All’s Fair, T.1, Episódio 3 (Recap): Espelhos e Feridas

Depois da bomba no final do episódio anterior, All Is Fair desacelera para mergulhar nas consequências emocionais. O terceiro capítulo é um retrato sobre corpo, vaidade, envelhecimento e controle — um tema que Ryan Murphy domina, especialmente quando o luxo é usado para esconder a dor.

Tentando retomar o controle da própria vida, Allura Grant (Kim Kardashian) decide investir em todos os procedimentos estéticos possíveis: lasers, preenchimentos, ultrassons, harmonização. A promessa não é rejuvenescer — é se sentir viva. Enquanto isso, Emerald aposta em massagens terapêuticas e drenagens, mas avisa que está feliz sozinha, sem paciência para romance. Já Liberty, mais racional, inicia tratamentos anti-inflamatórios e hormonais para lidar com a menopausa.

Na conversa entre elas — uma das melhores sequências do episódio — Dina (Glenn Close) entra como a voz dissonante, questionando o sentido de tanto esforço: “Qual o limite do investimento em beleza e juventude, se o tempo é inevitável?”. O grupo concorda que não é sobre estética, mas sobre autocuidado e autoestima. A pergunta de Dina, porém, fica ecoando — será mesmo?

O caso da semana

A cliente do episódio é Leann, interpretada por Jessica Simpson em uma das participações mais inteligentes e autoconscientes da série. Leann é a ex-mulher de um roqueiro (vivido por Rick Springfield) que arruinou a aparência com cirurgias plásticas, tentando se manter jovem, e foi trocada por uma versão mais nova — uma “cópia atualizada”. A história ecoa a vida real de tantas mulheres em Hollywood, e Jessica Simpson brinca com a própria fama, inclusive mencionando um ex famoso em tom de paródia.

Mas o caso se torna mais sombrio do que cômico: Leann é vítima de violência doméstica e, em um ato extremo, se vinga do ex-marido com um ataque ácido — uma virada que tira qualquer leveza do episódio e mostra que Murphy, mesmo no glamour, ainda fala de traumas profundos. O escritório consegue um acordo, mas ninguém sai ileso — nem as advogadas, nem o público.

A guerra de Allura

Enquanto o caso da semana se resolve, a vida pessoal de Allura entra em nova espiral de caos. Ainda na fase da negação — o que Dina define como “o pior momento para negociar um divórcio” —, ela descobre que Chase teve outras amantes além de Milan. Entre elas, uma mulher trans, o que choca menos pelo fato em si e mais pelo padrão de mentira.

Em uma das cenas mais estranhas e humanas do episódio, Allura e Milan fazem juntas os testes de doenças sexualmente transmissíveis. Murphy filma o constrangimento com ironia: duas mulheres feridas, unidas pela traição do mesmo homem. Milan, arrependida e agora afastada de Chase, tenta se reaproximar, mas Allura está na fase da raiva — e não dá espaço para perdão.

Dina, pragmática, quer encerrar o caso o quanto antes para que Allura possa seguir em frente. Ela tenta negociar diretamente com a atual namorada de Chase, mas o plano falha: a mulher o apoia cegamente. Resta aceitar o acordo possível.

Mas Carrington Lane (Sarah Paulson) tem outros planos. Decidida a humilhar a rival, ela traz à tona um segredo que muda o rumo do processo: Allura congelou óvulos e os fecundou com Chase, o que significa que os embriões — legalmente — fazem parte da disputa judicial. É uma clara alusão ao caso real de Sofía Vergara, e Murphy, como sempre, usa o escândalo alheio para alimentar sua ficção.

O golpe atinge em cheio Dina, que não sabia desse detalhe.

O desfecho

Influenciada por Milan, que decidiu ser mãe solo, Allura toma uma decisão impulsiva e arriscada: falsifica a assinatura de Chase e faz a inseminação artificial sozinha. O gesto “resolve” o impasse jurídico dos embriões — mas cria um dilema ético e profissional de enormes proporções.

No consultório, Murphy faz a cena mais simbólica do episódio: enquanto o procedimento acontece, Allura lembra do dia de seu casamento com Chase — ao som de “Young and Beautiful”, de Lana Del Rey, a mesma música tocada no casamento de Kim Kardashian e Kanye West. Coincidência? Difícil acreditar.

A autorreferência é irônica, incômoda e poderosa: Allura tenta se libertar, mas o flashback revela que ela ainda não deixou de amar o ex-marido.

E isso, sim, pode ser o verdadeiro problema.


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