Alguns artistas parecem nascer com a dádiva de atravessar o tempo. Johnny Mathis é um desses nomes raros: sua voz, aveludada e imediatamente reconhecível, completou 90 anos de história junto com ele. No dia 30 de setembro de 2025, o cantor celebra nove décadas de vida, mais de setenta delas dedicadas à música — e permanece como um guardião do romantismo em sua forma mais clássica.
Nascido em 1935, no Texas, e criado em San Francisco, Johnny foi desde cedo dividido entre dois talentos: o esporte e a música. Quase chegou a disputar as Olimpíadas como atleta de salto em altura, mas foi o canto que definiu seu destino. Descoberto ainda adolescente, assinou com a Columbia Records em 1956 e rapidamente encontrou seu lugar com sucessos como Wonderful! Wonderful! e It’s Not for Me to Say. Dois anos depois, com Johnny’s Greatest Hits, inaugurou praticamente o conceito moderno de coletânea — e permaneceu por impressionantes 490 semanas na parada da Billboard.

Num cenário dominado por Elvis Presley e pelo nascimento do rock, Mathis representava outra vertente do sonho americano: a do romantismo sofisticado, embalado por arranjos luxuosos e uma entrega vocal mais próxima do sussurro que da explosão. Seu fraseado suave conquistou casais, famílias e gerações inteiras, tornando-se trilha sonora de encontros, festas e memórias afetivas.
Ao longo das décadas, Mathis nunca precisou reinventar-se dramaticamente. Permaneceu fiel a seu estilo, e essa constância é a sua marca. Ainda assim, foi capaz de dialogar com o novo: em 1978, com Deniece Williams, emplacou Too Much, Too Little, Too Late no topo das paradas, provando que sua voz podia se adaptar sem perder identidade. Mas, em essência, Johnny sempre foi Johnny — e isso bastou.
Sua vida pessoal foi marcada por discrição. Em 1982, chegou a admitir ser gay em uma entrevista, algo arriscado para a época, e depois recuou, preferindo o silêncio sobre o tema. Esse cuidado fez parte de sua persona pública: nunca um escândalo, sempre elegante, um artista que parecia existir mais na música do que na exposição pessoal.
Nos Estados Unidos, talvez nenhum outro cantor seja tão associado ao Natal quanto Johnny Mathis. Seus álbuns natalinos, lançados a partir do fim dos anos 1950, se tornaram tradição familiar, atravessando gerações como herança afetiva — uma espécie de celebração em que sua voz se confunde com a memória do próprio feriado.

Agora, aos 90 anos, Mathis é celebrado não apenas como uma lenda viva, mas como um fenômeno de permanência. Mais de 350 milhões de discos vendidos, mais de 70 álbuns lançados, e uma carreira que nunca cedeu a modismos. Se Sinatra encarnava o charme expansivo e Nat King Cole, a sofisticação calorosa, Mathis se destacou pela delicadeza, pelo gesto quase tímido de quem sussurra ao ouvido.
Chegar aos 90 sem perder relevância é mais que uma conquista: é um testemunho de que o romantismo não envelhece. Johnny Mathis não precisou reinventar-se para permanecer. Bastou ser fiel a si mesmo, guardião de uma promessa: cantar o amor com suavidade. E é por isso que, nove décadas depois, sua voz continua ecoando como se fosse eterna.
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