Murdaugh: Death in the Family — A tragédia americana que revelou um império de mentiras (recap episodio 4)

A tragédia envolvendo a família Murdaugh ficou mundialmente conhecida pelos excessos e crimes do patriarca Alex Murdaugh — hoje preso por assassinar friamente a esposa e o filho caçula. (Desculpem o spoiler, caso você não seja um fã de true crime ou não tenha acompanhado o julgamento e os documentários já disponíveis em várias plataformas.) O fato é que Murdaugh: Death in the Family consegue ir além: é uma série extremamente interessante e diferente.

A narrativa é conduzida para humanizar as vítimas, que, em algumas versões, tampouco eram livres de falhas. A exceção é o irritante Alex Murdaugh, em uma poderosa atuação de Jason Clarke, que entrega um retrato assustador de um homem sem moral nem limites. Até o quarto episódio, o vemos como um mentiroso patológico, um psicopata funcional que usufruiu do nome e da influência do próprio sobrenome para viver uma vida de excessos, mentiras e impunidade.

Como revelam os dois primeiros episódios, havia uma competição familiar que ultrapassou todos os limites sob o comando de Alex. Viciado em remédios, narcisista e reforçado pela adoração cega da esposa, Maggie, ele criou um ambiente sufocante em casa. Os filhos, especialmente Paul, a “ovelha negra” da família, crescem sob a sombra desse domínio tóxico.

O acidente de lancha provocado por Paul — já alcoolizado, ainda adolescente — e que resultou na morte de Mallory Beach, a namorada de seu melhor amigo, é o ponto de virada. Alex tenta silenciar as famílias e abafar o caso, mas o império começa a ruir. Endividado, ele já vinha usando valores de indenizações de clientes para sustentar sua vida de luxo, e a série expõe esse colapso moral com precisão cirúrgica.

O inesperado é como a série humaniza Paul: ele age mal, sim, mas surge como um jovem trágico, ignorado pelos pais e sem uma bússola moral. Maggie, interpretada com nuances por Patricia Arquette, também ganha camadas — é vítima e cúmplice, alguém que escolheu fechar os olhos diante do abismo. Tanto ela quanto Paul “pagam” com a vida (a série começa com suas mortes), mas não são retratados nem como santos nem como monstros.

Outro destaque é o trabalho da jornalista Mandy Matney, que lidera a cobertura dos crimes e assina a adaptação de seu livro e podcast para a série. Foi ela quem, na vida real, desvendou os segredos que os Murdaughs tentaram esconder por gerações, tornando-se uma figura central no desmonte do mito de uma das famílias mais poderosas do sul dos Estados Unidos.

O quarto episódio dá o foco à morte de Gloria Satterfield, governanta da família, que morreu em 2018 após uma queda na casa dos Murdaughs. Gloria era o elo mais humano de Paul, e a série trata sua morte como acidental — embora algumas teorias indiquem o contrário. Ainda assim, vemos como Alex usou o acidente para arquitetar mais uma fraude, desviando a indenização de US$ 4,3 milhões que deveria ir para os filhos de Gloria.

Mas o episódio também revela a extensão completa do abuso de poder dos Murdaughs. Após o acidente de barco, o advogado da família Beach, Mark Tinsley, tenta negociar um acordo, mas Alex, sempre arrogante, se recusa a aceitar a culpa. Seu pai, Randolph, pressiona para que ele contribua com US$ 1,5 milhão, temendo o impacto sobre o nome da família e do escritório de advocacia. Enquanto isso, Mandy Matney descobre um caso anterior de direção alcoolizada de Paul, apagado dos registros, e publica a denúncia, reacendendo a revolta pública.

A dor dos pais de Mallory, Phillip e Renee Beach, é retratada com sensibilidade: eles estão revoltados com a frieza dos Murdaughs, especialmente Alex, que chegou a levar a família de férias logo após o julgamento. Determinada a não deixar o caso ser esquecido, Renee exige que eles paguem por seus crimes. Tinsley, então, pede US$ 10 milhões em acordo, prevendo que o júri popular seria impiedoso.

Enquanto o império desaba, Alex tenta um último golpe: transforma a morte de Gloria em mais uma oportunidade de lucro. Propõe aos filhos dela que processem sua seguradora, prometendo-lhes o dinheiro — e, claro, desviando tudo para si. A frieza com que ele age, mesmo diante da dor dos outros, é o ponto mais repulsivo de toda a narrativa.

O episódio também mostra o colapso emocional de Paul, que se sente culpado pela morte de Gloria e acredita que os pais a sobrecarregaram. Quando ela morre, Paul incendeia o campo de girassóis da família — um gesto simbólico, mostrando que ele desistiu de tentar consertar o que estava destruído.

Em paralelo, Mandy Matney começa a desenterrar outro caso sombrio: o assassinato de Stephen Smith, um jovem encontrado morto em uma estrada em 2015. O caso foi originalmente classificado como atropelamento, mas novas provas indicam que Buster Murdaugh, o primogênito da família, pode ter sido o verdadeiro culpado. Um depoimento de um policial rodoviário sugere que Stephen foi morto em um acesso de raiva de Buster, motivado por homofobia e vergonha, e que o caso foi acobertado pelos Murdaughs.

A revelação é o golpe final: a podridão moral da família atravessa gerações. A série mostra como Randolph Murdaugh III, o patriarca, também manipulava todos ao seu redor — chegando a publicar um obituário falso da própria esposa em um jornal local, apenas para “adverti-la” após um desentendimento.

No fim do episódio, o espectador entende que o império Murdaugh não se desfez por um crime, mas por um legado inteiro de corrupção, arrogância e impunidade. Cada segredo revelado abre outro, e a sensação é de que ainda nem começamos a arranhar o pior da história.

Murdaugh: Death in the Family não é apenas uma série de crimes; é uma autópsia moral sobre poder, impunidade e corrupção — e o retrato de uma América que prefere não olhar para seus próprios monstros até ser tarde demais.


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