House of Guinness tem duas comparações imediatas: Succession e Peaky Blinders. Há intriga familiar, romântica e política, com grande destaque para James Norton (de volta a um papel de antagonista), Anthony Boyle e Louis Patridge como os irmãos ambiciosos Guinness em meio à confusão de uma história inspirada em fatos reais.
É maio de 1868 e o episódio de estreia começa com um tom nada solene: o funeral de Benjamin Guinness, o patriarca que transformou a cervejaria em império, está prestes a acontecer, mas a cidade não está exatamente de luto. De um lado, manifestantes do movimento de temperança, dispostos a protestar contra o nome Guinness e tudo o que ele representa. Do outro, os Fenians, nacionalistas irlandeses que veem Benjamin como um símbolo do poder protestante aliado ao domínio britânico. Para eles, não existe enterro pacífico para um homem cuja máquina ajudou a manter os irlandeses sob jugo britânico. É nesse clima explosivo que conhecemos Sean Rafferty (James Norton), um “resolvedor de problemas” da família, que não hesita em mandar os trabalhadores pegarem porretes e defenderem o caixão do patrão — uma introdução que já deixa claro o tipo de homem que ele é.

Enquanto isso, dentro de casa, o drama é outro. Os quatro filhos de Benjamin se preparam para o funeral. Arthur (Anthony Boyle), o primogênito, é ácido, pragmático e já está de olho na vaga no Parlamento que herdará do pai. Edward (Louis Partridge), mais jovem, prefere o trabalho no chão de fábrica e parece incomodado com o fato de que Arthur herdará o controle da cervejaria. Anne (Emily Fairn) tenta manter uma aparência de unidade familiar, mas suas interações com Rafferty — e a lembrança de que já foi longe demais com ele — revelam que a união dos Guinness está longe de ser perfeita. Já Benjamin Jr. (Fionn O’Shea) parece disposto a dormir sua ressaca, mesmo no dia do enterro do pai.
A dinâmica entre os irmãos é fascinante e dá o tom de algo próximo de Succession, mas ambientado em Dublin vitoriana: filhos privilegiados, cada um com suas ambições, defeitos e segredos, tentando manter a fachada enquanto o império do pai está ameaçado. A cena em que Edward propõe comprar a cervejaria de Arthur em troca de participação nos lucros — libertando o irmão para se dedicar à política — é carregada de tensão e prenuncia futuros conflitos.

Do lado de fora, a cidade ferve. Após uma batalha nas ruas, Rafferty garante que o corpo de Benjamin chegue à Catedral de St. Patrick, restaurada às custas do próprio falecido. É um momento solene, mas a série não fica muito tempo nesse tom: logo vemos Patrick Cochrane (Seamus O’Hara), um líder feniano, articulando ataques para aproveitar o vácuo de poder, enquanto sua irmã Ellen (Niamh McCormack) prefere algo mais cirúrgico — explorar os segredos da família Guinness para dobrá-los. E segredos não faltam. Anne, por exemplo, continua a se encontrar com Rafferty, sob o olhar atento do fiel criado John Potter.
Paralelamente, Benjamin Jr. enfrenta seus próprios demônios: dívidas de jogo com o perigoso Bonnie Champion (David Wilmot) e uma relação autodestrutiva com a bebida. Lady Christine (Jessica Reynolds) lhe oferece casamento e quitação das dívidas, mas Benjamin retruca com uma das falas mais emblemáticas do episódio: “Eu sou a loucura.”
O episódio fecha com fogo — literalmente. Os Fenians incendeiam os barris da cooperagem, criando uma das sequências visuais mais marcantes do capítulo, com Rafferty e Bonnie lado a lado tentando conter as chamas. Ao final, Arthur e Edward refletem sobre o futuro: “A partir de amanhã, tudo se torna real”, diz Arthur, ciente de que a política e os negócios agora recaem sobre seus ombros. Mas o episódio deixa claro que, por trás das portas da mansão, nada está resolvido.

Steven Knight repete a fórmula de Peaky Blinders, mas troca as gangues de Birmingham por aristocratas irlandeses em crise — e funciona. House of Guinness é um drama que pede atenção: há personagens novos surgindo a cada cena, intriga política, disputas familiares e um pano de fundo histórico riquíssimo. Mas é justamente essa densidade que torna a estreia tão promissora. Há algo de irresistível em ver os Guinness vacilarem, os inimigos conspirarem e Dublin arder — tudo embalado por uma trilha sonora moderna, que vai de Fontaines D.C. a Kneecap, sublinhando o caráter punk desse épico histórico.
Se Peaky Blinders era sobre forjar um império do crime, House of Guinness é sobre manter um império de pé — e o preço emocional que isso cobra de quem o herda. Uma estreia intensa, sombria e com muito potencial para se tornar a nova obsessão dos fãs de dramas históricos.
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