Hoje será impossível escapar de Taylor Swift, porque ela não lança um álbum qualquer. Cada novo trabalho é uma narrativa dentro da sua própria vida, mas também um capítulo na história da cultura pop. Em The Life of a Showgirl, lançado agora em outubro, ela assume de vez a persona de artista no palco, consciente dos holofotes, dos julgamentos e das projeções que o público cria em cima dela. O título não engana: trata-se de um disco que equilibra brilho e vulnerabilidade, glamour e desgaste, em uma espécie de autorretrato sobre o que significa ser a maior estrela da música hoje.
Depois de The Tortured Poets Department (2024), seu álbum mais denso e introspectivo, parecia impossível que Taylor fosse girar a chave tão rapidamente. Mas ela fez exatamente isso. Se Tortured Poets era sobre turbulência emocional e catarses privadas, The Life of a Showgirl retorna ao pop com leveza aparente — e o detalhe é justamente esse: aparente. Por trás da estética mais dançante e colaborativa (com Max Martin e Shellback de volta, e Sabrina Carpenter na faixa-título), ela continua escrevendo com ironia, códigos e recados sutis.

Comparar com os quatro últimos discos deixa esse movimento mais claro. Folklore e Evermore (2020) foram mergulhos profundos no indie narrativo, construindo personagens e atmosferas ao lado de Aaron Dessner, do The National. Midnights (2022) já foi um ensaio para voltar ao pop, mas ainda carregado de insônia, remorso e batidas noturnas. The Tortured Poets Department (2024) trouxe o minimalismo sombrio, letras densas e a sensação de exposição crua. Agora, em The Life of a Showgirl, Taylor resgata a grandiosidade pop de 1989 ou Reputation, mas com o olhar de quem atravessou a fase indie e aprendeu a narrar com mais sutileza.
Da estratosfera ao contra-ataque
Quando alcançou a estratosfera com 1989, Taylor passou a lidar não apenas com os namoros e términos em público: foi dragada para bate-bocas em redes sociais com Katy Perry e Kim Kardashian, entre outros. Tudo isso se refletiu em sua música e em sua persona. Reputation (2017) foi a resposta de quem estava por baixo, atacada e cancelada, mas disposta a transformar esse veneno em arte.
Reputation era sombra e vingança. Um álbum defensivo, feito para mostrar que ainda existia, mesmo quando todos diziam o contrário. A sonoridade era dura, eletrônica, trap-pop, produzida para impactar. A persona era a da vilã, a “cobra” que seus haters jogaram contra ela e que ela transformou em símbolo de poder. Ainda assim, por baixo da carcaça, havia amor — o romance secreto com Joe Alwyn atravessa as letras como a prova de que ela tinha algo real para se agarrar no meio do caos.
Em The Life of a Showgirl, o movimento é outro. É o álbum de quem já venceu a batalha. Não há mais necessidade de gritar para ser ouvida, nem de devolver ataques com a mesma agressividade. Taylor se coloca como estrela máxima, a showgirl que sabe que está em performance constante. É luz, ironia, espetáculo. Não é defesa, mas afirmação.

Os “recados” de sempre
Como de costume, já começaram as decodificações: indiretas para ex-relacionamentos, críticas à imprensa, reflexões sobre a fama e, claro, mensagens de empoderamento feminino. O jogo de sombras e luzes está todo lá. É um disco sobre amor — em especial sua vida atual ao lado de Travis Kelce —, mas também sobre o preço de ser “a showgirl” diante do mundo. O espetáculo é parte da vida, mas nunca sem custo.
Entre tantas camadas, algumas canções se destacam como síntese dessa fase:
- “Canceled” ironiza a cultura do cancelamento de forma afiada, lembrando que ela já passou por isso e saiu maior. É pop puro, com refrão grudento e acidez certeira. E sim, há quem possa encontrar referências à Blake Lively.
- “The Fate of Ophelia” revisita Shakespeare para subverter o destino da vítima. Taylor transforma a Ophelia trágica em metáfora de reconstrução e poder feminino.
- “Father Figure” ousa ao reapropriar George Michael, equilibrando nostalgia e sedução pop, em uma das canções mais sofisticadas do álbum.
- “Wi$h Li$t” é a mais direta sobre seu noivado com Travis Kelce, com menções explícitas a planos de filhos e de futuro — uma canção de amor expansiva, quase doméstica, que surpreende pela franqueza.
- “Opalite” pode não ser tão evidente, mas fãs especulam que também é dedicada a Kelce. Seu tom luminoso e otimista, centrado em estabilidade e brilho, lembra True Blue (1986), de Madonna, feito quando ela se casou pela primeira vez. Uma canção de celebração amorosa, em que Taylor se permite ser feliz sem disfarces.

O impacto imediato
Em números, a era já nasceu grandiosa. The Life of a Showgirl bateu recordes antes mesmo de ser lançado, com mais de 5 milhões de pré-saves no Spotify — o maior número da história da plataforma. E, como esperado, em poucos dias já domina rankings, streams e discussões em redes sociais. Taylor também acaba de se tornar a primeira mulher a ultrapassar 100 milhões de unidades certificadas pela RIAA nos EUA, um feito que consolida ainda mais sua posição única no mercado.
Por isso, se Reputation foi a resposta de quem estava acuada, transformando a dor em um grito de guerra, The Life of a Showgirl é a celebração de quem sobreviveu, venceu e agora dança no palco com plena consciência do espetáculo que construiu. Da cobra à estrela de palco, Taylor Swift mostra que sua carreira não é apenas sobre canções, mas sobre como transformar cada ataque, cada crise e cada vitória em arte — e, agora, em amor vivido sem medo. A seguir? Casamento, filhos, turnês, vídeos. Taylor está apenas começando.
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I Think Taylor Swift should get a Hollywood Walk of Fame
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I Think Taylor Swift Is the G.O.A.T
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