Kennedy — A “The Crown” Americana da Netflix

Quando a Netflix anunciou oficialmente Kennedy, o projeto imediatamente foi apelidado de a versão americana de The Crown. A comparação é inevitável: trata-se de outra dinastia que viveu sob o olhar do público, entre glória, tragédia e poder — só que, desta vez, com sotaque de Hyannis Port e ambição presidencial.

A ideia surgiu ainda em 2023, quando a plataforma sinalizou o desejo de criar uma produção de prestígio sobre a família mais mitológica dos Estados Unidos. Não seria um simples retrato histórico, mas uma imersão no que o showrunner Sam Shaw chamou de “a mais próxima mitologia americana existente — algo entre Shakespeare e The Bold and the Beautiful”.

A gênese de um mito: da biografia à tela

A base da série é o monumental livro de Fredrik Logevall, JFK: Coming of Age in the American Century (1917–1956), primeiro de dois volumes planejados sobre John F. Kennedy. A obra mergulha nos primeiros trinta e nove anos de vida de Jack, mostrando-o não como o ícone congelado da Casa Branca, mas como o jovem inquieto e intelectualmente curioso que se formou entre a tragédia familiar e a ambição política do pai, Joseph P. Kennedy Sr.

A série — cujo título oficial é simplesmente Kennedy — começa nos anos 1930, acompanhando Joe e Rose Kennedy e seus nove filhos, em uma América que ainda tentava se reerguer da Grande Depressão. É o retrato de uma família que sonhava em conquistar não apenas o poder político, mas também o simbólico: ser o espelho da nação em sua versão mais sofisticada e fotogênica.

Estrutura e ambição: o modelo “Crown”

Assim como The Crown mapeia o reinado de Elizabeth II em blocos de tempo, Kennedy deverá ser dividida por décadas. A primeira temporada, com oito episódios, cobrirá a ascensão improvável da família, desde o império financeiro de Joe até o início das aspirações políticas de Jack e Joe Jr.

A ideia é acompanhar o amadurecimento do clã, mostrando como os filhos foram moldados por um pai carismático e tirânico, e como as expectativas depositadas sobre cada um acabaram por se transformar em destino. O projeto prevê que as temporadas futuras avancem para a Segunda Guerra Mundial, o assassinato de Joe Jr., a chegada de JFK ao Senado, a presidência e, inevitavelmente, a tragédia de Dallas.

Shaw deixa claro que quer fazer da série mais do que uma biografia: uma reflexão sobre o século americano. “Ao explorar as lutas e os fardos humanos por trás do mito, revelamos tanto sobre nosso presente — como chegamos até aqui e para onde vamos — quanto sobre os próprios Kennedys”, afirmou.

Elenco e bastidores: o peso do sobrenome

O primeiro nome confirmado já bastou para gerar expectativa: Michael Fassbender viverá Joseph P. Kennedy Sr., o patriarca cuja ambição e pragmatismo definiram o destino de seus filhos. Carismático e temido, Joe Sr. será o centro da primeira temporada, um homem que via o poder como herança e tratava a família como empresa.

A escolha de Fassbender — indicado duas vezes ao Oscar — indica que a série apostará em atuações intensas e nuances psicológicas. Ainda não foram anunciados os intérpretes de Jack, Bobby, Ted ou Rose Kennedy, mas nomes de peso devem seguir.

Na equipe criativa, a Netflix reuniu um time de prestígio: Sam Shaw (Manhattan, Masters of Sex) atua como showrunner e produtor executivo, ao lado do roteirista vencedor do Oscar Eric Roth (Forrest Gump, A Star Is Born), e do diretor Thomas Vinterberg (Another Round, Festen), responsável pelos dois primeiros episódios.

A produção é assinada pela Chernin Entertainment e contará também com o próprio Logevall como consultor histórico — algo que reforça a preocupação da Netflix com autenticidade.

Os fatos que moldam a tragédia

Se The Crown se equilibra entre política e intimidade, Kennedy promete mergulhar nos bastidores do poder americano com igual elegância e dor. Devem aparecer:

  • A carreira política de Joe Kennedy Sr., incluindo seu controverso período como embaixador em Londres nos anos pré-guerra.
  • O contraste entre os irmãos Joe Jr. e Jack, marcando o início da rivalidade e da substituição de destino após a morte do primogênito.
  • O peso de Rose Kennedy, matriarca católica e devota, que transformou o lar em quartel-general moral.
  • As expectativas de grandeza, que transformaram os filhos em símbolos nacionais — e vítimas da própria mitologia.

A primeira temporada deve culminar com o despertar político de Jack e o prenúncio de um nome destinado à eternidade — mas à custa de tudo o que era pessoal.

Entre Shakespeare e Camelot

Há uma melancolia inevitável em revisitar os Kennedys. Eles foram a promessa de um novo “Camelot” e acabaram se tornando um sinônimo de tragédia americana. Sam Shaw e Thomas Vinterberg parecem conscientes dessa dualidade: o glamour e o luto, o carisma e o vazio.

Nas palavras de Shaw, “a história dos Kennedys é a mais próxima que temos de uma mitologia nacional — um conto de reis e heróis em um país que jurava não ter nem reis nem heróis”.

Um legado já filmado, mas nunca exaurido

Antes da versão da Netflix, a saga Kennedy já foi contada em diversas formas:

  • The Kennedys (2011) — minissérie estrelada por Greg Kinnear e Katie Holmes, que cobriu a ascensão e o colapso do clã.
  • The Kennedys: After Camelot (2017) — continuação focada em Jackie Kennedy Onassis e o período pós-assassinato.
  • Documentários como American Dynasties: The Kennedys (2018) e o clássico JFK (1991) de Oliver Stone, que ampliou o mito para o terreno da conspiração.

    Mesmo assim, cada geração parece precisar revisitar essa história — como se os Kennedys fossem um espelho do próprio país.

O futuro de uma dinastia televisiva

Com o investimento alto, uma equipe premiada e o nome de Michael Fassbender à frente, Kennedy surge como uma das grandes apostas dramáticas da Netflix para 2026. Assim como The Crown, deve render múltiplas temporadas, mudando de elencos e eras conforme o tempo passa — e a mitologia se aprofunda.

No fim, não é apenas sobre os Kennedys. É sobre o sonho americano — sua beleza, sua arrogância e seu preço.

Entre Hyannis Port e a Casa Branca, entre a devoção familiar e o sacrifício público, Kennedy quer revelar o que havia por trás das fotografias perfeitas: uma tragédia shakespeariana vestida de terno e colar de pérolas.


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