Fenianismo: A Sombra Revolucionária que Paira sobre House of Guinness

Para entender o pano de fundo tenso de House of Guinness, é preciso mergulhar no Fenianismo, um dos movimentos revolucionários mais importantes da história irlandesa. Surgido na segunda metade do século 19, o Fenianismo foi mais que um grupo de conspiradores: foi uma ideia, uma promessa de independência, que inflamou a política, o imaginário e as relações de poder na Irlanda.

O nome vem de Fianna Éireann, os lendários guerreiros da mitologia celta. Na prática, os fenians foram representados principalmente pela Irish Republican Brotherhood (IRB), fundada em 1858, uma sociedade secreta dedicada a libertar a Irlanda do domínio britânico por meio da luta armada.

Ideologia e Métodos

O Fenianismo defendia algo radical para a época: uma Irlanda independente, republicana e unida, sem vínculo com a coroa britânica. Ao contrário do movimento Home Rule, que buscava autonomia negociada, os fenians acreditavam que apenas uma insurreição armada poderia pôr fim ao domínio inglês.

Eles organizaram rebeliões, atentados e até ataques internacionais — como as Fenian Raids no Canadá (1866-1871) —, além do Levantamento Fenian de 1867 na própria Irlanda. Mesmo fracassadas militarmente, essas ações mantiveram viva a chama do nacionalismo radical. Na década de 1880, o movimento orquestrou a Dynamite Campaign, uma série de explosões em Londres e outras cidades britânicas, que aterrorizou a população e aumentou o clima de insegurança.

Repressão e Consequências

A resposta britânica foi dura: prisões em massa, execuções e leis de exceção. Ainda assim, o Fenianismo cumpriu seu papel histórico — manteve o debate sobre a independência no centro da política irlandesa e inspirou as gerações seguintes. Sem os fenians, talvez não houvesse a Revolta da Páscoa de 1916, nem a Guerra de Independência Irlandesa (1919-1921) que finalmente levou à criação do Estado Livre Irlandês.

A Ameaça Vista da Casa Guinness

Para famílias como os Guinness — protestantes, ricos e símbolos do poder anglo-irlandês — o Fenianismo representava uma ameaça existencial. A série House of Guinness retrata esse clima de medo de forma intensa: atentados, cartas de ameaça e a sensação de que as paredes da mansão poderiam ruir a qualquer momento.

Arthur Guinness (Lord Ardilaun) de fato recebeu uma carta ameaçadora em 1872, algo que é incorporado na trama e traduz o clima de tensão vivido pelos industriais que eram vistos como aliados de Londres. Na série, essa tensão é ampliada para criar suspense, colocando os personagens no centro de uma Irlanda à beira da transformação. Inclusive, a primeira (?) temporada termina com um atentado (na verdade só houve ameaça) sem que saibamos o que aconteceu.

Por que isso importa para a narrativa

Essa tensão política e pessoal dá à série uma camada histórica que vai muito além do drama familiar. Na vida real, o Fenianismo não desapareceu de uma hora para outra — ele foi transformando-se e inspirando novos grupos, culminando na Revolta da Páscoa de 1916 e na Guerra de Independência. Ou seja, o que House of Guinness mostra como um “fantasma” de ameaça ainda vai se tornar um confronto aberto nas décadas seguintes.

No caso da família Guinness, a participação foi mais contida do que a dramatização sugere: sim, Arthur Guinness (Lord Ardilaun) realmente recebeu ameaças e era alvo de hostilidade, mas não há registro de um atentado consumado contra ele. Ele manteve-se mais ligado ao trabalho filantrópico e ao papel de “landlord reformista”, tentando amenizar tensões sociais sem se envolver diretamente em confrontos armados. A série amplia esse embate para intensificar o drama — o que faz sentido narrativamente, pois coloca o espectador no coração do dilema entre manter privilégios e reconhecer que o país está mudando.

Por isso, o Fenianismo segue sendo central para a narrativa. Caso House of Guinness tenha uma segunda ou terceira temporada, é provável que vejamos essa ameaça latente crescer, conectando os personagens à escalada de violência que levará ao levante de 1916 e, depois, à independência parcial da Irlanda. É uma oportunidade de mostrar como mesmo famílias poderosas tiveram de se adaptar a um mundo que estava deixando para trás o domínio britânico e exigindo uma nova forma de coexistência — algo que faz o drama familiar ecoar com força até hoje.


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