personagens rompem amarras, em que Wendy e Joe experimentam transformações físicas e morais. O sitar elétrico e os modos orientais da introdução trazem uma camada quase mística a esse episódio que é, essencialmente, sobre libertação — mesmo que violenta.

No episódio quatro, “Observation”, a escolha é “Ocean Size”, do Jane’s Addiction, e há algo de poético aqui. Perry Farrell escreveu a música como um desejo de ser “do tamanho do oceano”, de não ser movido por ninguém. A série, nesse ponto, mergulha em perguntas de identidade e agência: o que é uma pessoa? quem controla quem? A música é um grito de autonomia em escala cósmica, quase um manifesto existencial. O mar, imenso e incontrolável, vira metáfora para os híbridos que começam a tomar consciência de seu próprio poder.

“In Space, No One…” — quinto episódio — fecha com “Cherub Rock”, do Smashing Pumpkins, um dos maiores hinos contra a hipocrisia da indústria cultural. Billy Corgan escreveu a faixa como uma crítica à máquina que molda artistas e narrativas. O episódio é um dos mais tensos da série e expõe as engrenagens do desastre que estamos acompanhando. Aqui, tudo é fachada: as corporações criam histórias vendáveis para encobrir exploração e carnificina, e a música escancara essa contradição, denunciando que há um preço por trás de cada narrativa oficial.

O sexto capítulo, “The Fly”, é pontuado por “Keep Away”, do Godsmack, e é impossível não ler esse refrão — “fique longe” — como um aviso direto aos personagens e ao público. É um episódio em que alianças se desfazem, em que se torna perigoso demais estar próximo de certos poderes, sejam eles humanos ou alienígenas. A canção, amplamente lida como um grito para cortar laços com relações tóxicas, reforça o tema da sobrevivência por meio do distanciamento. Às vezes, a única saída é fugir.

No penúltimo episódio, “Emergence”, a marcha fúnebre é conduzida por “Song for the Dead”, do Queens of the Stone Age. Josh Homme escreveu a faixa como uma espécie de cortejo acelerado, um hino para os mortos que, paradoxalmente, é cheio de energia. É a música perfeita para um capítulo que soa como preparação para o fim: cada decisão parece prenunciar a tragédia, e a atmosfera é de contagem regressiva. A escolha de QOTSA é particularmente interessante porque a banda é conhecida por usar o humor negro e o groove para transformar morbidez em catarse — e é exatamente isso que sentimos aqui.

E então chegamos ao gran finale, “The Real Monsters”, encerrado com “Animal”, do Pearl Jam. Essa é uma das faixas mais icônicas de Vs. (1993), e o álbum quase foi batizado com o título “Five Against One”, retirado do refrão da música. Eddie Vedder sempre se recusou a explicar completamente a letra, deixando-a aberta a interpretações que vão desde aversão à mídia até violência ritual ou simplesmente o retrato da raiva coletiva.

Em termos de energia, é uma faixa curta, urgente, que fecha punho e parte para o ataque. É o encaixe perfeito para o momento em que Wendy assume o controle de Neverland, subjugando os criadores e invertendo a hierarquia: agora são os híbridos que ditam as regras, e os xenomorfos aguardam comando. A fúria concentrada de “Animal” dá à cena final um pulso tribal, vingativo, transformando o cliffhanger em uma declaração de guerra. A série começou com “Mob Rules”, uma canção sobre a turba, e termina com um hino de revolta coletiva. Entre esses dois pontos, acompanhamos personagens que passaram do medo de serem devorados para o prazer de devorar — metaforicamente e talvez literalmente.

A curadoria musical de Alien: Earth constrói mais do que um clima: ela conta uma história paralela, um arco sonoro que começa no medo da massa e termina na criação de uma nova massa, insurgente e consciente.

Cada episódio é selado com um comentário musical que amplia a experiência — não só do que acabamos de ver, mas do que está por vir. Ao fechar com Pearl Jam, a série nos entrega um lembrete de que essa guerra está apenas começando. E faz isso com guitarras, baquetas e um refrão que nos convida a gritar junto.


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