Como publicado no Blog do Amaury Jr./ Splash UOL
Toda vez que Madama Butterfly volta aos palcos, temos a confirmação de que algumas histórias permanecem vivas não apenas pela música, mas pelo impacto emocional e cultural que carregam. A tragédia de Cio-Cio-San atravessa mais de um século como um espelho incômodo entre o Oriente idealizado e o Ocidente imperialista, é uma obra que nasceu de choques culturais, foi rejeitada na estreia e, ainda assim, se tornou uma das óperas mais encenadas do mundo. E talvez justamente por isso continue tão necessária. Agora, depois de onze anos de ausência, ela retorna ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro com a força de um clássico que nunca deixou de falar conosco.
Inspiração: a genealogia de uma tragédia moderna
A origem da ópera é, por si só, uma história fascinante. Antes de Puccini, Madame Butterfly já era um conto, publicado em 1898 pelo escritor americano John Luther Long, inspirado tanto no romance Madame Chrysanthème (1887), de Pierre Loti, quanto nos relatos da irmã, que vivera no Japão. Em 1900, a história migrou para o teatro nas mãos de David Belasco, cuja peça em um ato impressionou Puccini em Londres a ponto de ele decidir transformá-la em ópera.
A história seduziu o compositor por ser, ao mesmo tempo, íntima e grandiosa: uma mulher apaixonada, um homem estrangeiro, promessas que nunca foram iguais para ambos e a colisão entre duas culturas permeada de desejo, exotização e vulnerabilidade. Era perfeito para o lirismo cinematográfico que Puccini dominava com rara sensibilidade.
A história: amor, ilusão e imperialismo
Ambientada em Nagasaki no início do século 20, a ópera acompanha a jovem Cio-Cio-San, uma adolescente de quinze anos que renuncia à própria cultura para se casar com o tenente americano Pinkerton. Ele vê o casamento como um acordo temporário; ela, como um futuro eterno. É nesse abismo que Puccini constrói sua tragédia: quando Pinkerton vai embora, Butterfly permanece no Japão e espera por anos. Ela cria sozinha o filho que ele deixou sem saber. E, quando Pinkerton finalmente retorna, vem acompanhado da esposa americana, disposto a levar o filho para sua nova vida. A consequência é uma das cenas mais devastadoras da história da ópera: Butterfly opta pela morte, preservando sua honra onde tudo já havia sido arrancado dela.
Musicalmente, Madama Butterfly é tão devastadora quanto sua narrativa. “Un bel dì, vedremo” continua sendo uma das árias mais dolorosas já escritas, porque não é apenas esperança; é esperança cega — e sabemos exatamente para onde ela conduz.

Bastidores: o fracasso, a revisão e a consagração
A estreia em 1904 no Teatro alla Scala foi um desastre histórico. A plateia vaiou, o segundo ato parecia longo demais, e a atmosfera xenófoba da época contribuiu para o fiasco. Puccini voltou para casa humilhado, mas determinado. Reescreveu a ópera, ajustou ritmos, aprofundou atmosferas e, três meses depois, apresentou a nova versão em Brescia. Aí nasceu o clássico que hoje conhecemos.
Depois disso, Madama Butterfly se tornou um fenômeno. Atravessou oceanos, conquistou plateias e virou símbolo de um tipo específico de melodrama lírico que só Puccini sabia construir — íntimo, cinematográfico, arrebatador.
Butterfly no cinema, no palco e na cultura
O sucesso é tão definitivo que a ópera inspirou adaptações que vão do cinema direto (Madame Butterfly, de 1954) às leituras críticas, como M. Butterfly, de David Henry Hwang, transformada em filme por David Cronenberg e estrelada por Jeremy Irons. A adaptação mais popular, no entanto, foi a versão musical para a Broadway: Miss Saigon, fenômeno global dos anos 1990, que transportou o enredo para o Vietnã.
Sim, é uma história que segue alimentando debates contemporâneos sobre orientalismo, representação feminina e relações coloniais.
As grandes intérpretes e a construção de um mito
Poucos papéis no repertório operístico são tão exigentes quanto Cio-Cio-San. Não é apenas voz: demanda vulnerabilidade, resistência e uma presença cênica que quase nunca deixa o palco. Entre as sopranos lendárias, algumas definiram a personagem para gerações — Tamaki Miura, pioneira na década de 1910; Renata Scotto, talvez a mais celebrada do século 20; e Renata Tebaldi, muitas vezes chamada de “a Butterfly perfeita”.
Mas a verdade é que não existe uma versão definitiva. Cada soprano acrescentou algo ao papel, e é por isso que ele continua sendo um dos mais cobiçados do repertório.
Montagens no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
O Brasil sempre recebeu Puccini com entusiasmo, e Madama Butterfly ganhou longa vida no repertório nacional. No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a ópera estreou em 1912 e, segundo registros de 2014, já somava 133 récitas, sendo a terceira mais encenada da história do teatro.
Ela retorna agora com o peso da saudade e a promessa de um reencontro à altura. A partir de 21 de novembro, Madama Butterfly reassume o palco do Municipal em uma produção ambientada nos anos 1950, com cenografia de Renato Theobaldo, figurinos de Marcelo Marques e iluminação de Ángel Ancona. A direção cênica é do colombiano Pedro Salazar — um nome forte da ópera latino-americana — e a regência do maestro italiano Alessandro Sangiorgi, com carreira internacional em Israel, Japão, Bulgária, Sérvia, Rússia, República Tcheca e diversas casas brasileiras.
O elenco reúne grandes vozes, com Eiko Senda e Daniela Tabernig no papel-título. A Orquestra Sinfônica e o Coro do Theatro Municipal completam essa montagem que dialoga com tradição e contemporaneidade.

Por que Madama Butterfly continua relevante
A cada nova montagem, a ópera é reinterpretada. Algumas encenações enfatizam o contexto imperialista; outras abordam o orientalismo intrínseco à obra; muitas buscam resgatar a dignidade de Butterfly sem torná-la um estereótipo.
O que permanece é a força emocional. Madama Butterfly fala sobre fé ingênua, amor desigual, a crueldade das promessas vazias e o peso das estruturas de poder que moldam nossos destinos. Por isso, quando as luzes baixam e ouvimos os primeiros acordes, não importa quantas vezes já vimos a história — ela sempre nos atinge como se fosse a primeira.
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