Em 2025, A Chorus Line celebra meio século de existência. Cinquenta anos de um musical que nasceu como um experimento coletivo e se transformou num dos maiores fenômenos da história do teatro. Uma obra que deu protagonismo aos que sempre estiveram à sombra — os bailarinos do coro — e mostrou que, por trás de cada passo sincronizado, há uma história pessoal feita de sacrifício, sonhos e vulnerabilidade. Meio século depois, seu impacto segue reverberando nos palcos, nas telas e, agora, na promessa de uma série assinada por Ryan Murphy.

A gênese: uma conversa, uma confissão, um retrato
A história de A Chorus Line começa em 1974, quando o coreógrafo Michael Bennett teve a ideia de reunir um grupo de bailarinos de Nova York — os chamados “gypsies”, que viviam de produção em produção, sempre em busca de um novo contrato — para gravar conversas francas sobre suas vidas. O que ele esperava ser apenas uma troca de experiências acabou se tornando um material explosivo: confissões íntimas sobre infância, sexualidade, fracasso, esperança e a luta constante por reconhecimento.
A partir dessas gravações, Bennett, em parceria com o dramaturgo James Kirkwood Jr. e o compositor Marvin Hamlisch, começou a construir o esqueleto de um musical completamente diferente do padrão da Broadway. Em vez de uma narrativa clássica, haveria uma audição: um grupo de bailarinos disputando vagas em um novo espetáculo. O palco seria vazio, as luzes cruas, o foco absoluto nas pessoas. Cada personagem revelaria suas motivações, cicatrizes e medos — e dessa catarse coletiva nasceria o retrato mais humano e realista que o teatro musical já produziu.

Um espetáculo sobre amor, rejeição e resistência
A Chorus Line estreou Off-Broadway em 1975, no Public Theater, e o impacto foi imediato. Em poucas semanas, transferiu-se para o Shubert Theatre, na Broadway, onde se tornou um fenômeno cultural. O público e a crítica se reconheceram naquelas histórias. Não era sobre fama — era sobre sobreviver à rejeição, sobre o medo de envelhecer, sobre a dignidade de continuar dançando mesmo sem aplausos.
A trilha de Marvin Hamlisch e Edward Kleban é hoje parte da espinha dorsal do teatro musical americano. “I Hope I Get It”, que abre o espetáculo, traduz a tensão das audições; “Nothing” expõe o desprezo sofrido por uma jovem latina em uma escola de teatro; e “What I Did for Love” transcende a profissão — tornou-se um hino universal sobre a entrega àquilo que se ama, mesmo que isso custe tudo.
A montagem original permaneceu em cartaz por 15 anos consecutivos, com mais de seis mil apresentações. Ganhou nove Tony Awards e o Pulitzer de Drama em 1976, um feito raro para um musical. E mais do que números, A Chorus Line mudou a forma de se fazer teatro: sem cenários grandiosos, sem estrelas acima do conjunto. A força vinha da coletividade e da verdade de cada depoimento.

O Brasil entra em cena
Em 1983, A Chorus Line ganhou sua versão brasileira, tornando-se a primeira réplica oficial da Broadway montada no país. Dirigida por Roy Smith, produzida por Walter Clark e traduzida por Millôr Fernandes, a estreia aconteceu no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, antes de seguir para o Rio de Janeiro no ano seguinte.
A montagem brasileira foi um marco. Trouxe ao público uma linguagem teatral moderna, coreografias rigorosas e interpretações intensas — com um elenco que incluía Cláudia Raia, Totia Meirelles, Raul Gazolla, Regina Restelli, Thales Pan Chacon e Guilherme Leme, entre outros. Havia curiosidade, desconfiança e encanto diante de um espetáculo tão cru e confessional. O público reagia com entusiasmo, aplaudindo entre as falas e reconhecendo-se nas histórias daqueles personagens.
Mais de quarenta anos depois, o Brasil volta a revisitar o clássico com uma nova montagem, celebrando os 50 anos do musical. Raul Gazolla, que integrou o elenco original brasileiro, retorna agora como o diretor Zach, numa produção de Miguel Falabella e direção de Bárbara Guerra. É a prova de que o ciclo nunca se fecha: A Chorus Line permanece como rito de passagem, tanto para quem sobe ao palco quanto para quem assiste.
O filme de 1985: o desafio de traduzir o inefável
Com o sucesso estrondoso da peça, era inevitável que Hollywood tentasse levar A Chorus Line para o cinema. A missão ficou nas mãos do prestigiado diretor Sir Richard Attenborough, vencedor do Oscar por Gandhi. O elenco tinha Michael Douglas no papel de Zach, e tudo indicava um sucesso garantido. Mas o que funciona no palco nem sempre sobrevive à lente da câmera.
O musical, por natureza, dependia da relação direta entre o público e o intérprete — da confissão dita a poucos metros de distância. No cinema, essa proximidade desaparece. Attenborough optou por transformar o filme em uma narrativa mais convencional, com foco no relacionamento entre Zach e Cassie. Canções foram cortadas, outras alteradas, e temas considerados sensíveis — como sexualidade, abuso e rejeição — foram suavizados para agradar ao grande público.

O resultado foi um filme tecnicamente competente, mas emocionalmente distante. A crítica foi dura: acusou a adaptação de perder justamente o que fazia o original ser único. O público, por sua vez, não aderiu. Com orçamento de cerca de 25 milhões de dólares, arrecadou pouco mais da metade disso nas bilheterias. O fracasso comercial encerrou, por um tempo, a ideia de levar A Chorus Line novamente ao cinema.
Ainda assim, o longa ganhou uma segunda vida como curiosidade histórica. Muitos o revisitam não pelo que conseguiu, mas pelo que deixou escapar — uma tentativa honesta, porém frustrada, de capturar a magia de um espetáculo que pertence ao palco.
Renascimentos e ecos
Nada, porém, conseguiu apagar o brilho do original. Em 2006, A Chorus Line voltou à Broadway numa remontagem fiel, dirigida por Bob Avian, que havia sido o co-coreógrafo de Bennett. A produção recriou o espetáculo passo a passo, mas com uma nova geração de artistas — jovens que, ironicamente, estavam vivendo o mesmo sonho de seus predecessores de 1975.
O documentário Every Little Step, lançado em 2008, acompanhou esse processo de seleção. Mostrou a nova geração passando por audições reais para interpretar os personagens que, décadas antes, haviam sido inspirados em pessoas de carne e osso. O filme alterna as audições contemporâneas com fitas de áudio originais das sessões de 1974, unindo passado e presente num retrato emocionante sobre o poder de persistir.
Desde então, o musical não saiu mais de circulação. Foram montagens em Londres, Tóquio, Sydney, Buenos Aires, Berlim — e em dezenas de cidades americanas. Cada país imprime seu sotaque, mas o tema é universal: a busca por reconhecimento e a pergunta que ecoa como um refrão eterno — “o que você faria por amor?”.

O futuro segundo Ryan Murphy
A nova promessa em torno de A Chorus Line vem de Ryan Murphy, que prepara uma minissérie inspirada no musical para a Netflix. A ideia é explorar não apenas o espetáculo em si, mas sua criação — os bastidores, as conversas que deram origem às personagens e o impacto que tudo teve sobre a Broadway dos anos 1970.
Murphy, conhecido por obras como Glee e Pose, sempre foi fascinado pelo universo do palco e pelos dilemas da performance. Segundo o que já se sabe, a série terá cerca de dez episódios e deve funcionar quase como um making of dramatizado — um olhar para dentro do próprio mito. O projeto está em desenvolvimento há alguns anos e ainda sem data confirmada, mas a expectativa é alta: A Chorus Line continua sendo o retrato mais honesto do que é viver de arte, e talvez Murphy seja um dos poucos criadores capazes de reinterpretá-lo com o respeito e a audácia que merece.
Um coro que nunca silenciou
Cinquenta anos depois, A Chorus Line continua emocionando porque fala sobre algo que não muda: o desejo de ser visto, de ser reconhecido, de pertencer. Sua simplicidade é enganosa — é um espetáculo sobre audições, mas também sobre identidade. É sobre o que sacrificamos em nome do sonho e o que ganhamos quando o dividimos com os outros.
O filme pode ter tropeçado, as remontagens podem mudar de geração, mas a essência permanece. A Chorus Line é sobre nós — sobre todos que, em algum momento, esperaram ser escolhidos, e mesmo assim continuaram dançando.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
