Goonies 40 anos: como o clássico molda o final de Stranger Things

A partir desta semana, 2025 será tomado por um daqueles fenômenos culturais que definem época: a despedida de Stranger Things. A série que estreou em 2016 carregando o rótulo de “o novo Goonies” agora encerra seu ciclo justamente no ano em que Os Goonies completa 40 anos. Coincidência? Talvez. Mas, dentro do imaginário pop, parece mais um gesto involuntário de harmonia: a obra que inspirou toda uma nova onda de nostalgia encontra, no seu aniversário mais emblemático, o fim épico da série que herdou seu espírito.

A conexão entre Os Goonies e Stranger Things não é só estética — é emocional. As duas bebem da mesma fonte, o cinema de aventura dos anos 1980, onde grupos de crianças e adolescentes enfrentavam perigos colossais enquanto ainda lidavam com bicicletas, horário da escola e pais distraídos. Os Duffer, criadores de Stranger Things, nunca esconderam que The Goonies foi uma referência direta da primeira temporada — e dá para sentir isso em cada túnel, cada lanterna tremida e cada conversa sussurrada entre amigos.

Curiosamente — ou não — o adeus de Stranger Things acontece no mesmo momento em que Os Goonies celebra quatro décadas de vida. E o que se viu, em junho, foi o elenco original revisitando o passado como se fosse ontem. Mikey, Data, Mouth, Chunk… nomes que hoje pertencem tanto à cultura pop quanto aos próprios atores. O tempo passou, claro, mas a frase mais icônica do filme — “Goonies never say die” — virou quase um pacto entre fãs, elenco, Hollywood e todo mundo que cresceu acreditando em mapas, piratas e possibilidades infinitas.

Quando o elenco celebrou os 40 anos publicamente, não parecia apenas um tributo nostálgico. Parecia um reconhecimento do quanto aquela aventura pequena, suburbana e improvável marcou gerações porque acreditava profundamente em nós — na nossa amizade, na nossa coragem, no nosso medo, nos nossos limites ainda maleáveis. Era um filme que confiava na criança que assistia, e talvez por isso permaneça tão íntimo, tão vivo.

Os Goonies nasceu como um projeto Amblin clássico. Lançado em 1985, dirigido por Richard Donner e escrito por Chris Columbus a partir de uma história de Steven Spielberg, o filme parecia “infantil” na superfície, mas se tornou um dos pilares do cinema de aventura moderno. O elenco, hoje mitológico, trazia um jovem Sean Astin como Mikey; o estreante Josh Brolin; o inesquecível Jeff Cohen; além de Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton e Ke Huy Quan — que voltaria ao centro de Hollywood décadas depois, com um Oscar nas mãos.

A história, simples e universal, começa em Astoria, Oregon, onde um grupo de crianças descobre um mapa do tesouro do pirata Willy Caolho e decide tentar salvar suas casas de uma desapropriação. A aventura que se segue — túneis, armadilhas, esqueletos, coragem improvisada — é puro espírito Amblin: perigo real embalado por calor humano, humor e lealdade. O filme se desenrola como a matinê perfeita, culminando no navio pirata escondido na caverna, talvez uma das imagens mais icônicas da década.

Os vilões, os Fratelli, são tão burlescos quanto ameaçadores. Chunk vive seu arco mais doce ao lado de Sloth. Andy, Stef e Brand completam a dinâmica do grupo. E no final, quando Rosalita descobre as joias no saquinho de bolinhas de gude de Mikey, não é só a casa dos Walsh que se salva — é a própria infância deles.

O filme arrecadou quase US$ 70 milhões em seu lançamento inicial e virou cult instantâneo. Em 2017, entrou para o National Film Registry como obra “cultural, histórica ou esteticamente significativa”. E, em fevereiro de 2025, finalmente veio a notícia que os fãs esperavam há décadas: a sequência está oficialmente em desenvolvimento, com Spielberg, Chris Columbus e Potsy Ponciroli envolvidos.

E é justamente aqui que a ponte para Stranger Things fica ainda mais clara.

Nos dois universos, temos um grupo de crianças que funciona como uma pequena tropa de resistência. Em Os Goonies, a missão é salvar o bairro. Em Stranger Things, a batalha é contra um monstro — ou vários. Mas a lógica é a mesma: ninguém vence sozinho. Mike Wheeler é, de certa forma, um eco moderno de Mikey Walsh: o líder que improvisa, falha, tenta de novo, insiste porque acredita que a amizade tem um poder que os adultos já esqueceram.

As passagens subterrâneas de Stranger Things dialogam com as cavernas dos Goonies. As cidades pequenas anunciam que algo impossível pode acontecer. O clima dos anos 80 não é cenário — é afeto. É memória. E há ainda o elo mais explícito de todos: Sean Astin. O Mikey de 1985 ressurge, na segunda temporada de Stranger Things, como Bob Newby, o homem bom demais para Hawkins. A escalação é um gesto de carinho. A referência ao mapa e ao monstro é um aceno direto. E quando Bob aparece em cena, a série inteira parece admitir: “nós existimos porque Os Goonies existiu antes”.

No fim, as duas obras dialogam porque compartilham o mesmo coração: histórias sobre amizade, lealdade e medo, contadas pela perspectiva de quem está descobrindo o mundo — e, por isso mesmo, é capaz de enfrentá-lo com uma coragem que a vida adulta tenta apagar.

E talvez seja por isso que, quarenta anos depois, Os Goonies permanece. Ele não disse adeus. Ele nunca diria. Afinal, Goonies never say die.


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