Desde que o cinema aprendeu a narrar o medo, parace ter descoberto o prazer de silenciar a mulher. O que começou como expressão estética – o olhar masculino controlando o feminino – tornou-se uma das mais poderosas alegorias da dúvida e da culpa. Em cada plano, a mulher que vê demais, fala demais ou sente demais é desacreditada. E, quase sempre, paga caro por isso.
Em Gaslight, o termo que batizou toda uma forma de manipulação psicológica, uma mulher é lentamente convencida de que enlouqueceu. Em Rebecca, ela é apagada pela sombra de outra; em Vertigo, transformada literalmente na cópia de uma morta. São histórias que se repetem sob disfarces de gêneros — suspense, noir, melodrama, terror — mas que partem de uma mesma raiz: o descrédito da experiência feminina como verdade possível.


O cinema fez do gaslighting uma arte e do duplo uma prisão. A mulher, presa entre o que sente e o que dizem que ela sentiu, é tanto vítima quanto protagonista da dúvida. Ao longo das décadas, diretores como Hitchcock, De Palma, Bergman e Lynch transformaram essa dinâmica em espetáculo: o olhar que observa, a lente que distorce, o reflexo que mente. A troca de pessoas — física, simbólica ou psicológica — é o espelho dessa violência: o corpo feminino que se torna território de outro olhar.

Mas quando o olhar se inverte, a estrutura rui. Gone Girl, The Girl on the Train, The Woman in the Window e A Mulher na Cabine 10 recuperam a voz desacreditada, ainda que entre paranoia e trauma. São mulheres isoladas, mas conscientes do próprio isolamento. Já não querem provar sanidade — querem sobreviver ao julgamento. E se a loucura sempre foi o preço da percepção, o delírio talvez seja agora sua forma de resistência.
Essas narrativas — do século 20 à era do streaming — falam menos sobre crime e mais sobre controle: quem define o que é real? Quem escolhe qual mulher merece ser ouvida?
Entre o reflexo e o abismo, há uma verdade que persiste: às vezes, o mais assustador não é o que a mulher imagina… é o que o mundo insiste em negar que ela viu.
1. Rebecca (1940, Alfred Hitchcock)
A protagonista sem nome vive na sombra da mulher anterior, manipulada pelo marido e pela governanta. Um dos retratos mais elegantes da mulher apagada.
2. Gaslight (1944, George Cukor)
A origem do termo “gaslighting”: um marido faz a esposa duvidar da própria sanidade enquanto encobre um crime. É o molde de todo thriller psicológico sobre controle e desconfiança. O filme de Cukor é refilmagem da produção britânica de mesmo nome, de 1938.


3. Vertigo (1958, Alfred Hitchcock)
O clássico absoluto da obsessão e da reconstrução feminina sob o olhar masculino. A mulher é forçada a encarnar outra — literalmente — até se perder de si mesma.
4. Les Diaboliques (1955, Henri-Georges Clouzot)
Duas mulheres, um homem morto e um corpo desaparecido. O suspense perfeito onde o crime, a culpa e o delírio se confundem. Hitchcock sonhou em tê-lo dirigido.
5. Persona (1966, Ingmar Bergman)
Um dos retratos mais sofisticados sobre a dissolução da identidade. Atriz e enfermeira se fundem numa simbiose inquietante, onde já não sabemos quem fala por quem.
6. Don’t Look Now (1973, Nicolas Roeg)
Um casal em luto viaja a Veneza e começa a ver aparições da filha morta. O olhar feminino e o masculino se embaralham num pesadelo sobre culpa, percepção e perda.
7. Sisters (1972, Brian De Palma)
Gêmeas siamesas separadas, voyeurismo, assassinato e memória distorcida. Um dos primeiros exemplos da fixação de De Palma por duplos femininos e manipulação de imagem.
8. Body Double (1984, Brian De Palma)
Homenagem (e paródia) de Vertigo: troca de mulheres, encenação de um crime e manipulação pela lente. O voyeurismo é o crime central.
9. The Hand That Rocks the Cradle (1992, Curtis Hanson)
Gaslighting doméstico levado ao limite: uma mulher se infiltra na casa de outra fingindo amizade, até assumir seu papel e quase roubar sua vida. Troca simbólica de maternidade e identidade. Refilmado em 2025.
10. The Others (2001, Alejandro Amenábar)
Um dos melhores twists já feitos: uma mãe isolada em casa com os filhos é levada a questionar a própria existência. A dúvida e o medo nascem da perspectiva feminina.
11. Mulholland Drive (2001, David Lynch)
O sonho de Hollywood transformado em delírio identitário. Atriz e amante se misturam, e a troca de nomes e rostos se torna metáfora para a fragmentação do eu feminino.
12. Gone Girl (2014, David Fincher)
A mulher desacreditada que decide virar a narrativa a seu favor. Amy Dunne é o reverso do gaslighting: ela o instrumentaliza como vingança contra a manipulação masculina.
13. The Girl on the Train (2016, Tate Taylor)
Uma mulher alcoólatra e desacreditada testemunha (ou imagina) um crime. A percepção distorcida, o trauma e o desprezo social se unem para silenciar sua verdade.
14. The Woman in Cabin 10 (2025, Netflix / adaptado de Ruth Ware)
Uma jornalista vê algo terrível em um cruzeiro — e ninguém acredita nela. O isolamento físico reflete o psicológico, e o mar torna-se espelho do delírio e do perigo invisível.
15. The Woman in the Window (2021, Joe Wright)
Outra variação moderna do Rear Window: uma mulher traumatizada é desacreditada ao denunciar um crime. Sua casa é prisão e alucinação — o mundo duvida de tudo o que ela vê.


Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
