Mr. Scorsese: quando o mito fala por si

Há uma sabedoria antiga na máxima que recomenda não conhecer seus ídolos. Mr. Scorsese, a série documental de Rebecca Miller, confirma isso com elegância — e uma certa frustração. Martin Scorsese sempre foi considerado “o diretor dos diretores”: um artista que moldou o cinema americano moderno, que incomodou, emocionou e revolucionou a forma como vemos a culpa, a fé, a violência e a redenção. A promessa do documentário era revisitar o homem por trás da arte — o gênio, o historiador, o sobrevivente. Mas o que descobrimos é um retrato que fascina menos pelo que revela, e mais pelo que evita encarar.

O mito fala — e domina a narrativa

Scorsese é um contador de histórias nato. Sua fala torrencial, cheia de energia e detalhes, continua irresistível. Miller faz bom uso disso: costura suas lembranças a um arquivo visual impressionante, de filmes, bastidores e cenas raras. As imagens são primorosas, e a montagem — reverente — dá ritmo a cada episódio. Nesse sentido, Mr. Scorsese é um presente para qualquer cinéfilo: o privilégio de ouvir o próprio mestre narrar sua trajetória.

Mas há um problema inevitável quando o ídolo se torna o narrador exclusivo de si mesmo: o mito sufoca o homem. A complexidade de um artista que sabe exatamente o peso de sua genialidade — e que passou décadas em busca de reconhecimento institucional, de um Oscar que tardou, de uma canonização que ele próprio parece desejar e temer — não é realmente dissecada. Como observou o The Guardian, o documentário “trata Scorsese como um santo laico, um homem iluminado por seus próprios filmes, mas raramente questionado por eles”. O resultado é curioso: um Scorsese que se diz “pária”, ressentido com a falta de compreensão que sofreu na juventude, mas cuja voz hoje é quase hegemônica. E, paradoxalmente, é justamente essa lamúria tardia que soa cansativa.

O que o documentário escolhe mostrar — e o que prefere omitir

Miller acerta em escolher uma narrativa ampla, dividida em cinco episódios, mas a profundidade varia. Como apontou a Washington Post, há desequilíbrio: alguns filmes ganham longas análises (como Taxi Driver e The Last Temptation of Christ), enquanto outros — The Age of Innocence, Kundun ou Silence, por exemplo — passam rápido demais, sem explorar o contexto emocional que os inspira.

A dimensão pessoal, prometida como centro da série, acaba sendo periférica. Sabemos do vício em cocaína e da quase overdose nos anos 1980, mas sem mergulhar no abismo que o levou até lá. As mulheres da vida de Scorsese — esposas, musas, colaboradoras — aparecem, mas com uma delicadeza quase protocolar. O afastamento de De Niro, a parceria quase simbiótica com DiCaprio, a tensão entre espiritualidade e brutalidade: tudo está ali, mas na “dose mínima”, insuficiente para realmente iluminar o homem.

Como escreveu a IndieWire, Mr. Scorsese é “magnífico como compilação, morno como revelação”. E talvez essa seja a grande questão: a série é uma aula de cinema, mas não um estudo de caráter.

Rebecca Miller, a discípula que observa com reverência

Não é difícil entender a postura de Rebecca Miller. Queria evitar citar os homens cujos nomes são ligados ao dela, mas ela cresceu cercada de ícones — filha de Arthur Miller e esposa de Daniel Day-Lewis — e carrega consigo um olhar respeitoso diante de figuras monumentais. Em entrevistas, ela admitiu que queria compreender a tensão entre fé e violência na obra de Scorsese, mas também reconheceu que não imaginava “a magnitude da empreitada”. O resultado é uma série feita com admiração genuína, mas sem a distância crítica que transformaria o retrato em algo realmente revelador. Como notou a RogerEbert.com, “é uma carta de amor, não uma dissecação”.

Quando o amor ao cinema substitui o conflito humano

Há momentos brilhantes — quando Scorsese reflete sobre infância, sobre Little Italy, sobre os códigos morais que moldaram Mean Streets e Goodfellas. Nessas passagens, o documentário pulsa. Mas quando ele fala de si, o discurso tende ao autoelogio disfarçado de confissão. Não há enfrentamento, apenas lembrança. É um homem revisitando o espelho, não quebrando-o.

A AP News resumiu bem: “O que Mr. Scorsese oferece é o próprio Scorsese como narrador final de sua mitologia — o autor controlando o último corte.”
E é exatamente isso: o diretor que sempre lutou pelo final cut agora o aplica à própria vida.

Mr. Scorsese é um documentário importante, generoso em forma e farto em conteúdo, mas seguro demais para quem prometia desvelar o homem por trás do mito. É, sem dúvida, o retrato de um artista extraordinário — mas não um retrato extraordinário de um homem.

Em última análise, Rebecca Miller entrega o Scorsese que ele quer ser visto: um cronista da América, um visionário que ainda sente as feridas da rejeição. Fascinante, sim. Mas talvez fosse mais interessante ouvir quem ele realmente feriu — ou quem o inspirou de verdade.


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