O Dia em Que o Mundo Pode Acabar: A House of Dynamite e o Medo Contido de Kathryn Bigelow

Em A House of Dynamite, Kathryn Bigelow transforma vinte minutos em uma eternidade. É um filme que pulsa sob a pele — e não por explosões ou efeitos, mas pela sensação de estar testemunhando, em tempo real, o momento em que a civilização pode desabar.

Desde os anos 1980, quando The Day After deixou gerações inteiras apavoradas com a ideia de um holocausto nuclear, poucos filmes conseguiram revisitar esse medo ancestral com a mesma força. Bigelow, que já havia explorado o poder e a paranoia americanos em The Hurt Locker e Zero Dark Thirty, retorna agora com um thriller que fala menos sobre guerra e mais sobre impotência.

O tempo real como prisão

A diretora estrutura a narrativa em tempo real: acompanhamos o mesmo intervalo de pouco menos de vinte minutos — o tempo que um míssil leva para atingir o território americano — sob diferentes perspectivas. Da oficial Olivia Walker (Rebecca Ferguson), presa à tela do radar; dos generais que tentam decidir entre retaliar ou esperar; e do presidente dos Estados Unidos (Idris Elba), o homem solitário que carrega literalmente o peso do mundo.

Essa repetição de perspectivas é o que torna o filme hipnótico. A cada versão, o tempo parece mais curto, as vozes mais nervosas, e o silêncio mais eloquente. O suspense nasce não do ataque em si, mas da falta de informação: quem disparou o míssil? Existe de fato um inimigo? Ou é apenas o sistema, essa máquina humana de poder e medo, colapsando sobre si mesma?

O medo justificado

Como críticos ressaltam, e eu concordo, Bigelow subverte o fascínio pelo heroísmo militar que marcou suas obras anteriores. Em vez de glorificar a máquina de guerra americana, ela expõe o absurdo de um sistema em que poucos decidem o destino de milhões — e o fazem em minutos, cercados de incertezas, egos e emoções humanas.

O filme mexe com paranoias profundamente justificadas. Vivemos num mundo em que as armas se tornaram mais sofisticadas, as fronteiras da razão mais tênues e os tratados de desarmamento mais frágeis. A ameaça não é mais apenas política, mas tecnológica — o roteiro sugere inclusive que o míssil possa ter sido disparado por erro de inteligência artificial. A ironia é cruel: quanto mais tentamos criar sistemas infalíveis, mais expostos estamos à falha.

A humanidade diante do fim

Idris Elba entrega uma das performances mais contidas e poderosas de sua carreira. Seu presidente não é o herói infalível dos blockbusters patrióticos; é um homem à beira de um colapso, tentando raciocinar enquanto percebe que talvez não haja uma “resposta certa”. O diálogo com o general interpretado por Tracy Letts — “This is insanity!” / “No, sir. This is reality.” — sintetiza o espírito do filme.

Bigelow não oferece consolo, nem catarse. Quando a defesa falha e Chicago parece condenada, o filme escolhe o silêncio, o não saber. O impacto nunca é mostrado. O que importa é o que vem antes: o instante em que o ser humano, diante da própria criação, percebe que não tem mais controle.

O paradoxo da segurança

Há um paradoxo essencial que A House of Dynamite entende melhor do que qualquer outro filme recente: quanto mais o mundo se arma em nome da segurança, mais frágil ele se torna. Bigelow transforma esse raciocínio em pura tensão cinematográfica — e, no processo, revisita medos que definiram o século 20 e que, infelizmente, continuam tão vivos quanto antes.

O resultado é um filme sufocante e brilhante, que não fala apenas sobre guerra, mas sobre o tempo — o tempo que nos resta, o tempo que desperdiçamos, o tempo que acreditamos poder controlar.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário