Ao escalar a vencedora do Oscar, Patricia Arquette, para encarnar Maggie Murdaugh em Murdaugh: Death in the Family já deixava claro que a série não teria a vítima em um papel apagado. Não há apenas semelhança física ou entrega emocional, mas pela precisão silenciosa com que a atriz devolve complexidade a uma mulher que, na vida real, foi reduzida a um nome em meio a uma tragédia.
Maggie foi esposa de Alex Murdaugh, o advogado poderoso da Carolina do Sul cuja queda expôs décadas de privilégios, corrupção e mentiras. Em 2021, Maggie e o filho Paul foram assassinados na propriedade da família. O marido e pai, Alex, foi condenado pelos crimes — um caso que virou símbolo de poder descontrolado e da impunidade que acompanha sobrenomes com herança política.

Na ficção, Arquette se recusa a retratá-la como mera vítima. Sua Maggie é uma mulher presa num casamento de manipulação emocional e controle coercitivo, um termo que a atriz enfatiza no podcast oficial da série: o tipo de relação em que o amor se confunde com medo, e a segurança depende do humor do outro.
“Essas pessoas são tão sedutoras que te convencem de que te amam”, diz Arquette. “Você sente que há luz quando está com elas — e vazio absoluto quando elas se afastam.”
A mulher do tênis dourado
Entre os episódios mais comentados, está a sequência passada no Caribe. Maggie, sozinha num bar, conhece uma médica viajando desacompanhada e uma mulher confiante, tranquila, com um par de tênis dourados. A cena é breve, mas devastadora: pela primeira vez, Maggie ousa se reinventar.
Ela mente. Diz que é separada, que não tem filhos, que tem o próprio negócio. A médica sorri, e a conversa flui com naturalidade. No dia seguinte, Maggie aparece usando os mesmos tênis dourados, e o gesto, sutil, se torna a virada simbólica de toda a sua trajetória.

O tênis não é sobre moda. É sobre apropriação de identidade — o desejo de ser outra, de existir fora do papel de esposa, de mãe, de sombra.
É o instante em que Maggie imagina uma vida possível: livre, dona de si, finalmente leve.
Mas, como em tantas histórias de mulheres presas a relacionamentos abusivos, a fantasia dura pouco.
No episódio seguinte, ela volta ao marido. O brilho do dourado contrasta com a escuridão da casa dos Murdaugh — e a série deixa claro que Maggie não saiu de lá por escolha.
Patricia Arquette e o retrato da prisão invisível
No podcast, Arquette fala sobre o desafio de representar uma mulher que, aos olhos de muitos, “deveria ter ido embora”.
“A pergunta ‘por que ela não deixou?’ me irrita”, confessa. “Essas pessoas são extremamente convincentes. Elas te fazem acreditar que são as vítimas. E, às vezes, até acreditam nisso.”
A atriz compara Alex Murdaugh a um narcisista grandioso, um homem que precisa controlar tudo e todos — inclusive pelo afeto.
“Às vezes, o jeito mais eficaz de te controlar é te fazer sentir amada”, diz Patricia. “Mas é um amor que tem prazo de validade: só existe enquanto ele é o centro do seu mundo.”
Ao longo da série, vemos Maggie perceber esse padrão. A câmera a acompanha em silêncio, observando o esvaziamento progressivo de alguém que já foi alegre, divertida, popular na comunidade.
O brilho dos tênis, então, vira um ponto de luz dentro da tragédia — o único sinal de que ela ainda se via viva por dentro.

Maggie Murdaugh, a mulher real
Na vida real, Maggie Murdaugh foi descrita por amigos como gentil, prática e leal aos filhos. Gostava da praia de Edisto, onde tinha uma casa que virou refúgio — e onde, pouco antes de morrer, confidenciou à irmã que pensava em se separar.
“Murdaughs não se divorciam”, ela teria dito. “Eles são uma família de advogados. Quando terminarem comigo, eu não terei nada.”
Foi morta pouco depois.
A série não busca responder “por quê”, porque talvez não haja resposta que satisfaça. O que ela faz — e o que Arquette torna palpável — é nos lembrar de quem Maggie era antes de se tornar manchete: uma mulher que acreditava no amor, que se esforçou para salvar o marido e que, no fim, tentou salvar a si mesma.

A verdade que o brilho esconde
Em seu diálogo final no podcast, Arquette resume o que mais a marcou ao viver Maggie:
“Acho que o que ficou em mim foi perceber quantas pessoas como Alex existem — e como é fácil cair no feitiço delas. Elas parecem brilhantes, encantadoras, e são as mais perigosas. Acho que fiquei mais desconfiada das pessoas depois disso.”
É curioso que a palavra “brilhante” apareça de novo — porque é exatamente esse o paradoxo que define Maggie: uma mulher que brilha em silêncio, vestindo um tênis dourado que ninguém entende, mas que carrega o sonho de liberdade que o mundo nunca lhe permitiu viver.
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