Existe uma delicadeza quase invisível na forma como os gêmeos Bryce e Aaron Dessner se afastaram — sem jamais se perder — do eixo central do The National. Depois de duas décadas definindo o que significou sentir melancolia de maneira adulta, irônica e profundamente humana, os irmãos encontraram horizontes tão amplos que até a banda, hoje, parece existir em outro ritmo. Nada acabou; nada se desfez. Apenas se transformou.
O The National respira mais devagar, em intervalos longos, enquanto o trio principal — Bryce, Aaron e Matt Berninger — se move em direções paralelas, como se precisassem explorar mundos inteiros antes de voltar a se encontrar.

Ver Bryce e Aaron trabalhando em projetos separados é compreender uma verdade simples: há fios que não se rompem. Mesmo quando um está no sul da França e o outro vive entre Nova York e Long Pond, mesmo quando um mergulha na orquestra e o outro redefine o pop, mesmo quando as carreiras parecem apontar para pontos opostos, a música dos dois continua se encontrando no meio do caminho — como se uma espécie de gravidade fraterna sempre os puxasse de volta um ao outro.
A colaboração como idioma nativo
Eles compartilham mais do que uma banda: compartilharam o mesmo quarto até os 18 anos. Cresceram compondo sem saber compor, improvisando sem saber que improvisavam. E até hoje repetem a mesma constatação: “Quando um não está, falta alguma coisa.”
Essa sintonia moldou tudo o que fizeram.
O selo Brassland, criado com amigos, nasceu dessa filosofia: portas abertas, comunidade, mistura. O grupo Clogs, liderado por Bryce, se tornou um núcleo criativo que atravessou os primeiros discos da banda. Depois veio o coletivo PEOPLE (37d03d), criado com Justin Vernon, que transformou residências artísticas em laboratórios vivos.
O saldo dessa vocação colaborativa? Uma constelação de músicos orbitando suas vidas: Anaïs Mitchell, Sharon Van Etten, Robin Pecknold, Lisa Hannigan, Ben Howard, Taylor Swift — além das dezenas de artistas que formam o universo sempre mutável do Big Red Machine.

Aaron Dessner e a arquitetura emocional do pop contemporâneo
Aaron sempre carregou um arquiteto dentro de si. Ele desenhava a ossatura harmônica das músicas do The National, construindo paisagens sonoras com paciência, repetição e camadas de silêncio. Era natural que esse instinto migrasse para outras vozes.
Quando Aaron começou a produzir outros artistas, a vocação ficou evidente. Sua parceria com Taylor Swift foi mais que colaboração: foi um alinhamento histórico. Folklore e Evermore não apenas mudaram a trajetória de Taylor — redesenharam a música pop. Mostraram que intimidade pode ser monumental, que sussurros podem carregar mundos, que a melancolia, quando lapidada, vira força.
A partir daí, Aaron se tornou um eixo gravitacional para artistas que buscam verdade. Long Pond virou quase um templo musical. Ed Sheeran, Gracie Abrams, Sharon Van Etten, nomes gigantes e estreantes passaram a buscá-lo por sua capacidade rara de escutar antes de qualquer gesto grandioso. Em 2025, Aaron se consolida como um dos produtores definidores da década: alguém que devolve humanidade ao som, que cria música que respira. Há algo profundamente bonito em vê-lo encontrar essa missão íntima longe do palco do The National — fazer com que o mundo soe mais honesto.
Bryce Dessner e a inquietação que se transforma em paisagem
Se Aaron é arquitetura, Bryce é movimento. No palco, ele curva o corpo, quase dança, se lança sobre as notas com a energia de quem nunca aceitou ficar parado. Era inevitável que essa inquietação transbordasse para além da banda.
Bryce se tornou um dos nomes mais requisitados da música clássica contemporânea. Suas obras percorrem orquestras, festivais, museus. Ele compõe como quem olha o mundo por dentro, com sensibilidade feroz. Colaborações com o Kronos Quartet, com a Los Angeles Philharmonic, com orquestras europeias e diretores de cinema mostram como sua voz encontrou um espaço próprio — amplo, sofisticado, instintivo.
Mas foi no cinema que essa estética encontrou um lar.

Bryce compõe trilhas como quem escreve atmosferas. Ele não ilustra: ele respira. Sua música dobra a narrativa, expande silêncios, acende gestos. The Revenant o colocou ao lado de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto; The Two Popes revelou sua espiritualidade; C’mon, C’mon e Cyrano mostraram sua elasticidade; She Came to Me consolidou sua identidade; e We Live in Time, em 2024, firmou seu estilo imediatamente reconhecível.
Em 2025, Train Dreams representa talvez sua fase mais madura. A trilha — delicada, sensorial, guiada pelo não-dito — confirma que ele é um dos compositores mais importantes do cinema contemporâneo. Sua música carrega vento, memória e uma ternura que nunca se oferece por completo. Ele não acompanha as imagens. Ele as transforma.
O The National como casa ancestral
A banda nunca acabou. Apenas entendeu que, para continuar existindo, precisava permitir que seus integrantes se expandissem. É comovente pensar assim: enquanto Aaron redefine o coração da música pop intimista e Bryce redesenha os contornos emocionais da música clássica e do cinema, o The National se torna uma espécie de casa ancestral — um lugar para onde todos podem voltar mais completos, mais amplos, mais inteiros.
O pós-National dos irmãos Dessner não é sobre separação, mas sobre desdobramento. Aaron segue com seu ouvido que transforma intimidade em arquitetura. Bryce, com sua inquietação que transforma silêncio em paisagem. E é exatamente essa expansão que torna ainda mais poderosa a imagem dos dois no palco, lado a lado, um com sua guitarra sólida, o outro com a semiacústica — reencontrando-se não apesar de seus caminhos individuais, mas por causa deles.

A banda é construída sobre duas duplas de irmãos — Dessner e Devendorf — e talvez seja por isso que nunca implodiu. Enquanto tantos grupos se partiram, o The National sempre funcionou de portas abertas: amigos, colaboradores, improvisos, participações.
E agora, em 2025, depois de trajetórias paralelas tão ricas, os dois falam em algo surpreendentemente simples: voltar ao rock alto, direto e primal. Voltar às canções que “apenas funcionam”, sem explicação.
Como se tudo o que aprenderam — a orquestra, a produção, as trilhas, os musicais — pudesse finalmente ser devolvido à banda que os formou.
No fim, Bryce e Aaron são isso: uma dupla que expande o mundo da música para depois devolvê-lo ao The National, onde tudo começou. Dois artistas inteiros — mas ainda melhores quando juntos.
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