Entre irmãos e fantasmas: O Redimido encerra a saga de Billy the Kid (Recap do final da série)

É uma verdade universal e secular que encerrar uma série é sempre um desafio. Em geral, seja pela saudade antecipada ou pelas expectativas exageradas, com raras exceções como Succession, a despedida costuma despertar algum nível de frustração. No caso de Billy the Kid, que se baseia em uma história real, não era como se houvesse grandes surpresas possíveis — mas, desde que Michael Hirst decidiu apostar na lenda urbana de que Billy não foi morto por Pat Garrett e teria sobrevivido anônimo por longos anos, muitas pontas ficaram soltas. Ainda mais porque essa decisão veio dois episódios antes do final.

Uma das “liberdades” criativas acabou se tornando uma armadilha mais previsível do que a própria “morte de Billy”: de anti-herói sensível, o pistoleiro se transformou em um cruel assassino vingador, sempre ao lado de seu amigo de juventude, Jesse Evans. No episódio 7, vimos a dupla caçar e finalmente matar Garrett, alterando significativamente datas e fatos do que “realmente” aconteceu — o ex-xerife foi de fato assassinado, mas muitos anos depois. Com ele fora do caminho, restava o grande vilão da série: o governador do Novo México, Thomas Catron.

Jesse, que considera Billy como um irmão, topa tudo ao seu lado — exceto a missão suicida de eliminar o político corrupto. Assim, o episódio começa com Billy the Kid sozinho, tentando decifrar como cumprir sua última missão. E ele tem motivos duplos para insistir: foi Catron quem colocou um valor astronômico por sua captura ou morte (atualmente 75 mil dólares) e foi ele quem matou Ash Upson, o jornalista que exporia seus crimes na primeira temporada. Mas, sem Jesse, Billy precisa de ajuda para se aproximar de Catron.

Sem nenhuma surpresa — ainda que seja uma virada importante da temporada final — esse apoio surge, tortuosamente, via a única pessoa que Catron ama: sua filha, Emily. Ela amarga a saudade e a certeza — confirmada por Garrett — de que o pai não apenas foi o mandante do “suicídio” de seu marido como poderia tê-lo matado pessoalmente. Mesmo assim, Emily mantém a fachada de boa filha enquanto aguarda a melhor oportunidade de ter sua própria vingança. Ela sabe atirar, mas não é uma assassina. Quando Billy aparece, ela o recebe em segredo e fecha um pacto com ele.

É uma pena que a amizade improvável entre os dois tenha durado apenas um episódio, porque existe ali uma calma e um alinhamento entre duas vítimas da sociedade que teria espaço para ser explorado. Billy segue trabalhando sozinho até que — do nada, e em silêncio — Jesse reaparece.

A química entre Tom Blyth e Daniel Webber sustenta um episódio de poucos diálogos e muita experiência compartilhada. Foi com Jesse que Billy encontrou sua sobrevivência e sua primeira família adotiva, quando a verdadeira sucumbiu ao Velho Oeste — e vice-versa. Eles são irmãos de alma, algo que Jesse, emocionado, relembra quando confessa que, nessa viagem, reavaliou o ódio que nutria pelo pai, o homem que culpava pela vida de crimes e fugas que levou. Billy e Jesse mal têm vinte e poucos anos, mas carregam como se fossem cinquenta. Estão cansados, vividos, e querem mudar. As perdas que sofreram os colocam na determinação de amarrar as pontas soltas — e só resta uma: matar Catron.

O restante do episódio, com grandes cenas de ação e tiroteios impecavelmente coreografados, reforça o que venho dizendo há anos: Billy the Kid é uma grande série que passou despercebida pelo grande público.

Billy e Jesse tentam alcançar Catron, que viaja pelo estado em campanha, esperando que ela o leve à presidência dos Estados Unidos. Emily ajuda compartilhando o itinerário do pai e, quando tudo está perfeitamente alinhado, Jesse acaba sendo Jesse: por algumas horas com uma prostituta, ignora a recomendação de Billy de não se expor e ser reconhecido. Os dois precisam fugir após serem descobertos — outra cena de ação incrível — e Billy nem precisa cobrar o erro. Eles sequer trocam palavras, porque entendem que Jesse encara essa missão como sua última.

Resta apenas atacarem Catron em Albuquerque, para o que precisam da ajuda de Emily uma última vez. Ela aceita cumprir o desejo do pai, que a quer no palanque para enaltecê-lo e reforçar sua campanha, o que garante que ele não cancelará nenhum comício. Será a última chance da dupla, mas eles sabem que estão sendo esperados — dificilmente sairão vivos.

A sequência é tensa e brilhante: Emily percebe a movimentação dos aliados, trai o pai sem remorso, sem uma palavra, praticamente sem um único olhar. Billy mata Catron (um fato fictício, já que o governador não morreu assim) e, na fuga, Jesse é mortalmente ferido. Billy se arrisca tentando resgatá-lo, mas é ali que vem a despedida: Jesse quer encerrar o ciclo, e Billy só terá chance de sobreviver se o amigo o cobrir — uma última vez. E é o que acontece. Jesse se sacrifica e Billy escapa. Jesse é o redimido do título.

Dulcinéia vê o marido chegar e os dois se abraçam: acabou, estão livres. Com a filha no colo, Billy faz planos de partir. Ele agora não será mais Billy, mas William e, com a mulher e a filha, seguirá para viver no México. Vemos os três caminhando rumo ao sol, encerrando uma longa e triste jornada de dor e morte com esperança de recomeço, paz e amor.

Foi um fim romântico, belo, mas amargo, porque a jornada de Billy o endureceu e o deixou sem as pessoas que o ajudaram a chegar até ali. Hirst conseguiu contar uma bela história, sustentada por grandes atuações de seu jovem elenco. Sua próxima parada é retornar ao universo viking, mas valeu cada bala no Velho Oeste. Foi uma linda revisão da lenda de Billy the Kid.


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