Henry Gein – O irmão esquecido que pode ter sido a primeira vítima de Ed

Na história de Ed Gein, é impossível escapar do impacto que Augusta, sua mãe dominadora, exerceu sobre ele. Mas há um personagem fundamental que, ao longo dos anos, acabou relegado à sombra: Henry George Gein, o irmão mais velho, que muitos acreditam ter sido a primeira vítima do Açougueiro de Plainfield.

Henry nasceu em 1901, cinco anos antes de Ed, e cresceu sob o mesmo teto marcado por um pai alcoólatra, George, e por Augusta, uma mulher de fé fundamentalista que transformou a casa em um campo de doutrinação. Os filhos eram submetidos a sermões diários sobre luxúria, pecado e condenação eterna. Se Ed absorveu cada palavra, idolatrando a mãe como se fosse uma santa, Henry trilhou outro caminho.

Ao contrário do irmão, Henry era mais crítico e chegou a desafiar Augusta. Relatos da época mostram que ele alertava Ed de que aquela devoção não era saudável. Para Augusta, a maior afronta foi Henry se envolver com uma mulher divorciada, mãe de dois filhos — um comportamento que ela jamais aceitaria. Para Ed, no entanto, a verdadeira heresia estava em ouvir alguém questionar Augusta. A tensão entre os irmãos foi crescendo silenciosamente.

Em maio de 1944, um incêndio na propriedade da família mudou tudo. Henry desapareceu durante a tentativa de apagar as chamas. Foi Ed quem chamou a polícia e, de forma que muitos consideram suspeita, conduziu os oficiais diretamente até o corpo. Henry estava caído no campo, com queimaduras superficiais, mas a causa oficial da morte foi dada como asfixia e falência cardíaca. Ainda assim, havia marcas na cabeça que sugeriam ferimentos que o fogo sozinho não justificaria.

Na época, ninguém investigou. O caso foi arquivado como acidente. Mas, após a prisão de Ed em 1957 e a descoberta de seus crimes inimagináveis, a morte de Henry voltou ao centro das especulações. Teria Ed eliminado o irmão que ousava criticar a mãe? Muitos estudiosos acreditam que sim, e que ali se deu o primeiro passo de Ed rumo ao abismo.

O retrato em Monster: The Ed Gein Story

A série da Netflix não deixa dúvidas: no primeiro episódio, Henry é mostrado como a primeira vítima do irmão. A cena é direta e brutal. Após mais uma discussão sobre Augusta, Ed atinge Henry com um pedaço de madeira, arrasta o corpo para o campo e, em seguida, provoca o incêndio que serviria de encobrimento para a morte.

É uma escolha narrativa significativa. A ficção opta por materializar aquilo que a investigação oficial nunca provou, mas que há décadas circula como suspeita: Ed matou Henry porque ele representava ameaça à sua devoção absoluta por Augusta.

A dramatização também dá a Henry algo que a história real lhe negou: protagonismo. Ao retratar sua rebeldia, suas tentativas de se libertar da influência materna e até seu envolvimento amoroso fora da sombra de Augusta, Monster o mostra como o contraponto que Ed jamais aceitou. O irmão que buscava uma vida normal, e que, justamente por isso, acabou colidindo com a obsessão de Ed.

O elo perdido na tragédia Gein

Se Mary Hogan e Bernice Worden são lembradas como as vítimas confirmadas, Henry é o elo esquecido — e talvez o mais revelador. Sua morte, registrada como acidente, marca o momento em que Ed passou a viver sozinho com Augusta, mergulhando em uma relação simbiótica e destrutiva que terminou com a morte dela em 1945. A partir dali, Ed isolou-se por completo e começou a manifestar os impulsos que mais tarde chocariam o mundo.

Ao incluir Henry em sua narrativa, Monster: The Ed Gein Story reforça uma ideia perturbadora: o horror de Plainfield não começou em 1957 com o corpo de Bernice Worden, nem em 1954 com o desaparecimento de Mary Hogan. O horror pode ter começado dentro da própria casa, em 1944, com a morte de Henry — o irmão que ousou duvidar de Augusta. Mesmo que tenha sido, como a série sugere, uma mescla de acidente e impulso.

No fim, Henry Gein é a vítima que não aparece nos registros oficiais, mas que se tornou essencial para compreender o que Ed viria a se tornar. Ao mesmo tempo em que a realidade histórica mantém sua morte no campo da dúvida, a ficção de Ryan Murphy lhe devolve a dimensão dramática que ele merece: a de um homem que tentou escapar da tirania materna, mas acabou, talvez, sendo o primeiro a pagar com a vida pela devoção doentia do irmão.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário