Embora esteja afastada das telas há muitos anos, é de dar susto lembrar que hoje, 21 de novembro de 2025, Goldie Hawn completa 80 anos de vida.

Nascida em Washington, D.C., ela completa oito décadas com o mesmo brilho contagiante dos tempos que surgih na TV Americana, mas com a profundidade de quem viveu intensamente cada curva da própria história. Goldie construiu uma carreira tecida com humor físico, vulnerabilidade emocional e disciplina de bailarina clássica, a combinação que a transformou não apenas numa estrela, mas num modo de existir no mundo.
Filha de uma dona de joalheria e escola de dança, e de um músico e maestro (descendente de um signatário da Declaração de Independência), Goldie cresceu entre partituras e espelhos, dividindo a infância entre raízes judaicas e protestantes, numa casa em Takoma Park, Maryland.
Começou a dançar aos três anos, e aos dez já estava no elenco de O Quebra-Nozes do Ballets Russes de Monte Carlo. Antes de Hollywood, fez Shakespeare no teatro, administrou escola de balé, foi dançarina de Can-Can na Feira Mundial de Nova York e go-go dancer em Nova York. A imagem solar que o mundo conheceria mais tarde nasceu de uma formação rigorosa, e desde cedo ela aprendeu que o corpo podia ser a forma mais eloquente de expressão.

Sua primeira grande virada pública veio com a televisão. Em Good Morning World, interpretou a namorada “loira burra” de um locutor de rádio, mas foi em Rowan & Martin’s Laugh-In que explodiu: gargalhadas agudas, corpo pintado, bikini, irreverência e um timing que desconcertava. Ela surgiu justamente no momento em que mulheres queimavam sutiãs nas ruas, e muitos viram sua persona como um retrocesso. Goldie rebateu com uma lucidez silenciosa: sabia que era independente, inteligente, financeiramente segura, e que encenava a “dumb blonde” como máscara crítica, não submissão. Essa ambiguidade a transformou em ícone e abriu caminho para o cinema.

Em Cactus Flower (1969), sua primeira grande atuação no cinema, ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante. A partir dali, consolidou-se como rosto essencial da comédia americana ao longo dos anos 1970 e 1980, em filmes como There’s a Girl in My Soup, Butterflies Are Free, Shampoo, Foul Play, Seems Like Old Times e The Sugarland Express, de Steven Spielberg. Em 1972, lançou até um disco, Goldie, produzido com a ajuda de Dolly Parton e Buck Owens, outra prova de que, por trás da aparência de leveza, havia uma artista sempre curiosa.
Nos anos 1980, Goldie deu um passo decisivo ao assumir controle criativo como produtora. Com Private Benjamin (1980), interpretou e coproduziu a história de uma mulher rica e ingênua que entra para o Exército e descobre força própria onde ninguém imaginava. A atuação rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz e estabeleceu um tipo de personagem muito associado a ela: a mulher subestimada que surpreende, desafia e vence.
O sucesso continuou com Protocol, Wildcats, Overboard, Bird on a Wire, Housesitter, Death Becomes Her e The First Wives Club, todas obras em que Goldie manteve protagonismo, charme, carisma e a rara capacidade de unir vulnerabilidade emocional e timing cômico com precisão. Ela envelheceu em cena sem ser apagada, e isso, em Hollywood, é quase um ato de rebeldia.
Após um intervalo para cuidar da mãe, voltou nos anos 1990 e início dos 2000, estrelando comédias, fazendo direção, produzindo, e mantendo seu nome entre os mais queridos de sua geração. Em 2017, depois de quinze anos longe das telas, retornou com Snatched, e em 2018 e 2020 encantou um novo público como Mamãe Noel em The Christmas Chronicles.

A vida pessoal de Goldie é um capítulo à parte do mito. Casou-se duas vezes, viveu romances importantes, teve três filhos — Oliver e Kate Hudson, e Wyatt Russell, encontrando em Kurt Russell não apenas um parceiro, mas um pacto de liberdade, humor e cumplicidade que dura mais de quarenta anos. Eles se conheceram ainda jovens, reencontraram-se em Swing Shift, e, desde 1983, vivem juntos sem nunca terem se casado. Goldie sempre disse que, se tivesse oficializado, “já estaria divorciada há muito tempo”. Para ela, amor não se cimenta com papel, e sim com escolha diária.
Nas capas da PEOPLE, que atravessam sua história desde 1976, vemos essa filosofia se repetindo. Grávida de Oliver, ela falava sobre querer estabilidade e o pai certo. No mesmo ano, denunciava o machismo dos estúdios. Em 1978, dizia que não criaria filhos em Beverly Hills por causa dos “valores distorcidos”. Em 1990, reafirmava o amor por Kurt: “Tenho o melhor cara do mundo”. Em 2017, revelava que a vontade de atuar simplesmente “voltou”. E em 2020, ao lado de Kate e da neta Rani Rose, discutia educação, adolescência, limites e a necessidade de aprender com os filhos. Sempre franca, sempre sem filtros.
E, claro, há o tema que se tornou quase um mantra Goldie: sexo. Ela nunca tratou desejo como tabu. Contou que, quando Kate era jovem, fez questão de explicar, no carro: “A mamãe não é pudica. Eu amo sexo.” E complementou, com honestidade tranquila: “Sexo é divertido, mas é melhor com uma pessoa só.” Essa naturalidade diz muito sobre quem ela é: uma mulher que sempre recusou a ideia de que envelhecer exige apagar vitalidades.

Nos últimos vinte anos, Goldie se aproximou de uma vida espiritual e filantrópica mais intensa. Estudiosa de meditação — ela se define como meio “Jewish, meio Buddhist” —, fundou em 2003 a Hawn Foundation, criadora do programa MindUP, que promove educação emocional e bem-estar para crianças em escolas públicas, especialmente em contextos vulneráveis. Também defende abertamente direitos LGBTQIA+ e se posiciona contra leis que criminalizam pessoas por sua orientação sexual.
Ao completar 80 anos, Goldie Hawn encarna um tipo de ícone raro: ela não é apenas memória, ela é presença. Continua sendo referência de graça, autonomia, humor e independência feminina. Continua a falar de amor com lucidez, de sexo sem pudor, de envelhecimento sem medo, de saúde mental com responsabilidade. Continua a ser uma mulher que entende que leveza não é superficialidade — é escolha. E que alegria é uma forma de inteligência, talvez a mais difícil de todas.
Seu legado é uma soma de muitas vidas: a bailarina disciplinada, a comediante explosiva, a atriz premiada, a produtora visionária, a mãe amorosa, a parceira livre, a avó carinhosa, a ativista, a meditadora, a mulher que nunca deixou o mundo lhe roubar o riso.
Aos 80, Goldie Hawn nos devolve uma fórmula que parece simples, mas exige coragem diária: família, diversão, risos, sexo — e a recusa teimosa em desistir da própria luz.
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