As 5 Melhores Canções de Alan e Marilyn Bergman

Poucos letristas traduziram o amor, o tempo e a memória com tanta elegância quanto Alan e Marilyn Bergman. O casal — que trabalhou junto por mais de 60 anos — criou uma linguagem própria: sofisticada, íntima e sempre à beira da melancolia. Eles escreviam sobre sentimentos adultos, amores reais, e o peso de continuar acreditando na beleza. Suas palavras deram voz a melodias de Michel Legrand, Marvin Hamlisch, Dave Grusin e Johnny Mandel, e foram eternizadas por intérpretes como Barbra Streisand, Frank Sinatra, Tony Bennett e Sarah Vaughan.

Juntos venceram 3 Oscars e foram indicados 16 vezes ao longo de mais de quatro décadas, o que os coloca entre os letristas mais premiados e respeitados da história da Academia

Abaixo, cinco das canções que melhor representam essa fusão rara de poesia e música.

“The Windmills of Your Mind” (1968)

Escrita especialmente para The Thomas Crown Affair, a canção acompanha a sequência de abertura do filme — uma montagem simbólica que reflete o labirinto mental de Thomas Crown (Steve McQueen), um homem dividido entre o tédio e o risco, entre o controle e o caos.

Michel Legrand compôs a melodia em forma de espiral, e os Bergman criaram uma letra que ecoa essa estrutura circular: imagens que se repetem, se sobrepõem e giram sem descanso, como pensamentos em loop. O resultado é uma canção que descreve o movimento da mente com a precisão de um poema surrealista.

“Like a circle in a spiral, like a wheel within a wheel,
Never ending or beginning on an ever-spinning reel…”

A canção funciona dentro do filme como um espelho do personagem — racional, elegante, mas emocionalmente inquieto. E, fora dele, tornou-se um standard atemporal, gravado por dezenas de artistas de estilos completamente diferentes: de Noel Harrison (que canta a versão original no filme) a Dusty Springfield, Barbra Streisand, Sting e Petula Clark.

Em francês, a versão “Les Moulins de mon Cœur”, também com letra dos Bergman adaptada a partir da original de Legrand, se tornou um clássico absoluto da chanson, eternizada por Claude Nougaro, Eddy Marnay, e mais tarde Dany Brillant.

É um redemoinho de imagens e metáforas: o tempo, a mente e o amor girando sem fim. A letra não conta uma história — evoca um estado mental. É o tipo de texto que parece se mover com a música, sugerindo o fluxo de pensamentos de alguém tentando compreender o que sente.

“What Are You Doing the Rest of Your Life?” (1969)

Música: Michel Legrand
Letra: Alan & Marilyn Bergman
Filme: The Happy Ending (1969)
Indicação ao Oscar de Melhor Canção Original (1970)

Em The Happy Ending, de Richard Brooks, a canção surge em um dos momentos mais melancólicos da história. O filme acompanha o desmoronamento de um casamento aparentemente perfeito, que se revela corroído por traições, segredos e mentiras. Jean Simmons interpreta Mary, uma mulher que abandona o marido e a vida de fachada em busca de sentido — e é nesse contexto que a música aparece.

“I want to see your face in every kind of light,
In fields of dawn and forests of the night.”

Dentro do filme, a canção tem um papel ainda mais emocionante: ela traduz o desejo de Mary por um amor ideal — aquele que ela nunca teve. O contraste entre a letra e a trama é devastador.
Enquanto os versos falam em entrega total e amor eterno, a personagem vive a ruína da ilusão romântica. É o sonho de alguém que quer o impossível: um amor puro num mundo de decepções.

“I want to see your face in every kind of light…”
soa como uma promessa, mas também como uma confissão de solidão.

O filme passou praticamente despercebido em seu lançamento, mas a canção sobreviveu — e se tornou uma das mais gravadas do repertório dos Bergman. Barbra Streisand, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Peggy Lee, Frank Sinatra e Diana Krall deram novas interpretações à letra, cada uma realçando um aspecto diferente da sua melancolia.

É um hino à busca pelo amor ideal — mas também o lamento de quem já entendeu que a eternidade raramente cabe dentro da vida real e a minha favorita do casal (com Legrand, claro). Uma declaração de amor serena, quase sussurrada, como quem faz um desejo ao apagar as velas. Cada verso é uma entrega. A letra não pede, convida — a dividir o futuro, o tempo e até o silêncio. Os Bergman tinham um talento especial para capturar a vulnerabilidade do amor maduro, algo raro na música popular. Composta para o filme de Richard Brooks, a canção logo transcendeu o cinema e virou padrão no repertório de jazz.

“The Way We Were” (1973)

Música: Marvin Hamlisch
Filme: The Way We Were
Oscar de Melhor Canção Original (1974)

Talvez o maior sucesso comercial dos Bergman, imortalizado na voz de Barbra Streisand. A letra resume a dor e a doçura das lembranças que não se apagam. É uma canção sobre amor e perda, mas sem amargura.

Em The Way We Were, a canção é o eixo emocional do filme — e o espelho da história de amor entre Katie Morosky (Barbra Streisand) e Hubbell Gardiner (Robert Redford). Ela aparece não apenas como tema musical, mas como síntese lírica da própria narrativa: um amor profundo que não resiste às diferenças políticas, sociais e de temperamento.

“Memories may be beautiful and yet,
What’s too painful to remember,
We simply choose to forget.”

Os Bergman capturaram o instante em que o amor vira lembrança — quando o que resta são apenas fragmentos de um passado idealizado. No filme, essa canção é a voz de Katie, que carrega tanto a intensidade de quem amou demais quanto a serenidade de quem já entendeu que não há volta.
A simplicidade da letra é o que a torna universal: qualquer pessoa que já tenha perdido um amor reconhece o sentimento. Fora do cinema, “The Way We Were” se tornou um símbolo da nostalgia, uma balada sobre o que é impossível apagar.

A simplicidade é o segredo: um texto direto, mas carregado de sentimento. O casamento entre letra e melodia é tão perfeito que a canção se tornou sinônimo de nostalgia.

“How Do You Keep the Music Playing?” (1982)

Música: Michel Legrand
Filme: Best Friends

Os Bergman voltam ao tema do amor duradouro. A letra é uma conversa entre dois amantes que tentam compreender como manter viva a paixão sem perder a autenticidade.

No filme Best Friends, de Norman Jewison, os protagonistas (Burt Reynolds e Goldie Hawn) são roteiristas que se casam e descobrem que o amor que parecia fácil na ficção é muito mais complexo na vida real.

É nesse contexto que a canção surge — como um questionamento adulto sobre a continuidade do amor, sobre o desafio de manter viva a melodia depois que o encantamento inicial se transforma em rotina.

“How do you keep the song from fading too fast?
How do you lose yourself to someone,
And never lose your way?”

Os Bergman escrevem aqui uma letra profundamente honesta. É um diálogo entre duas pessoas que se amam, mas sabem que o tempo pode transformar tudo. Não há idealização, só vulnerabilidade e sabedoria.

A gravação original, com Patti Austin e James Ingram, traduz essa tensão com perfeição: é um dueto que começa em harmonia e termina em dúvida — como todo relacionamento real.

É uma canção sobre a maturidade emocional, um verdadeiro tratado sobre convivência, tempo e aceitação. Interpretada por Patti Austin e James Ingram, tornou-se hino de casais e intérpretes que valorizam a honestidade sentimental. A melhor versão é a de Johnny Mathis com Michel Legrand ao piano. Fica a dica.

“It Might Be You” (1982)

Música: Dave Grusin
Filme: Tootsie

Com um tom mais leve, mas igualmente sensível, esta canção fala da descoberta inesperada do amor. O eu lírico observa, espera, duvida — até admitir que pode estar diante de “a pessoa certa”.

Composta para Tootsie, de Sydney Pollack, a canção acompanha o protagonista vivido por Dustin Hoffman — um ator frustrado que, ao se disfarçar de mulher para conseguir trabalho, acaba se transformando internamente.

Enquanto o filme é uma sátira sobre gênero e identidade, “It Might Be You” surge como seu coração emocional: um momento de pausa, onde a ironia dá lugar à ternura.

“Time, I’ve been passing time watching trains go by.
All of my life, wondering where you are,
And if I’ll ever see you walk into my life.”

A letra fala da espera — do tempo que passa e das esperanças que persistem mesmo quando parecem ingênuas.

Dentro do filme, ela representa a descoberta do amor verdadeiro sob uma nova perspectiva, quase como se o personagem finalmente enxergasse o outro (e a si mesmo) com honestidade.

Fora do contexto de Tootsie, a canção se tornou um clássico romântico dos anos 1980. A gravação de Stephen Bishop cristaliza o tom suave e introspectivo dos Bergman, e o sucesso foi instantâneo: a música se tornou presença obrigatória em rádios, casamentos e trilhas sonoras da época.

É uma das letras mais suaves dos Bergman, e ainda assim profundamente emocional.

Os poetas do amor adulto

Alan e Marilyn Bergman escreveram sobre o amor não como ideal, mas como experiência. Em suas letras, o romance nunca é simples — é um diálogo entre razão e emoção, fé e cansaço, lembrança e desejo.

Eles escreveram para adultos que já amaram e se decepcionaram, mas ainda acreditam que o amor, quando verdadeiro, vale o risco.

Com Michel Legrand, criaram melodias que giram como memórias; com Marvin Hamlisch, deram voz à nostalgia; com Dave Grusin, encontraram leveza na esperança.

As suas canções habitam o território mais difícil da música popular: o da honestidade. São poemas sobre o que é continuar sentindo quando tudo já poderia ter se esvaziado.

Barbra Streisand, a intérprete que melhor compreendeu a alma da dupla, disse uma vez:

“Os Bergman escrevem sobre o que o coração sente quando as palavras faltam.”

E talvez seja isso que os torna eternos: cada verso parece ter sido escrito para um momento que todos já viveram — e que nunca será completamente esquecido.


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