All’s Fair: o caos, o luxo e a ironia de Ryan Murphy

Às vezes me sinto uma ET: jamais assisti um único episódio das Kardashians, não curto nada que tenha a ver com eles. Mas eu gosto de Ryan Murphy, mesmo que não seja de “tudo”, mas da maioria de seus trabalhos.

Isso porque Murphy é um gênio — e um exagerado. Tem uma assinatura inconfundível: cafonice, grandiosidade, cores saturadas, um certo desprezo pela realidade e uma paixão pela performance. Seja musical, true crime, horror ou fantasia, a gente sempre sabe quando tem seu dedo. Sua qualidade é tão acima da média que ele transita entre as plataformas mais poderosas — da FX à Netflix, da Hulu à Netflix — como quem muda de figurino. Raríssimo. E, talvez por isso, desfrute do que poucos na TV têm: liberdade total. Pode criar o que quiser. Grotesquerie foi um exemplo. All’s Fair é outro.

Outra marca registrada: Murphy é fiel às suas musas. Sarah Paulson, Jessica Lange, Niecy Nash-Betts, Glenn Close — mulheres intensas, camaleoas e imprevisíveis. E agora, em um gesto que parece delírio e gênio na mesma medida, ele decidiu criar uma série sob medida para Kim Kardashian.

Sim, All’s Fair nasceu de uma sugestão dela. Kim queria algo inspirado em Laura Wasser, a advogada dos divórcios milionários de Hollywood (e sua própria advogada). Murphy comprou a ideia e criou um universo à altura: Los Angeles vista pelo prisma da elite jurídica que se alimenta do drama alheio. Nasce um “Clube das Desquitadas” mesclado com “O Amor Custa Caro“(Intolerable Cruelty), dos Irmãos Coen.

E o resultado… é puro Ryan Murphy: um espetáculo de luxo, ironia e descontrole calculado.

O universo de All’s Fair

Ambientada em um escritório de advocacia exclusivamente feminino, a série acompanha Allura Grant (Kim Kardashian), advogada de divórcios que é, simultaneamente, a melhor e a mais perigosa da cidade — e que, ironicamente, está passando por sua própria separação.

Ao redor dela, um elenco impressionante: Dina Standish (Glenn Close), a sócia veterana, implacável; Liberty Ronson (Naomi Watts), sua melhor amiga e sócia, e Emerald Greene (Niecy Nash-Betts), a detetive infalível e prática da firma. Contra elas, além dos ex-maridos que querem deixar as mulheres no olho da rua tem uma ex-colega, a invejosa, talentosa e vingativa Carrington Lane (Sarah Paulson).

A cada episódio há participações de famosos como Jennifer Jason Leigh, Brooke Shields, Jessica Simpson, Judith Light e Ed O’Neill, entre outros. Cada divórcio é inspirado ou tem traços de muitas separações de famosos que já ouvimos falar, como se All’s Fair fosse um espelho distorcido de Hollywood — um universo onde cada figurino é uma estratégia e cada lágrima tem maquiagem à prova de câmera 4K.

Bastidores: entre o luxo e o deboche

A produção custou quase 70 milhões de dólares e recebeu incentivos fiscais da Califórnia. As gravações começaram em outubro de 2024 e terminaram em março de 2025. Antes mesmo de filmar, Murphy organizou um jantar “de integração” para o elenco — e o set virou uma espécie de clube de musas. Kim presenteou o elenco com pijamas da marca Skims; Sarah Paulson jogou uma batata frita no olho de Kim em uma cena intensa; Naomi Watts distribuiu lubrificantes como piada entre colegas. O tipo de anedota que só confirma o que vemos na tela: o clima é tão performático quanto os personagens.

Laura Wasser, a inspiração real, atuou como consultora da série. O universo jurídico é, portanto, familiar, mas a lente de Murphy o transforma em teatro: divórcios bilionários, advogadas que tratam o tribunal como passarela e clientes que transformam o fracasso amoroso em espetáculo público.

A crítica — e o massacre

Desde a estreia, All’s Fair vem sendo brutalizada pela crítica. The Guardian classificou a série como “fascinantemente, existencialmente terrível”; o News.com.au a chamou de “pior drama da TV moderna”; e há quem diga que “a atuação de Kim Kardashian é o equivalente emocional de um filtro facial”.

Mas, como quase tudo que Murphy faz, o exagero é parte do contrato. Ele sabe que seus projetos dividem plateias. All’s Fair não quer ser The Good Wife; quer ser Dynasty com ironia, quer ser Big Little Lies com Botox. O erro, talvez, esteja em quem tenta assistir esperando ver prestígio quando o criador sempre nos entrega performance.

O veredito

All’s Fair é uma obra que existe entre o delírio e a crítica, entre o deboche e o luxo. A série não busca realismo — ela se alimenta do artificial. É brega, é chic, é absurda. E, como todo bom produto de Ryan Murphy, é também uma provocação.

A crítica pode estar certa ao apontar o desequilíbrio e o tom excessivo. Mas, ao mesmo tempo, talvez esteja errada ao exigir “verossimilhança” de quem sempre fez da teatralidade uma assinatura. O que Murphy faz aqui é oferecer um espelho da indústria que o consagrou: brilhante, cruel, superficial e irresistível.

Falei que é para amar ou odiar — e estou vendo que, graças a Murphy, vou acabar entrando para o universo kardashiano. Será que isso é bom? Talvez não. Mas se é para mergulhar nesse caos de luxo, vaidade e ironia, que seja com a trilha sonora, o figurino e o veneno certos. Porque no tribunal de Ryan Murphy, até o exagero tem estilo — e o espetáculo, culpa nenhuma.


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