Diane Keaton transformou “Flowers” em um manifesto de liberdade e amor-próprio

Como publicado em CLAUDIA

A cena já foi lendária em janeiro de 2023, quando a atriz Diane Keaton postou no seu Instagram um vídeo dela dançando “Flowers”, de Miley Cyrus. Como cenas genuínas na Internet são identificadas, ele se espalhou nas redes com ternura e espontaneidade, foi como se uma porta se abrisse — não só para o afeto que o público nutre por ela, mas para uma intimidade simbólica até então velada. No vídeo, Diane se movimentava em seu quintal, acompanhada do cachorro, com aquele balanço desajeitado que era sua marca registrada. Na legenda, escreveu: “@mileycyrus YOUR INCREDIBLE SONG GAVE ME A REASON TO DANCE IN MY OWN BACKYARD!”

A repercussão foi imediata. Fãs, jornalistas e a própria Miley reagiram com entusiasmo. O gesto simples da atriz virou um manifesto sobre liberdade e alegria. A dança não era ensaiada nem irônica — era genuína. Diane Keaton, aos 77 anos, transformava o que poderia ser apenas um post em um retrato de vitalidade e autonomia. Em um mundo obcecado pela juventude e pelos padrões, ela escolheu dançar sozinha, do seu jeito.

E a canção que inspirou o momento não poderia ser mais adequada. I can love me better than you can” (“eu posso me amar melhor do que você pode”) ecoa como uma síntese da vida de Diane — um refrão que poderia estar na trilha sonora de toda sua trajetória. Desde o início da carreira, ela construiu uma imagem pública pautada pela autenticidade, pela recusa a ser moldada e pela coragem de habitar o próprio espaço sem pedir permissão.

Entre moda, cinema e independência

Diane Keaton sempre foi um ícone — de estilo, de humor e de integridade. Com seus ternos largos, gravatas, chapéus e cintos bem marcados, ela criou uma persona visual que dispensava rótulos e confundia fronteiras entre o masculino e o feminino. Seu figurino não era um disfarce: era uma extensão da sua filosofia de vida.

Em entrevistas, ao longo de décadas, Diane foi questionada inúmeras vezes sobre por que nunca se casou. E sempre respondeu com a mesma serenidade: “I think I never got married because I didn’t want to get married.” (“Acho que nunca me casei porque eu não queria me casar.”) Em outra ocasião, completou: “I don’t think it would have been a good idea for me to have married, and I’m really glad I didn’t.” (“Não acho que teria sido uma boa ideia, e fico muito feliz por não ter feito isso.”)

Ela nunca justificou suas escolhas como falta de oportunidade ou azar amoroso. Ao contrário — falava de amor, mas também de independência. “I’m an oddball,” (“Sou uma estranha”), disse certa vez, rindo. Mas o que ela chama de excentricidade é, na verdade, coerência. Diane sempre soube que sua liberdade não poderia ser compartilhada a qualquer preço.

Num mundo em que mulheres, sobretudo as de Hollywood, são cobradas a se justificar — pela idade, pelo corpo, pela vida pessoal —, Diane sempre respondeu sem hesitação. Disse recentemente: “I don’t date. It’s highly unlikely.” (“Não saio com ninguém. É altamente improvável.”) E, no entanto, nunca pareceu menos solitária. A mulher que conquistou o Oscar por Annie Hall aprendeu que há mais dignidade em se pertencer do que em ser escolhida.

“You Don’t Own Me”: o refrão de uma vida

Em O Clube das Desquitadas (The First Wives Club), Diane, Bette Midler e Goldie Hawn cantam “You Don’t Own Me”, hino feminista que afirma com humor e fúria: “Don’t tell me what to do, don’t tell me what to say” (“Não me diga o que fazer, não me diga o que dizer”). A cena se tornou um dos momentos mais icônicos da carreira de Diane — porque nela, mais do que em qualquer diálogo, está a essência da mulher que ela sempre foi: alguém que reivindica o próprio corpo, a própria voz e o próprio destino.

Anos depois, sozinha em seu jardim, Diane repete o gesto — desta vez sem personagens, sem figurino, sem luz de set. A câmera é o celular; o público, o mundo digital. Mas o recado é o mesmo: ninguém a possui. “Flowers” e “You Don’t Own Me” dialogam à distância, como duas estrofes de uma mesma canção. Uma gravada nos anos 1990, a outra lançada por uma artista que, décadas depois, também escolheu se libertar. Miley canta sobre um amor que terminou e uma mulher que aprendeu a se bastar. Diane dança esse aprendizado como quem diz: eu já vivi isso — e sobrevivi sendo eu mesma.

Um epílogo luminoso

Há uma doçura melancólica nesse vídeo. Diane Keaton, dois anos antes de sua morte inesperada, parece encerrar um ciclo: o da mulher que nunca aceitou se definir por ausências — marido, filhos biológicos, juventude — e sempre escolheu o que a fazia inteira. Sua dança viral não foi performance, mas confissão. Um lembrete de que a liberdade não é um gesto grandioso, mas um movimento silencioso — às vezes, dançar no quintal enquanto o sol se põe.

Diane nunca precisou de plateia para ser fascinante. Mas, ao escolher uma música sobre amor-próprio e dançar sozinha, ela lembrou ao mundo o que sempre foi evidente: a vida dela sempre foi uma história de amor — com ela mesma.


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