Rosalía e o Lux: o som da originalidade em tempos de plasticidade

Como publicado na revista CLAUDIA


Em tempos em que a música pop parece obedecer às mesmas fórmulas, Rosalía é o desvio. Desde que surgiu, ainda estudante de flamenco, já parecia existir em outra frequência. Nunca quis escolher entre o popular e o sofisticado — preferiu cruzar os dois. E é nesse cruzamento que nasce Lux, o álbum mais ousado e maduro de sua carreira, uma experiência sensorial e intelectual que devolve mistério à música pop.

Raízes e reinvenção

Rosalía Vila Tobella nasceu em 1992, em Sant Esteve Sesrovires, um vilarejo catalão que parece distante do estrelato global que ela conquistaria anos depois. Mas o DNA artístico estava lá desde cedo. Fascinada pela força emocional do flamenco, dedicou quase uma década ao estudo do gênero, absorvendo sua estrutura rítmica, seu canto primal e sua dor.

Essas raízes são o centro de gravidade de tudo o que ela faz — mesmo quando desaparecem na superfície. O que Rosalía aprendeu com o flamenco não foi apenas uma técnica vocal, mas uma ética: a entrega total, a confissão cantada, a teatralidade do sentimento. Quando ela aplica essa mesma intensidade ao pop, cria uma alquimia raríssima — uma música que é emoção crua e engenharia sonora ao mesmo tempo.

Entre o sussurro e o grito: o elo com Billie Eilish

Em certos momentos de Lux, é impossível não pensar em Billie Eilish. Ambas dominam o poder do silêncio — e o usam como parte da composição. Rosalía sussurra, Billie suspira; as duas constroem tensão no que não é dito, no que é deixado em suspensão.

Mas enquanto Billie trabalha o minimalismo emocional e o desconforto íntimo, Rosalía transforma esse silêncio em oração. É o mesmo tipo de vulnerabilidade controlada, mas canalizada para outra dimensão: Billie fala do eu contemporâneo; Rosalía fala da alma ancestral.

O elo entre elas vai além do som. As duas representam uma geração de artistas que rejeitam a ideia de “pop fabricado”. Escrevem, produzem, editam, dirigem. Fazem do controle criativo uma forma de expressão — e de resistência.

Se Billie Eilish transformou a melancolia em manifesto, Rosalía transforma a devoção em revolução. São polos distintos de uma mesma força: o desejo de devolver verdade à música.

As influências que moldaram uma linguagem

Rosalía é filha de muitas tradições. Do flamenco, herdou o duende — essa força espiritual que transforma dor em arte. Da música urbana, absorveu o ritmo, o pulso das ruas, a gíria e o corpo. De artistas como Björk, Laurie Anderson, Kate Bush e FKA twigs, aprendeu que o som pode ser performance, conceito, imagem e manifesto.

Há ecos de Kanye West em sua ousadia estética, de Frank Ocean em sua melancolia futurista, e até de Madonna na forma como transforma a reinvenção em identidade. Visualmente, Rosalía conversa com o surrealismo espanhol, com Almodóvar, com o barroco das igrejas catalãs e o exagero de Dalí.

Sua arte também nasce do diálogo com o cinema e a literatura — ela cita Marguerite Duras, Clarice Lispector, e transforma moda em narrativa visual. Loewe, Balenciaga, Abramović, Matthew Barney — tudo se mistura em uma construção total de linguagem. Rosalía é música, imagem, corpo e conceito.

Ecos de Mecano: a herança da emoção pop espanhola

Entre as múltiplas influências que atravessam Lux, há uma que raramente é mencionada, mas que vibra no fundo das canções: Mecano.

O trio que dominou os anos 1980 redefiniu o pop espanhol — elegante, teatral, melancólico e ousadamente emocional. Rosalía herda esse mesmo DNA: o desejo de unir sofisticação sonora e vulnerabilidade lírica, a combinação entre a pureza da voz e a complexidade dos arranjos.

Assim como Ana Torroja, Rosalía canta com uma clareza que corta o ar, sem ornamentos desnecessários. Ambas transformam o cotidiano em poesia e a dor em espetáculo. Há momentos em Lux — especialmente em Porcelana e Luz sobre Luz — em que a influência de Mecano é quase espiritual: o mesmo tipo de melancolia luminosa, onde o pop se torna confissão e memória.

Além disso, há um eco estético inegável. Mecano foi pioneiro em fundir eletrônica, música tradicional espanhola e temas existenciais — exatamente o que Rosalía faz agora, em outra escala.
Se o trio de Nacho e José María Cano falava de amores impossíveis, fé e identidade sob os sintetizadores dos anos 80, Rosalía leva esse legado adiante: mantém a introspecção, mas a envolve em orquestras e texturas digitais, fazendo do pop novamente um lugar de transcendência.

Lux: entre o sagrado e o caos

Dividido em quatro movimentos, Lux é uma missa pós-moderna. Há orquestra, sintetizadores, canto em treze línguas, vozes processadas e cordas de arrepiar. As colaborações com Björk e Yves Tumor ampliam esse universo entre o humano e o divino, o caos e o êxtase.

Não é um disco fácil — é um disco que exige. Cada faixa é um ritual. Cada pausa, uma respiração. Rosalía canta como quem reza, dança e desafia ao mesmo tempo. A produção de Daníel Bjarnason com a London Symphony Orchestra traz monumentalidade, mas sem perder a crueza: o som é puro, tenso, vivo.

Originalidade como gesto político

Em Lux, a revolução é o silêncio, a pausa, o risco. Rosalía não busca hits fáceis nem playlists; busca permanência. Ao fazer um álbum tão experimental dentro do universo pop, ela redefine o que “popular” pode significar.

Ser mulher e ser criadora absoluta é seu ato político. Rosalía escreve, compõe, produz, dirige. E, ao fazer isso, desmonta a estrutura patriarcal da indústria. Sua originalidade não é efeito estético — é escolha de liberdade.
Em uma cultura saturada de fórmulas, Lux é resistência sonora.

Faixas de destaque de Lux

1. “Porcelana”
Abertura sublime — uma mistura de coral e minimalismo eletrônico. É o primeiro aceno ao tema central do álbum: a fragilidade como forma de poder.

2. “Mio Cristo (Piange Diamanti)”
Cantada em italiano, é quase uma ária. Rosalía transforma a devoção em performance, como se encenasse uma ópera pop. A faixa é pura entrega vocal.

3. “Divinize”
A ponte entre o humano e o divino. Batidas secas contrastam com um arranjo de cordas etéreas. Um dos pontos altos da produção de Bjarnason.

4. “La Perla”
Mais terrena e emocional, é o momento em que o álbum respira. Um tributo à música regional, ao feminino e à sensualidade da imperfeição.

5. “Berghain” (feat. Björk & Yves Tumor)
O ápice do segundo movimento. Um encontro de universos: industrial, sagrado, clubístico. Três artistas visionários explorando a ideia de transcendência sonora.

6. “Luz sobre Luz”
Encerramento quase litúrgico. Voz, eco e orquestra — Rosalía se despe do personagem e fica só a artista, a mulher, o som. Um adeus e um renascimento.

A artista que não cabe no presente

Rosalía não pertence apenas ao agora — pertence à história. Lux é um álbum que poderia ecoar numa catedral ou ser transmitido do espaço. É universal e pessoal, antigo e futurista, terreno e celestial.
Enquanto muitos seguem tendências, ela cria caminhos. E quando o pop se torna previsível, Rosalía o devolve ao imprevisível.

Em um mundo que se contenta com o plástico, ela ainda é feita de carne, sangue e luz.


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