Murdaugh: Death in the Family — Poder, Mentiras e a Queda de uma Dinastia Americana

Seria natural assumir que Murdaugh: Death in the Family é apenas mais uma das tantas séries inspiradas em crimes reais, dramatizando tragédias que já fazem parte do imaginário popular — o tipo de narrativa que o streaming transformou em fenômeno global. Algo no espírito de The Staircase, da HBO Max, com Colin Firth e Toni Collette, que revisitou o assustador caso da morte de Kathleen Peterson, em 2001; ou de Under the Bridge (Hulu, 2024), com Riley Keough e Lily Gladstone, que reencenou o brutal assassinato de Reena Virk no Canadá; ou ainda de Love & Death (HBO Max, 2023) e Candy (Hulu, 2022), ambas baseadas no mesmo caso — a dona de casa texana que matou a amiga a golpes de machadinha em 1980.



E poderíamos seguir com os irmãos Menendez, Dahmer, The Act e tantas outras dramatizações recentes que confirmam: o público ainda não se cansou de revisitar o horror.

Cada uma dessas produções parte de uma pergunta incômoda: precisamos mesmo revisitar o mesmo crime, o mesmo drama, em diferentes formatos, por diferentes lentes?
E, curiosamente, Murdaugh: Death in the Family oferece uma resposta afirmativa.
Sim — porque há histórias tão absurdas, tão cheias de camadas de poder, impunidade e desumanidade, que só o distanciamento do tempo permite compreendê-las em toda a sua monstruosidade.

A Dinastia dos Murdaughs: Uma Monarquia Disfarçada de Justiça

Para o espectador fora dos Estados Unidos, o sobrenome Murdaugh pode soar desconhecido. Mas na Carolina do Sul — mais precisamente no condado de Colleton —, essa família é uma instituição. Durante mais de um século, três gerações dos Murdaughs ocuparam o posto de prosecutor, o promotor público local, num domínio quase feudal sobre a justiça. Eram advogados, juízes e donos de um dos escritórios mais poderosos do estado. Não apenas influentes: eram a lei.

Essa herança de poder sustentou-se no silêncio, na tradição e na sensação de impunidade. Até que um acidente rompeu o verniz.

Numa noite de fevereiro de 2019, um grupo de jovens bêbados voltava de uma festa em uma lancha quando a embarcação colidiu com uma ponte no rio Beaufort. Entre os passageiros estava Paul Murdaugh, e a jovem Mallory Beach morreu afogada. O acidente foi a faísca que expôs rachaduras profundas: investigações, fraudes financeiras, encobrimentos e mortes misteriosas. A família que sempre viveu acima das regras começava a ruir.

O Horror Dentro da Própria Casa

Mesmo quem acompanhou o desenrolar do caso — os podcasts, os documentários, as manchetes — pode se surpreender ao ver os acontecimentos dramatizados com tamanha intensidade. A série começa exatamente no momento em que o mito dos Murdaughs colapsa: Alex Murdaugh (Jason Clarke) encontra os corpos da esposa, Maggie, e do filho, Paul, e liga para a polícia. A ligação que ele acreditava ser o início de uma defesa desesperada torna-se o ponto de partida de sua destruição.

A partir daí, os episódios retornam no tempo para mostrar o que levou a esse momento.
A morte de Mallory, o comportamento autodestrutivo de Paul, as fraudes cometidas por Alex, o vício em opiáceos, o colapso financeiro, a manipulação das investigações e a morte suspeita da empregada da família, Gloria Satterfield. Cada evento é um tijolo retirado da parede de privilégios que os protegia — até o castelo desmoronar por completo.

Os três primeiros episódios concentram-se na relação entre Alex e Paul, pai e filho unidos por um mesmo temperamento explosivo, pela arrogância e pela incapacidade de enxergar as consequências de seus atos. Clarke e Patricia Arquette, como Maggie, não apenas se parecem fisicamente com os Murdaughs reais: eles os habitam.

Arquette, especialmente, entrega uma atuação contida e dolorosa — uma mulher aprisionada entre o amor e o medo, cúmplice involuntária de um sistema que ela não construiu, mas do qual também não escapou.

Mas há um terceiro vértice essencial nesse triângulo familiar: Johnny Berchtold, como Paul Murdaugh. O jovem ator tem aqui uma de suas melhores performances — e talvez a mais complexa. Paul, morto aos 22 anos, é retratado como uma figura paradoxal: inconsequente, arrogante e cruel em certos momentos, mas também trágico, confuso, à sombra de um pai cuja influência deformava qualquer noção de responsabilidade. Berchtold não o absolve, mas o humaniza.

Há em sua interpretação a consciência de que Paul foi algoz e vítima, produto e reflexo de uma família que confundia poder com imunidade. Enquanto Alex parece ter perdido a humanidade ao longo dos anos, anestesiado pela impunidade, Paul carrega ainda vestígios de dúvida — um desconforto que, em algum outro cenário, talvez pudesse ter sido redenção. A série, mais do que o documentário, sugere essa dúvida: será que ele teria quebrado o molde, se tivesse tido tempo?

Quando a Realidade Supera a Ficção

O que torna Murdaugh: Death in the Family tão eficiente é a recusa em transformar os fatos em melodrama. A série não precisa inventar vilões — a realidade já os forneceu. Não precisa criar tensão artificial — ela está em cada contradição, em cada mentira contada com frieza.
Ao contrário de outras adaptações que suavizam o horror, aqui há uma crueza incômoda: a percepção de que tudo aquilo aconteceu com pessoas reais, cujas vidas foram esmagadas por ganância, orgulho e poder.

O texto é sólido, a direção de John Hillcoat (de Lawless e Triple 9) evita o sensacionalismo, e o design de produção recria o interior da Carolina do Sul com um realismo que vai além da geografia — é o retrato de uma América ainda profundamente feudal, onde sobrenomes valem mais que leis.

Pequenos detalhes funcionam como easter eggs para quem conhece o caso: a placa na estrada mencionando Gloria, a cena no rio que ecoa o acidente de Mallory, o cão que fareja algo fora do lugar — sinais de um destino selado desde o início.

A Tragédia Perfeita do Século 21

Murdaugh: Death in the Family não é apenas uma boa série de true crime. É uma parábola moderna sobre a corrosão moral que nasce quando o poder não conhece limites. É também uma reflexão sobre privilégio, herança, vício, masculinidade e impunidade — temas que ressoam muito além da Carolina do Sul.

Mesmo sabendo o desfecho, é impossível não se chocar novamente. Porque ver Jason Clarke, Patricia Arquette e Johnny Berchtold revivendo esses acontecimentos é reviver o absurdo de um mundo onde o poder sempre acreditou poder comprar a verdade.

E é nesse ponto que a minissérie se destaca: não por nos ensinar nada de novo sobre o caso, mas por nos lembrar o quanto esquecemos que o mal, às vezes, é banal — e, outras vezes, tem sobrenome.


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