Não é comum ter uma atriz do calibre de Emma Thompson vivendo uma detetive perspicaz na TV. També, é deliciosamente britânico e subversivo o modo como Down Cemetery Road se apresenta. Adaptada por Morwenna Banks do romance de Mick Herron — o mesmo autor da série Slow Horses —, a produção da Apple TV+ começa como uma história doméstica em Oxford e logo se transforma num thriller de espionagem cheio de ironia, culpa e conspiração governamental.
Uma heroína por acaso
Sarah Tucker (Ruth Wilson, em grande forma) é uma restauradora de arte inteligente e irônica, dona de uma sensibilidade que enxerga o que os outros tentam apagar — seja num quadro antigo, seja numa mentira oficial. Vivendo em uma casa perfeita e em um casamento estagnado com Mark, ela parece buscar um propósito maior, e o acaso entrega um.
Durante um jantar caótico com clientes arrogantes do banco em que o marido trabalha, uma explosão em uma casa vizinha interrompe a noite. Das ruínas, os bombeiros resgatam uma garotinha, Dinah, a única sobrevivente — a mesma criança que Sarah havia cruzado de bicicleta algumas horas antes.
A faísca da conspiração
Curiosa e inconformada, Sarah tenta levar um bilhete ao hospital para a menina, mas é recebida com hostilidade. Enfermeiros evasivos, arquivos “confidenciais”, fotos alteradas digitalmente: tudo indica que algo está sendo acobertado. Usando suas lentes de restauradora, ela percebe que a imagem oficial do acidente foi manipulada — Dinah literalmente apagada da fotografia.
Enquanto isso, conhecemos o agente Hamza Malik, funcionário de um obscuro departamento chamado Intelligence and Threats. Ele descobre que o “acidente” foi, na verdade, uma operação secreta que deu errado, e que agora o governo tenta varrer qualquer vestígio do incidente. E isso inclui a própria criança.

Zoe Boehm entra em cena
Tentando entender o que se passa, Sarah acaba batendo à porta da dupla de detetives particulares Zoe Boehm (Emma Thompson) e Joe Silvermann (Adam Godley), donos da “Oxford Investigations”. Ela pede ajuda para rastrear Dinah, convencida de que a menina corre perigo. Enquanto Zoe duvida da história, Joe vê ali uma oportunidade e talvez um lampejo de heroísmo que o reaproxima da mulher. O roteiro de Banks equilibra essas cenas de humor e cinismo com diálogos afiados, lembrando os melhores momentos do noir clássico.
Mas o que começa como um jogo de dedução rapidamente se transforma em tragédia. Dinah é retirada às pressas da UTI e Sarah presencia o sequestro da menina, sendo derrubada da bicicleta por uma van branca quando tenta impedir. Quando finalmente corre de volta para contar o que viu a Joe, o encontra morto, e o crime disfarçado de suicídio. O suspense ganha corpo e o tom se endurece: a brincadeira acabou.
O eco de Slow Horses
A estreia de Down Cemetery Road carrega o mesmo DNA ácido e político de Slow Horses. O humor britânico cortante, o desprezo pela burocracia e a presença magnética de duas intérpretes de peso — Ruth Wilson e Emma Thompson — fazem da série um banquete para quem gosta de thrillers de espionagem cheios de humanidade.
A direção aposta em ritmo, diálogos precisos e uma ambientação que combina charme universitário e paranoia institucional. Como em Slow Horses, a grande força está na colisão entre o banal e o sombrio — o cotidiano que, de repente, revela o monstro no subsolo.

Um primeiro episódio exemplar
Sem recorrer a flashbacks nem explicações didáticas, o episódio-piloto constrói sua teia de forma ágil: uma explosão, uma menina desaparecida, um governo mentindo, uma mulher que se recusa a parar de perguntar. Ruth Wilson transforma Sarah em uma espécie de detetive relutante, e Emma Thompson, mesmo aparecendo pouco, domina cada segundo de tela como Zoe Boehm — uma figura enigmática, sarcástica e com passado a ser revelado. Mas, pelo marido que tinha carinho, ela decide seguir as investigações.
O resultado é um thriller moderno com alma clássica: espirituoso, elegante e perigosamente envolvente. Um mistério sobre o que acontece quando uma pessoa comum decide não fingir que não viu.
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