Stranger Things: quando a despedida é maior que o monstro

Se Stranger Things tivesse nascido na HBO, como os irmãos Duffer sonharam no começo, a história da televisão talvez tivesse sido outra. Mas foi na Netflix que a série não apenas encontrou abrigo, ela transformou a própria plataforma em estúdio, canal, potência industrial e, por muito tempo, em sinônimo de sucesso global. Mudou, para sempre, a forma como vemos TV e cinema. Mas isso é outra história.

Apostar em nostalgia oitentista, crianças em bicicletas, monstros gosmentos e ciência distorcida foi um gesto ousado e profundamente autêntico. Os Duffers apostaram no universo que conheciam e amavam. A ironia é deliciosa: a grande referência deles sempre foi o universo perverso de Stephen King, especialmente It, hoje novamente no centro da cultura pop com Welcome to Derry. Mas os Duffers não eram uma marca. Foram recusados. Assim como a proposta que misturava infância, telepatia, monstros, culpa e essa noção tão kingiana de que o terror verdadeiro nasce quase sempre dentro de casa.

Muita gente correu para comparar Stranger Things a Os Goonies. Poucos viram It de imediato. Mas o que a série comprova, desde 2016, é a diferença entre inspiração e cópia. Hawkins é infinitamente mais complexa do que qualquer rótulo permitiria. E, sobretudo, muito mais original.

Quando a série estourou, eu resisti. Não gosto de gore, monstros, cientistas cruéis. Não sou fã de King, nem de Shyamalan. A explicação fantasiosa para horrores muito reais sempre me incomodou. O curioso é que eu estava completamente imersa em white walkers e dragões de Game of Thrones — ou seja, incoerente como todo mundo. Fui a Hawkins com reservas. E, contra tudo, me apaixonei.

Talvez porque eu tenha vivido exatamente aqueles anos — 1983, 1987. Fiz intercâmbio, experimentei a rotina de uma cidade pequena nos Estados Unidos. A nostalgia da série é quase irresistível: trilhas, figurinos, a textura da luz, o ritmo das tardes. Curiosamente, a história em si sempre me interessou menos. Acho a vilania de Vecna inconsequente, perversa no objetivo, quase automática. Já disse e repito: detesto nojeira. E a série se esmera em desfilar monstros gosmentos como se isso fosse virtude. Mas o quarteto de amigos é imbatível. O amadurecimento forçado pelo trauma, pela sobrevivência, pela perda — para mim, esse é o coração da série.

Com os anos, Stranger Things virou fenômeno industrial: peças, musicais, livros, produtos, eventos. Não vou acompanhar nem metade. O elenco cresceu diante dos nossos olhos — alguns já são adultos, outros já são pais — e era necessário concluir logo a história. Não é mais crível fingir que ainda têm 14 anos. E é aqui que a Netflix tropeça no próprio dogma: o binge como fórmula absoluta. A despedida vem fatiada, muito anunciada, muito aguardada. O lado bom? A expectativa não é frustrada. O médio? Ver apenas metade gera uma sensação estranha de suspensão, de interrupção emocional.

Recaps se multiplicam, listas de “o que lembrar” pipocam por todos os lados, mas nada é suficiente para reorganizar completamente o emaranhado que a série virou. São pontas soltas demais, personagens demais — e isso gera distanciamento. Por que escolher Holly como alvo de Vecna? Se não querem matar protagonistas, por que condenar Max à cegueira e ao coma? Isso já não é drama: é sadismo. Hopper vai morrer de vez? Joyce agora faz o quê? E que desperdício não usar Winona Ryder com maior peso dramático. Triângulos amorosos, brigas, ruídos… tudo isso gira em torno de um fio de história bastante simples: Vecna quer impor seu mundo de dor ao nosso. Confesso: isso me dá sono.

Mas há trajetórias belíssimas sendo costuradas. Will Byers começou como ausência, como ferida. Voltou traumatizado, cresceu em silêncio, confuso em sua identidade. Agora revela poderes semelhantes aos de Onze — e tudo aponta para ele como herói trágico. Isso é, de fato, interessante. Steve, que nasceu vilão e se transformou no personagem mais generoso da série, completa um dos arcos mais bonitos da televisão recente. E Dustin, muitas vezes subestimado, talvez seja o mais sensível e inteligente do grupo.

No fim, sobra a pergunta inevitável: Stranger Things está à altura do próprio hype? Sim, está. E essa despedida tem todas as chances de ser grandiosa.

Aprendeu, HBO?


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