Hollywood sempre precisou reinventar seus homens de ação, mas uma coisa nunca mudou: a necessidade de amaciar músculos com humor. Desde os anos 80 e 90, existe o impulso quase automático de humanizar o fortão, transformá-lo no “gigante gentil” que tropeça, ri, erra e, no fim, abraça crianças. Foi assim quando Arnold Schwarzenegger, símbolo máximo do hiper-macho, foi colocado para cuidar de uma turma de jardim de infância ou engravidar. Depois, Vin Diesel deixou os carros turbinados de Velozes e Furiosos para virar babá. A sequência continuou com Dwayne Johnson, que praticamente construiu uma carreira inteira em cima do contraste entre seu físico colossal e uma sensibilidade inesperada. E John Cena, com seu humor autodepreciativo, encontrou rapidamente seu nicho como o brutamonte doce e leal que tenta entender sentimentos enquanto quebra paredes.


Agora, a era do streaming retoma essa tradição e coloca seus novos gigantes nessa mesma moldura. Mark Wahlberg, veterano nessa categoria híbrida, permanece absolutamente confortável no papel. Já Alan Ritchson, vindo do sucesso estrondoso de Reacher, estreia oficialmente nesse território onde músculos encontram comédia familiar. É nesse ponto que The Family Plan (1 e 2) e Playdate se tocam. Não pelas tramas — que não poderiam ser mais diferentes — mas por funcionarem como veículos para moldar e reforçar a persona contemporânea do pai fortão, leal, emocionalmente disponível e sempre pronto para salvar a família e, se der tempo, o mundo.
Mark Wahlberg e o pai letal em crise de normalidade
Em The Family Plan e agora na continuação, Wahlberg interpreta a versão moderna do clássico homem perigoso que sonha em viver em paz. O personagem carrega o peso de um passado letal, seja como assassino, agente secreto ou qualquer profissão hollywoodiana que exige matar silenciosamente, e tenta performar a normalidade doméstica com toda a dedicação possível. A graça está justamente nessa tentativa de se encaixar.
Wahlberg é fisicamente capaz de tudo — brigar, correr, enfrentar qualquer ameaça — mas emocionalmente tropeça na vontade sincera de ser um pai presente, um marido amoroso e um turista empenhado em registrar férias perfeitas. Quando a sombra do passado, agora personificada por Kit Harington, retorna na época mais festiva do ano, tudo desanda com previsibilidade deliciosa. De repente, mercados natalinos se transformam em campos de batalha, avenidas históricas viram pistas de fuga, e a família que só queria descansar é arrastada para um turbilhão de caos embalado por clima de feriado. Wahlberg continua sendo o “superpai emocional”, aquele que tenta evitar a violência, mas que inevitavelmente volta a ela para proteger quem ama.

Alan Ritchson e o início oficial da era “Reacher doméstico”
Já Alan Ritchson chega a Playdate carregando a aura quase mítica que Reacher lhe deu. Sua simples presença física já comunica competência extrema, força bruta e uma espécie de letalidade tranquila. É o tipo de ator que não precisa fazer muito para parecer capaz de vencer dez oponentes com uma sacudida de ombro. E é exatamente esse corpo narrativo que o filme utiliza — e subverte.
Diferentemente de Wahlberg, Ritchson não é o protagonista. Ele é o pai perfeito demais, silenciosamente eficiente demais, sempre pronto para qualquer situação com reflexos impecáveis. Ao lado de Kevin James, que interpreta o homem comum em sua forma mais pura, Ritchson vira uma espécie de paródia viva do ideal do “pai impecável”, quase como se fosse um Reacher infiltrado em um encontro de pais. O contraste entre os dois é a alma do filme. Enquanto Brian tropeça, cai, se desespera e luta para sobreviver a uma situação completamente fora de controle, Jeff se movimenta com precisão quase profissional, como se estivesse sempre dois passos à frente. A comédia nasce justamente da suspeita crescente de que aquele pai musculoso, gentil e silencioso é simplesmente bom demais para ser verdade. Sob a direção de Luke Greenfield, Playdate transforma a normalidade suburbana em palco para uma ação exagerada e absurda, onde minivans, cercas brancas e sucos de caixinha ganham vida em um espetáculo de caos cuidadosamente orquestrado.

A persona do herói de ação domesticado
Embora The Family Plan 2 e Playdate existam em universos completamente diferentes — um abraçando o sentimentalismo natalino, o outro apostando na sátira suburbana — os dois compartilham o mesmo DNA cultural. Wahlberg e Ritchson, cada um à sua maneira, incorporam esse arquétipo contemporâneo.
No fim, Playdate e The Family Plan 2 compartilham uma função específica na indústria: servir como ferramentas de construção de persona para seus protagonistas. A comédia vira atalho para humanizar músculos. A paternidade, por sua vez, se torna metáfora para responsabilidade, vulnerabilidade e heroísmo.
Hollywood continua contando a mesma história há décadas, apenas muda os rostos e o cenário. A fantasia é a mesma, só a embalagem mudou. E sim, deixa a desejar em ambos casos.
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