Aposto que, quando você assistiu a filmes cujo gênero é conhecido como “heist” – tipo 8 Mulheres e um Segredo, 11 Homens e um Segredo ou The Thomas Crown Affair – pensou: só no cinema. Pois é — mas não.
O assalto ao Museu do Louvre, em Paris, no dia 19 de outubro de 2025, foi um desses momentos em que a ficção parece ter atravessado a tela para dentro da realidade. Em plena manhã de sábado, quatro pessoas mascaradas invadiram a Galerie d’Apollon, uma das salas mais emblemáticas do museu — lar das joias da coroa francesa — e, em menos de sete minutos, saíram levando consigo oito peças históricas de valor incalculável.
O que mais impressiona não é apenas a audácia, mas a precisão: os ladrões subiram por um elevador de carga, quebraram uma janela lateral e agiram com naturalidade, misturando-se ao movimento de visitantes. Fugiram de moto, com o trânsito de Paris ainda acordando. O estrago simbólico foi imediato. O Louvre, maior museu do mundo e guardião da Mona Lisa, foi violado no coração de sua própria lenda. E agora?

Um passado de segredos e roubos
Não é a primeira vez que o Louvre vê suas paredes testemunharem um crime. Em 1911, o pintor italiano Vincenzo Peruggia roubou a Mona Lisa e manteve o quadro escondido por dois anos — ironicamente, o furto transformou a obra na pintura mais famosa do planeta.
Depois disso, vieram outros episódios quase esquecidos: um Courbet desaparecido nos anos 1970, uma tentativa frustrada de levar A Liberdade Guiando o Povo em 1983, uma obra de Corot em 1998. E agora, em 2025, o roubo das joias da coroa francesa, entre elas a lendária coroa da imperatriz Eugénie, recuperada mais tarde — danificada — num subúrbio de Paris.
O restante das peças, incluindo colares de safira e esmeralda de rainhas e imperatrizes, continua desaparecido.
O ministro da Justiça francês chamou o episódio de “ferida na alma da França”. E ele tem razão: o Louvre é mais que um museu. É um símbolo. Ver suas vitrines quebradas, suas joias arrancadas, é quase ver um pedaço da própria história desmoronar.

O que se sabe até agora
A investigação aponta para um grupo altamente profissional: quatro homens disfarçados de trabalhadores de manutenção, com ferramentas elétricas e conhecimento preciso da planta do museu. As câmeras mostram que o plano foi executado em menos de dez minutos. Nenhum visitante ficou ferido, mas a humilhação pública foi devastadora.
A França anunciou reforços de segurança em todos os museus nacionais. Enquanto isso, a Interpol e a Europol trabalham juntas para rastrear o destino das joias, que provavelmente já cruzaram fronteiras.
Há suspeitas de envolvimento de uma rede internacional de tráfico de arte — a mesma que teria ligação com o roubo de diamantes de Dresden (2019) e os furtos do British Museum (2023). O denominador comum? Crimes impecavelmente planejados, silenciosos e profundamente cinematográficos.
Quando o crime atinge o patrimônio
O que se perde em um roubo de arte não é apenas o objeto — é a memória.
A coroa de Eugénie não é apenas ouro e pedras: é o reflexo de um império, de um século de luxo e contradições. Cada peça roubada carrega uma camada de identidade nacional e coletiva.
E é isso que torna o assalto de 2025 tão perturbador. Ele não foi apenas uma quebra de segurança: foi uma ruptura simbólica entre o passado e o presente, um lembrete de que até a beleza pode ser sequestrada.

Do Louvre ao cinema: os roubos que amamos assistir
Talvez por isso o cinema sempre tenha sido obcecado por roubos de arte.
No fundo, há algo irresistível em ver o impossível ser feito com elegância — e sem sangue. O heist é uma fantasia moralmente ambígua: o crime, aqui, é um espetáculo.
Os heist movies são um subgênero do cinema policial que gira em torno de um grande golpe ou assalto meticulosamente planejado. A palavra heist em inglês significa justamente assalto ou roubo audacioso — mas o termo, no cinema, ganhou um significado muito mais glamouroso.
Mais do que o crime em si, o foco do heist movie está na engenhosidade do plano, na química entre os participantes e na tensão entre o controle e o caos. Os protagonistas são normalmente criminosos carismáticos — às vezes, até simpáticos — que executam golpes quase impossíveis com precisão coreografada. O público torce por eles não porque queira o crime, mas porque admira a inteligência e a audácia da execução.
Esses filmes seguem uma estrutura quase ritualística:
- Recrutamento da equipe – cada membro tem uma função específica (o hacker, o motorista, o especialista em cofres, o estrategista).
- Planejamento do golpe – a parte cerebral, onde vemos mapas, ensaios e gadgets.
- Execução – o clímax, com reviravoltas, alarmes e o inevitável imprevisto.
- Fuga ou desfecho – a parte moral: será que o crime compensa?

Eis sete filmes que ajudam a entender o fascínio do “golpe perfeito”:
- Ocean’s Eleven (2001) – George Clooney e Brad Pitt redefiniram o gênero ao transformar o assalto em arte coreografada. Cada movimento é um passo de dança.
- Ocean’s Eight (2018) – A versão feminina liderada por Sandra Bullock e Cate Blanchett levou o heist para o MET Gala, provando que glamour e estratégia podem andar de salto alto.
- The Thomas Crown Affair (1999) – Pierce Brosnan e Rene Russo em um jogo de sedução e furto dentro de um museu. Um dos heists mais elegantes do cinema.
- Vinci (2004) – Uma pérola polonesa sobre o roubo de uma pintura de Leonardo da Vinci; mistura humor, drama e melancolia sobre o valor da arte.
- The Maiden Heist (2009) – Três guardas de museu planejam roubar suas obras favoritas antes que elas sejam transferidas; uma fábula doce sobre apego e arte.
- Any Day Now (2024) – Baseado no grande roubo do Isabella Stewart Gardner Museum, o filme ecoa a ironia de crimes que o tempo transforma em lenda.
- The Mastermind (2025) – Inspirado em fatos reais, retrata o ladrão de arte como anti-herói trágico — um reflexo da própria fascinação que sentimos por quem desafia o impossível.

Onde está a investigação — e há esperança?
A essa altura, a caçada pelos responsáveis segue intensa. Cerca de sessenta investigadores trabalham em tempo integral no caso, sob coordenação do Ministério Público de Paris, com apoio da Interpol e da Europol. As câmeras foram revisadas quadro a quadro, rotas de fuga mapeadas e o material usado na invasão — ferramentas, cordas e o elevador de carga improvisado — já está nas mãos da perícia.
O governo francês reagiu rápido — e com a solenidade que o Louvre impõe. O presidente Emmanuel Macron classificou o roubo como uma “afronta à alma da França” e prometeu que as joias serão recuperadas, custe o que custar. O Louvre, por sua vez, reforçou a segurança e suspendeu visitas à Galerie d’Apollon até nova ordem.

Mas, como sempre acontece nesse tipo de crime, a esperança vem acompanhada de pragmatismo. As joias da coroa são peças únicas e inconfundíveis — o que torna quase impossível revendê-las. É o tipo de roubo que só faz sentido se houver um comprador oculto ou uma rede especializada em desmontar e revender pedras preciosas. E é justamente isso que preocupa os investigadores: o risco de que as peças já estejam sendo desmembradas, suas gemas separadas das estruturas originais para apagar rastros.
Por outro lado, há precedentes que alimentam o otimismo. Uma das peças — a coroa da imperatriz Eugénie — já foi localizada, ainda que danificada. Isso indica que a operação policial está funcionando e que os ladrões podem ter sido forçados a abandonar parte do saque.
Em resumo, há esperança, sim — mas ela é frágil, como o vidro estilhaçado das vitrines do Louvre. Se o passado ensina algo, é que o tempo é o maior inimigo da recuperação: quanto mais dias passam, mais longe a arte se perde. Ainda assim, a França parece disposta a provar que, ao contrário dos filmes de heist, a realidade, desta vez, talvez não termine com os ladrões desaparecendo no pôr do sol.
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