Mary Shelley: A Criadora e Sua Criatura

Como publicado em CLAUDIA

Entre muitas figuras na história da arte que parecem maiores do que o tempo, Mary Wollstonecraft Shelley é uma delas. E graças à popularidade de sua obra, Frankenstein, ainda no século 21 é uma mulher que desperta curiosidade.

Filha de dois pensadores radicais — a filósofa feminista Mary Wollstonecraft e o escritor William Godwin — Mary nasceu, em 1797, em um mundo que ainda mal sabia o que fazer com mulheres inteligentes, livres e conscientes de sua própria voz. Desde cedo, viveu sob o peso de um nome e a ausência de uma mãe, mas construiu o seu próprio legado ao escrever uma obra inovadora aos 18 anos. Frankenstein é uma das narrativas mais simbólicas, modernas e visionárias da literatura.

Mary cresceu cercada de livros e ideias. Sua infância, longe de convencional, foi marcada por debates sobre política, filosofia, ciência e direitos humanos — temas que mais tarde se tornariam a espinha dorsal de sua obra. Quando conheceu o poeta Percy Bysshe Shelley, a jovem se viu diante de um amor tão intenso quanto destrutivo. Juntos, fugiram da Inglaterra em busca de liberdade, mas encontraram, em igual medida, a dor. A perda de filhos, a morte precoce da mãe e a rejeição da sociedade moldaram em Mary uma sensibilidade singular, a mesma que daria vida ao “monstro” que refletia as angústias humanas mais profundas.

Foi em 1816, durante um verão tempestuoso em Genebra, cercada por Percy, Lord Byron e John Polidori, que Mary concebeu a história que mudaria tudo. Em meio a uma aposta para ver quem escreveria o melhor conto de terror, nasceu Frankenstein; or, The Modern Prometheus. Não apenas uma história sobre um cientista que cria vida, mas uma metáfora sobre responsabilidade, solidão e criação, sobre o que significa ser humano. Mary projetou em Victor Frankenstein a ambição e a cegueira masculina, e em sua Criatura, a exclusão e o abandono que ela própria conhecia. Foi também um grito de mulher em um mundo que não a ouvia.

Publicada anonimamente em 1818, a obra foi atribuída a Percy Shelley por muitos. Somente depois Mary seria reconhecida como autora. Essa revelação não apenas resgatou sua voz, mas redefiniu a própria ideia de autoria feminina no século 19. Sua coragem de imaginar o impossível e de questionar o poder masculino sobre a criação, seja da vida ou da arte fez dela uma precursora da ficção científica e uma das escritoras mais importantes da história.

Mas Mary Shelley não foi apenas a criadora de Frankenstein. Foi uma mulher que sobreviveu a tudo: à perda, à pobreza, à crítica e ao apagamento. Após a morte de Percy em 1822, viveu anos em luto, mas seguiu escrevendo. Em The Last Man (1826), previu um futuro devastado por pragas, solidão e tecnologia séculos antes de o gênero distópico existir. Seu olhar sobre a humanidade era ao mesmo tempo poético e profético.

Ao morrer em 1851, aos 53 anos, Mary deixou um legado que ecoa até hoje: a fusão entre emoção e intelecto, criação e destruição, corpo e mente. Em seu diário, escreveu: “Eu escrevo para dar forma ao caos do meu coração.” E o mundo ainda lê esse caos como espelho.

O filme que a reinventou: Mary Shelley (2017)

Dirigido pela cineasta saudita Haifaa al-Mansour e estrelado por Elle Fanning, Mary Shelley (2017) tenta decifrar o mito e a mulher por trás do livro. Não é um retrato biográfico rígido, mas uma interpretação visual, poética e melancólica de uma jovem que ousou desafiar o tempo. Haifaa, uma das primeiras diretoras mulheres da Arábia Saudita, enxergou em Mary não apenas a escritora, mas a metáfora da criação feminina — um tema que atravessa sua própria filmografia.

O filme acompanha Mary desde a adolescência, em sua relação conflituosa com o pai e o amor arrebatador por Percy Shelley (vivido por Douglas Booth). A produção acerta em capturar o espírito gótico e romântico da época, com figurinos delicados, atmosfera sombria e a angústia constante entre liberdade e repressão. Elle Fanning interpreta Mary com uma mistura de fragilidade e força, revelando a autora não como mártir, mas como criadora — alguém que enfrenta a própria sombra para escrever o que sente.

Embora receba críticas por suavizar aspectos históricos e reduzir personagens complexos, o filme tem mérito em algo essencial: devolver a Mary o protagonismo de sua própria criação. O nascimento de Frankenstein surge, na tela, como catarse de uma mulher que viu a morte de perto e transformou luto em arte. Não é à toa que a frase final — “A história de Mary Shelley é uma história de sobrevivência” — ecoa como um epitáfio e uma celebração.

Mary Shelley não é apenas uma biografia: é um tributo. É o olhar de uma mulher cineasta sobre outra mulher que ousou criar o inimaginável, e que continua nos lembrando que há algo de divino — e de monstruoso — em todo ato de criação.

O Coração do Monstro

Mais de dois séculos depois, Frankenstein continua pulsando. Cada nova leitura revela que a criatura é, na verdade, o espelho da criadora. Mary Shelley escreveu sobre a dor de um ser rejeitado, mas também sobre a coragem de uma mulher que, em plena era vitoriana, ousou criar o próprio destino.

A sua criatura viveu. E, como disse Byron — amigo, espelho e fantasma —, “o coração pode se partir, e ainda assim, partido, continuar a viver.” Mary Shelley é a prova viva disso.


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