Depois da Caçada: Julia Roberts no seu papel mais complexo em anos

Eu resisti a assistir Depois da Caçada (After the Hunt), de Luca Guadagnino. Primeiro porque as críticas foram mornas, quando não duras. Depois porque o tema — abuso, cancelamento, academia, choque de gerações — vinha carregado demais de ruídos da vida real. Mas aqui estou, rendida a um filme extremamente interessante e necessário, justamente por não oferecer conforto algum.

Cada espectador pode sair agarrado a um eixo diferente: há quem veja um estudo sobre cancelamento, outros sobre feminismo, outros sobre política acadêmica, outros sobre abuso de poder, gerações em colisão, vaidade intelectual, hipocrisia institucional. Tudo isso está lá. Mas, para mim, Depois da Caçada é, acima de tudo, uma história direta e desconfortável sobre o peso do perdão, da expectativa, da verdade e da culpa — essas quatro forças que parecem nos definir mais do que qualquer ideologia.

E é curioso como o filme usa a música como consciência moral silenciosa. Enquanto clássicos de The Smiths e The National circulam como pano de fundo de uma melancolia moderna, é a brasileira “É Preciso Perdoar” que ecoa como sentença. Não como solução — mas como provocação. Porque o filme inteiro parece perguntar: é mesmo? É preciso perdoar a qualquer custo?

Julia Roberts, em sua melhor atuação em muitos anos, sustenta essa pergunta no corpo. Sua Alma é uma mulher brilhante, poderosa, respeitada, admirada — e completamente fraturada por dentro. Uma professora de filosofia que sabe teorizar sobre o mundo, mas fracassa em lidar com os próprios fantasmas. Uma feminista de trajetória real, mas presa a contradições que ela mesma aprendeu a normalizar. Uma vítima que, em algum momento, aprendeu a sobreviver através do silêncio.

O que acontece em Depois da Caçada (sem firula, só a história)

(Aqui vale o aviso: a partir deste ponto, há spoilers da trama.)

Alma Imhoff é professora de filosofia em Yale e está às vésperas de conquistar a tão sonhada estabilidade (tenure). Ao seu redor, orbitam dois personagens que vão detonar a bomba:

  • Hank (Andrew Garfield), colega de departamento, brilhante, ressentido, alcoólatra funcional, amigo íntimo e talvez algo mais do que isso em alguns momentos;
  • Maggie (Ayo Edebiri), aluna de pós-graduação, jovem negra, rica, gay, protegida de Alma, admiradora confessa e, ao mesmo tempo, alguém que também usa essa proximidade como moeda de poder.

Tudo parece girar em torno do conforto muito específico desse mundo: jantares, debates sofisticados, livros, arte, interiores aconchegantes, a fantasia de que ali só existe inteligência e mérito. Numa dessas noites, Alma e o marido, um psicanalista que oscila entre apoio e sabotagem passiva, recebem em casa colegas e alunos. O álcool corre solto, as fronteiras se confundem, as hierarquias ficam borradas. A festa termina com Hank, visivelmente bêbado, acompanhando Maggie de volta.

Horas depois, Maggie reaparece na porta de Alma, em choque, acusando Hank de tê-la agredido sexualmente. A partir daí, o que o filme faz não é exatamente uma investigação “who did what”, mas um desmonte moral: Hank (que nega o abuso), se vitimiza; Maggie oscila entre vulnerabilidade real e atitudes que podem ser lidas como manipulação, privilégio, crise, desespero, tudo ao mesmo tempo; e Alma se vê no centro de um fogo cruzado: entre a lealdade ao amigo, a responsabilidade com a aluna, o medo de perder a carreira, o peso da própria história de abuso, que ela nunca elaborou de fato.

Hank é demitido, Maggie leva sua versão para a imprensa, Alma tenta racionalizar escolhas que são, no fundo, pura autopreservação. A universidade faz a gestão de crise. Mas, a partir daí, tudo se desorganiza na vida de Alma num emaranhado de camadas que o filme se recusa a nos dar aquilo que mais desejamos hoje: respostas fáceis. Depois da Caça não nos permite resolver a narrativa como quem resolve um tribunal de internet. Nos obriga a permanecer no território turvo onde convivem trauma, interesse, poder, medo, vaidade e autopreservação.

A minha opinião pessoal, diante da atitude de Maggie de xeretar a casa de Alma e guardar o que depois vem a ser uma importante peça do segredo do passado da professora, ela demonstra que honestidade não é seu forte. Assim seus olhares para Alma demonstram sua obsessão e competitividade. Combinado com o fato de que o grande segredo de Alma é justamente ter acusado um homem “inocente” no passado é uma resposta de que Hank não fez nada. Não que não fosse capaz, sua cena ao final com Alma confirma isso, mas não fez nada com Maggie além de confrontá-la por plágio.

Ao fim, Maggie é como uma Eve Harrington de A Malvada, obcecada com Alma e, ao perceber a hesitação de sua mentora de abraçar sua narrativa, se volta contra ela. No entanto, e aqui está a beleza de Depois da Caçada, ela não age apenas por isso, mas porque genuinamente pensa como sua geração. As mulheres zillenials se ofendem com as mulheres de gerações anteriores por não terem rompido com o patriarcado, mas aprendido a conviver com ele. Por isso, quando dirige sua revolta para Alma, acerta em um alvo que sabia por instinto mesmo que não fosse obvio (Alma só confessa tudo para o marido no final). Daí a qualidade incômoda do filme.

E sobre Alma, vale reforçar o que Maggie revela e ela nega, que a professora é como tantas vítimas de abuso: se culpa e ainda defende o abusador. No caso, Alma teve um affair com um amigo de seu pai quando tinha apenas 15 anos. Quando foi abandonada, o acusou de estupro. Como foi consensual, ela considera estar mentindo, mas foi estupro estatutário. Tecnicamente, ela falou a verdade, mas mesmo aos 60 anos, com doutorado em filosofia, ainda acredita ter “mentido” porque o expôs por vingança. Toda essa história renderia um filme sozinho.

Corta! A cena final: por que ela incomoda tanto?

Se tem um momento que merece o adjetivo “polêmico”, é a cena final. Não só pelo que acontece, mas pelo que não acontece. Anos depois do escândalo, reencontramos Alma e Maggie com suas vidas bem sucedidas, Alma como Reitora e Maggie agora noiva para casar.

Elas se encontram num restaurante indiano e, pela primeira vez, conversam não mais como professora e aluna, mentora e protegida, vítima e cúmplice, mas como duas mulheres que compartilham um conhecimento íntimo uma da outra: ambas sabem o que é ser ferida por um homem em posição de poder. Ambas sabem que, em graus diferentes, reproduziram sistemas que as machucaram. O diálogo é um clássico exemplo de passivo agressivo, mas o desconforto da cena vem do fato de que ninguém ali é exemplar.

Em vez disso, o filme nos entrega algo muito mais azedo porque na aparente vitória geral (Alma vira reitora, Maggie é uma bem sucedida acadêmica, e Hank está em Política), ou seja, não oferece punição exemplar. O que há é uma espécie de pacto silencioso entre os envolvidos e um sistema social complexo. E ouvimos o diretor dizer: “corta”, numa surpreendente quebra da quarta parede e nos acordando para o fato de que é apenas um filme.

Para nós brasileiros, que sabemos a letra de É Preciso Perdoar, é aí que a música, o tema do perdão e o título do filme colidem de vez. Depois da Caçada não nos mostra um perdão explícito, nem uma vingança formal. O que ele mostra é algo mais incômodo. Ninguém ali parece realmente perdoar. Todos apenas administram suas narrativas. Perdoar exigiria desmontar identidades inteiras, e isso ninguém está disposto a fazer. E talvez seja justamente isso o que o filme acerta com mais força: ele entende que somos feitos de contradições insuportáveis, e que o discurso público — seja o do cancelamento, seja o da absolvição — quase nunca dá conta da complexidade íntima.

No fim, Depois da Caçada não é sobre abuso apenas. É sobre o que fazemos depois: depois da acusação, depois da queda, depois da reputação, depois do silêncio, depois da verdade incompleta. É sobre quem sobrevive. E a que preço. E, talvez o mais cruel de tudo: é sobre como algumas pessoas vencem a caçada, mas continuam sendo lentamente devoradas por dentro.


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2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Tânia Maria de Oliveira Rocha Tânia Maria de Oliveira Rocha disse:

    Excelente crítica.

    Como Freddy, comenta com Alma;

    “Ganhei a batalha, mas perdi a guerra”

    Curtido por 1 pessoa

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