Nobody Wants This — Segunda Temporada

“First comes love, then comes life.” A frase que abre a nova temporada de Nobody Wants This resume o tom de uma série que continua explorando o que acontece depois da paixão — quando o amor precisa conviver com a rotina, as diferenças e as crenças que moldam quem somos. Se na primeira temporada o conflito entre Joanne (Kristen Bell) e Noah (Adam Brody) parecia uma fábula sobre amor entre opostos, a segunda transforma essa diferença em matéria-prima para algo mais denso: o embate entre fé e liberdade.

O conflito entre os dois é mais do que cultural; é filosófico. Joanne não acredita em Deus, mas acredita em si mesma. É cética, mas convicta. Noah, por outro lado, tem fé — e essa fé o define. Quando o relacionamento avança, o que antes era um traço charmoso vira um campo minado. O impasse religioso se mantém, não porque ela tenha uma crença que a impeça de ceder, mas porque não quer abrir mão da autonomia que construiu. Para Joanne, submeter-se a uma estrutura de fé que limita sua autenticidade seria trair a si mesma. E, como diz sua mãe em um dos diálogos mais simbólicos da temporada, “são os centímetros que contam”. Pequenos gestos, pequenas concessões, pequenas diferenças — são eles que definem a medida de um amor maduro.

Esses “centímetros” se transformam no coração da segunda temporada. Joanne e Noah não dão saltos narrativos, mas se movem com cuidado — e sentido. O que antes era uma história sobre o impossível agora é uma série sobre o difícil: manter-se juntos, construir um lar comum, conviver com o incômodo. O grande acerto dos novos episódios é justamente trazer os protagonistas para o centro, explorando o amor sem idealizá-lo. O roteiro aposta na convivência, no atrito, nas tensões familiares, e com isso constrói um retrato sincero das microbatalhas cotidianas de um bom casamento.

E se o casal continua sendo o eixo emocional, o elenco de apoio ganha brilho próprio. Justine Lupe, como a insuportável e irresistivelmente divertida Morgan, continua roubando cenas. Sua personagem é o espelho imperfeito de Joanne — impulsiva, caótica, mordaz —, e Lupe dá a ela uma energia deliciosa, equilibrando humor e vulnerabilidade com o mesmo timing que a tornou destaque em Succession. É através dela que a série se permite rir de si mesma, oferecendo o contraponto cômico à densidade das questões centrais.

Timothy Simons, como Sasha, irmão de Noah, também brilha. Com sua ironia discreta e olhar cético, ele é o personagem que melhor traduz a tensão entre a fé e o pragmatismo moderno. Há algo de profundamente humano na forma como ele reage ao casal: ora protetor, ora exasperado. Ao lado de Jackie Tohn, que dá leveza a Esther, forma um núcleo secundário que funciona como coro grego — observando, opinando e, às vezes, desestabilizando o casal principal.

A participação de Leighton Meester, mesmo que breve, é um presente para quem acompanha a vida real do casal Brody-Meester. A química entre os dois é instantânea, e o episódio em que ela aparece brinca metalinguisticamente com o imaginário pop, transformando a aparição numa piscadela afetuosa ao público.

Mesmo assim, o roteiro se mantém fiel ao tom da série: leve, agridoce e afiado em suas observações sobre o cotidiano. Nobody Wants This não quer ser uma grande tese sobre religião, nem um tratado sobre casamento; quer ser uma crônica de relacionamento, com o humor e o desconforto que vêm de tentar conciliar mundos que não se encaixam perfeitamente.

Ainda assim, é impossível ignorar que a segunda temporada parece se repetir — um eco da primeira. O arco de crescimento é sutil demais, e a sensação de “já vimos isso antes” é inevitável. A série não avança de forma significativa; prefere revisitar as mesmas inseguranças, as mesmas conversas, as mesmas dúvidas. É quase como se Joanne e Noah estivessem presos em um loop emocional, sempre tentando resolver o que não tem solução. Mas há uma verdade melancólica nisso: muitos casais permanecem nesse ciclo, e talvez seja justamente esse espelho que torna a série tão honesta.

Kristen Bell e Adam Brody continuam sustentando a trama com uma química invejável. Bell domina o tom de humor autoirônico e vulnerabilidade, enquanto Brody traz uma serenidade que equilibra o caos. Eles fazem o espectador acreditar que o amor pode ser imperfeito e ainda assim verdadeiro. A série sobrevive — e encanta — porque os dois entendem que Nobody Wants This não é sobre o milagre da fé, mas sobre o milagre da convivência.

Ao final da segunda temporada, ficamos com a impressão de que o casal aprendeu a se amar dentro do mesmo conflito, sem resolvê-lo. E talvez essa seja a resposta mais madura que a série poderia dar. Não há conversão, nem rendição — apenas o exercício constante de permanecer, mesmo quando o outro continua sendo um mistério.

Nobody Wants This se repete, mas permanece encantadora. E talvez, no fim, seja isso que a torna tão próxima da vida real: o amor como escolha diária, feita um centímetro de cada vez.


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