Em 1992, eu ainda era estudante e fazia parte da equipe local de apoio à ONU na ECO-92, a histórica Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Lembro-me do Rio tomado por delegações de todos os cantos do planeta, da sensação inédita de ver líderes mundiais caminhando pelo Riocentro, de ouvir mais de dez idiomas ao mesmo tempo e de cruzar, incrédula, com Jane Fonda e Fidel Castro entre as reuniões. Aquele encontro parecia o futuro. Pela primeira vez, o mundo se reunia para falar seriamente sobre o destino do planeta — e o Rio de Janeiro era o epicentro desse diálogo global.
A ECO-92 — ou Rio Earth Summit, como ficou conhecida — deu origem a marcos que moldaram toda a política ambiental contemporânea: a Agenda 21, a Convenção do Clima, a Convenção da Biodiversidade e a de Combate à Desertificação. Foi ali que se consolidou o conceito de desenvolvimento sustentável, algo que parecia utópico, mas inspirou gerações. O clima era de idealismo: cientistas, ativistas e governos tentavam provar que havia tempo, que a cooperação poderia salvar o planeta.

Trinta e três anos depois, o Rio volta a ocupar o mesmo papel simbólico, mas em outro tempo — e com outro tom. A cidade recebe agora o C40 World Mayors Summit 2025, de 3 a 5 de novembro, um evento que, de certo modo, é o herdeiro direto da ECO-92. Se naquela época eram presidentes e primeiros-ministros que negociavam tratados, agora são prefeitos que se reúnem para mostrar resultados. A diplomacia ambiental desce da escala global para a escala humana.
O C40 nasceu justamente porque as promessas de 1992 demoraram a se concretizar. Fundado em 2005 pelo então prefeito de Londres, Ken Livingstone, o grupo uniu grandes cidades do mundo para provar que a transformação climática pode — e deve — começar no nível urbano. O raciocínio é simples: é nas cidades que vivemos, consumimos, poluímos e inovamos. É nas ruas, não nos palácios, que a crise climática se manifesta e onde as soluções precisam ser testadas.
A edição de 2025 marca 20 anos de ação climática da C40 e acontece sob o tema “Era da Entrega”. O tom é menos utópico e mais pragmático: mostrar o que já está sendo feito e acelerar compromissos que possam ser replicados em outras metrópoles. A cúpula será presidida por Sadiq Khan, prefeito de Londres, e Yvonne Aki-Sawyerr, prefeita de Freetown, com Eduardo Paes como anfitrião. Prefeitos de quase cem cidades estarão no Rio ao lado de filantropos, investidores, cientistas e representantes da sociedade civil.
Os temas em pauta vão de transição energética e transporte limpo a habitação resiliente, mobilidade verde e adaptação urbana. A ideia é conectar o que será discutido no Rio diretamente com a COP30, que acontece semanas depois em Belém — um elo entre duas capitais brasileiras que hoje simbolizam os extremos da crise ambiental: o urbano e o amazônico.

Há algo profundamente poético — e talvez inevitável — em o Rio voltar a ser palco desse debate. A cidade que foi vitrine da esperança ambiental em 1992 agora tenta ser o laboratório da execução em 2025. O mundo mudou: a urgência é maior, as desigualdades mais visíveis, e o idealismo cede espaço à necessidade. Mas a essência permanece. Continuamos buscando equilíbrio entre desenvolvimento e preservação, entre o direito à cidade e o dever com o planeta.
Quando penso na jovem que eu era na ECO-92, ouvindo os discursos que pareciam desenhar um novo século, e na mulher que escreve agora sobre o C40, percebo que há um fio invisível ligando aqueles dias de euforia às discussões atuais. A diferença é que hoje não falamos mais em futuro distante — falamos em sobrevivência presente.
Que o C40 2025 consiga transformar o espírito da ECO-92 em algo mais concreto: menos promessas, mais entregas; menos cúpulas, mais ruas; menos slogans, mais soluções. Que o Rio, novamente, inspire o mundo — não apenas como símbolo, mas como ação.
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