Nada é mais assustador do que perder o controle sobre aquilo que se consome. Quando um produto — seja uma bebida, um remédio, um alimento — é propositalmente adulterado, o terror é duplo: além do risco à vida, há a sensação de que ninguém está realmente seguro. O caso atual, que já custou as vidas de mais de 40 pessoas no Brasil e deixou dezenas de hospitalizadas com sintomas de intoxicação por metanol, é um dos piores tipos de mistério possíveis.
Porque pode ter sido ganância, negligência, estupidez — ou as três coisas combinadas.
E, para quem acompanha crimes e escândalos históricos, é impossível não lembrar de um dos episódios mais emblemáticos dos anos 1980: os assassinatos do Tylenol.

O caso Tylenol: quando o remédio virou veneno
Em 1982, os Estados Unidos viveram uma onda de pânico após uma sequência de mortes inexplicáveis em Chicago. As vítimas — pessoas de diferentes idades, bairros e histórias — tinham em comum apenas uma coisa: haviam tomado Tylenol, o analgésico mais popular do país. Em poucas horas, os investigadores descobriram que cápsulas do medicamento tinham sido adulteradas com cianeto de potássio.
Sete pessoas morreram em questão de dias. Entre elas, uma menina de 12 anos, uma jovem recém-casada e uma mãe de família. O país mergulhou em choque. O crime parecia sem sentido e, até hoje, permanece sem solução.
O que se seguiu foi um dos maiores recalls da história: mais de 31 milhões de frascos de Tylenol foram recolhidos das prateleiras. A Johnson & Johnson, fabricante do medicamento, enfrentou o pesadelo de ver sua marca associada à morte — e ainda assim, conseguiu o que parecia impossível: reconstruir a confiança pública.
“Cold Case: The Tylenol Murders” — o documentário da Netflix
Mais de quarenta anos depois, o caso voltou aos holofotes com o documentário Cold Case: The Tylenol Murders, lançado na Netflix em maio de 2025. Dirigido por Yotam Guendelman e Ari Pines (os mesmos de Shadow of Truth e Buried) e produzido por Joe Berlinger (Conversations with a Killer, Who Killed JonBenét Ramsey), a série de três episódios revisita o crime que transformou a confiança cotidiana em paranoia nacional.
O docuserie mostra como, em 1982, os EUA precisaram enfrentar a ideia inédita de que um assassino anônimo poderia atacar dentro de casa, através de um produto comum. As cápsulas de Tylenol foram retiradas, mas o estrago estava feito: o medo contaminou a cultura.
A investigação, que envolveu o FBI, a polícia de Chicago e promotores federais, durou décadas, mas nunca resultou em condenações diretas pelos assassinatos. Houve suspeitos, como James William Lewis, preso por tentativa de extorsão à Johnson & Johnson — mas nunca houve provas concretas de que ele fosse o autor das adulterações. Lewis morreu em 2023, e o caso segue oficialmente não resolvido.
O documentário reabre feridas antigas e questiona se a verdade foi enterrada junto com o tempo — ou se houve um encobrimento maior, talvez ligado à própria fragilidade das grandes corporações diante de crises de confiança.

A resposta da Johnson & Johnson: um manual de gestão de crise
A Johnson & Johnson reagiu rapidamente e, segundo muitos analistas, definiu o padrão moderno de resposta a crises corporativas. A empresa fez o recall completo do produto, cooperou integralmente com as autoridades, e reformulou toda a embalagem: nasceram os lacres de segurança e selos invioláveis que hoje consideramos comuns.
O slogan de então — “Trust is our most important ingredient” — marcou uma virada: o Tylenol voltou ao mercado meses depois e, surpreendentemente, recuperou sua liderança nas vendas. Foi a demonstração de que a transparência, mesmo em tragédias, pode reconstruir a confiança.
Brasil, 2025: o terror invisível do metanol
Mais de quatro décadas depois, o Brasil revive o mesmo medo sob outro nome. Desde o início do surto em setembro de 2025, casos de intoxicação por metanol vêm sendo registrados em diversos estados. O Ministério da Justiça e a Anvisa investigam a origem de bebidas adulteradas — em especial, cachaças e destilados vendidos sem rótulo ou de marcas desconhecidas.
O metanol é um álcool industrial, usado em solventes e combustíveis, e altamente tóxico. Uma dose mínima pode causar cegueira, insuficiência renal ou morte. No corpo humano, transforma-se em formaldeído e ácido fórmico, substâncias que destroem o sistema nervoso e o fígado.
As investigações apontam que parte das bebidas adulteradas pode ter sido distribuída por redes clandestinas que diluem o produto para aumentar o lucro. Mas também há suspeitas de erros graves de manipulação industrial, o que mantém o caso aberto entre o crime e a negligência.

Casos semelhantes: quando a ganância contamina
O escândalo do metanol não é isolado. O Brasil e o mundo já enfrentaram outras tragédias provocadas por adulterações criminosas:
- 2012 – República Tcheca: mais de 40 pessoas morreram após consumir vodca e rum adulterados com metanol.
- 2018 – Índia: 150 mortes por bebida falsificada em Uttar Pradesh.
- 2006 – Brasil: falsificação de medicamentos controlados no escândalo das cápsulas “fantasmas”, vendidas com placebo.
- 2020 – México: mortes em massa por álcool adulterado durante a pandemia.
Esses episódios mostram como a adulteração deliberada, seja por lucro ou descuido, atinge sempre o elo mais vulnerável: o consumidor que confia.
O estado atual da investigação brasileira
Até o momento, várias apreensões e prisões foram feitas, e o Ministério Público Federal segue rastreando a cadeia de distribuição do metanol industrial. Marcas suspeitas foram retiradas do mercado, e a Anvisa reforçou as exigências de rastreabilidade e certificação para bebidas destiladas. Ainda assim, a origem central da contaminação não foi confirmada, e há dúvidas sobre o envolvimento de grupos organizados.
Enquanto isso, o medo se espalha: bares e restaurantes relatam queda no consumo de bebidas artesanais, e fabricantes legítimos lutam para provar a autenticidade de seus produtos.

Entre o Tylenol e o metanol: o medo como herança
O caso Tylenol ensinou ao mundo que a confiança é um ingrediente invisível, mas essencial. Quando ela se quebra, tudo muda: a forma como compramos, como consumimos, como acreditamos nas marcas.
O escândalo do metanol no Brasil é diferente em natureza, mas semelhante em trauma. Ele nos lembra que o risco nem sempre vem do produto em si, mas da falha humana — na ética, na supervisão, na ganância.
O veneno não está apenas no líquido, mas no descaso.
E, assim como em 1982, só o tempo — e a transparência — dirão se é possível reconstruir o que se perdeu: a confiança no que bebemos, tomamos e acreditamos ser seguro.
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